  Mundo Encantado
        (Treasures lost, treasures found)
   Nora Roberts


       (Verso Momentos ntimos n. 128)



        Kate Hardesty herdara um sonho de seu pai: mapas e cadernos misteriosos com instrues para encontrar um tesouro submerso. Decidida a concluir sua ltima
expedio, ela voltou para a ilha onde cresceu. L, contratou Ky Silver, um mergulhador profissional e o homem que a havia abandonado quatro anos atrs. Entretanto,
trabalhar lado a lado com ele significava alguma coisa alm de descobrir ouro...



       Digitalizao: Palas
       Reviso: Nelma


        TREASURES LOST, TREASURES FOUND
        (c) 1986 Nora Roberts
        Originalmente publicado pela Silhouette Books, Diviso da Harlequin Enterprises Limited.

        MUNDO ENCANTADO
        (c) 1987 - para a lngua portuguesa
        EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

        Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo total ou parcial, sob qualquer forma.
        Esta edio  publicada atravs de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canad.
        Silhouette, Silhouette Intimate Moments e o colofo so marcas registradas da Harlequin Enterprises B. V.

        Traduo:  Haydee Siqueira

        EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
        Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 - 3 andar
        CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
        Caixa Postal 2372

        Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Grfica Ltda. e
        impressa na Artes Grficas Guaru S/A.



CAPTULO I



        Na biblioteca, uma nica lmpada iluminava a mesa de estudos na qual Kathleen Hardesty sentava-se pela primeira vez desde que seu pai falecera, h uma semana.
        Tinha aprendido com ele que a principal preocupao de um educador deve ser o desenvolvimento integral do aluno. Durante todo o tempo em que viveram juntos,
o pai sempre enfatizara a prioridade da educao sobre todos os outros aspectos da vida; para ele tratava-se de um elo de ligao entre as civilizaes.
        Edwin J. Hardesty fora um bem-sucedido estudioso de Literatura Inglesa. Todos o consideravam muito prtico, incapaz de perder tempo com sonhos e divagaes.
Por ser uma pessoa muito fechada, jamais deixara que algum desconfiasse de que dentro dele habitava um grande aventureiro, que durante quatro anos fizera vrias
pesquisas e algumas buscas com a inteno de resgatar um tesouro submerso h mais de dois sculos.
        A exemplo do pai, Kate tambm seguira a carreira do magistrio. Agora, aos vinte e oito anos, trabalhava como professora-assistente de Literatura Inglesa 
na Universidade de Yale. Era uma mulher madura, equilibrada e bonita.
        Seus cabelos e olhos castanhos formavam um belo contraste com a pele clara, e os ossos salientes da face atribuam-lhe um certo ar de arrogncia.
        Depois de alguma hesitao, Kate decidiu que j era tempo de examinar os papis que haviam sido de seu pai.
        Com pouco mais de sessenta anos, Edwin Hardesty aparentava plena sade. Nada havia contado  filha sobre suas visitas peridicas ao mdico, at que um ataque 
cardaco o levara  morte.
        Kate jamais imaginara que o pai pudesse ter sonhos como os que guardava em grficos e registros de pesquisa nas gavetas de sua mesa na biblioteca.
        Kathleen estava descobrindo um outro lado da personalidade do professor Hardesty. Da me restavam poucas e vagas lembranas, pois mal se haviam conhecido. 
A senhora Hardesty falecera h mais de vinte anos.
        Aos poucos, a figura do pai ia se delineando no pensamento de Kate: um homem alto e encorpado, com cabelos grisalhos e uma expresso de pacincia no rosto. 
Gostava de vestir terno escuro e camisa branca. No possua muitas vaidades. Como pai nunca tivera um gesto indelicado, mas tambm nunca conseguira demonstrar muita 
afetividade.
        Fora um homem brilhante, incansvel e dedicado em seu trabalho de educador.
        Kathleen nunca o havia desapontado. Quando fora aceita no Departamento de Ingls da Universidade de Yale, sabia, embora nunca tivessem discutido a respeito, 
que o maior sonho dele era v-la tornar-se, um dia, chefe do departamento.
        Kathleen, enquanto fechava os olhos para descansar um pouco, depois de tantas horas lendo os manuscritos, pensava no que sentia por ele. Durante toda a vida 
tentou no desapont-lo e, no entanto, jamais fora recompensada com um afeto ou ao menos um elogio.
        Agora ela vivia s, na elegante casa de Cape Cod. A governanta continuava a vir s quartas-feiras pela manh, e o jardineiro, aos sbados. No se assustava 
com as responsabilidades que lhe caberiam dali para frente. Sua maior preocupao no momento era organizar os papis da biblioteca e talvez arquiv-los. No entanto, 
no resistindo  curiosidade, resolveu ler o que havia neles e descobrir o que o Sr. Hardesty guardava em segredo.
        Tesouro... Um tesouro submerso, como nos filmes de fico de Hollywood. Pelo nmero de documentos e anotaes em sua mesa, o professor Hardesty devia ter 
passado meses, talvez anos, reunindo informaes sobre a localizao de um navio mercante ingls que se perdera nas proximidades da costa da Carolina do Norte h 
dois sculos.
        A ilha de Ocracoke surgiu-lhe imediatamente na lembrana. Kathleen tentara afastar da mente tudo o que a fazia recordar o vero de quatro anos atrs. A idia 
de um tesouro submerso a fascinava, mas as recordaes se tornavam inevitveis.
        Tinha comeado a se preparar para o doutoramento quando seu pai resolvera passar o vero em Ocracoke e convidou-a para que o acompanhasse. Kathleen aceitou 
o convite, mas levou consigo a mquina de escrever porttil, algumas caixas de livros e muitas folhas de papel. Entretanto, a brancura da areia das praias e o canto 
das gaivotas quase a fizeram se esquecer de tudo isso.
        Sentia-se enfeitiada pela natureza e invadida por uma louca paixo: Ky Silver.
        At mesmo o nome, ela pensou, era de mau gosto. Entre os dois havia tanta coisa em comum como h entre um leo e uma perdiz. Tudo isso, no entanto, no evitou 
que se entregassem um ao outro durante aquele mgico vero.
        Gostava de v-lo no leme do barco que seu pai alugara, navegando contra o vento, com os cabelos negros esvoaando. A lembrana das emoes que sentira quando 
mergulhavam nas clidas guas costeiras ainda parecia viva. Envolvida com tantas aventuras, Kathleen nem se deu conta do estranho interesse que o pai demonstrara 
por barcos e mergulho, coisas para as quais antes nem ligava.
        Podia lembrar-se das muitas horas em que o Sr. Hardesty ficara enclausurado em seu quarto de hotel, lendo pilhas de livros que levara consigo. J naquela 
poca devia estar pesquisando muito. Kathleen tinha certeza de que a busca pelo tesouro do navio naufragado continuara nos veres seguintes, quando ela se recusara 
a acompanh-lo, por causa de Ky Silver.
        Ky no lhe oferecia nada alm de sonhos absurdos, por isso ela o deixou e no quis retornar nunca mais.
        Olhando para os documentos do pai, Kate tomou uma deciso. Tinha de voltar a Ocracoke e prosseguir com as buscas que ele havia iniciado. Talvez, entre todos 
os bens herdados, este fosse o de maior valor. Afinal, o mapa de um tesouro no  algo que possa ser esquecido ou arquivado sem verificao.
        Tinha de voltar, reafirmou, inquieta. Retornaria ao lugar onde estava Ky Silver. Mas agora a Dra. Kathleen Hardesty conhecia a diferena entre contos de 
fadas e a realidade. Esticando o brao, tirou de dentro da gaveta da mesa algumas folhas de papel e ps-se a escrever.
        Duas coisas faziam a vida de Ky valer a pena: seus passeios de barco em alta velocidade e o descanso na rede da varanda ao entardecer. Gostava de sentir 
o cheiro da gua salgada do mar. Apesar de bastante habituado  vibrao do convs sob seus ps, sentia prazer a cada pequeno movimento do barco. Sendo muito sensvel, 
nunca deixava as coisas passarem despercebidas. Tinha crescido numa calma vila situada  beira-mar e, apesar das muitas viagens que fizera, no desejava morar em 
nenhuma outra parte do mundo. Agradavam-lhe a liberdade proporcionada pela imensido do mar e o convvio com uma pequena e agradvel comunidade.
        No se ressentia com os turistas, pois eles ajudavam a manter a vila. Gostava mais do inverno, quando as tempestades eram violentas, e s os mais corajosos 
cruzavam a enseada de Hatteras.
        Todo o alimento que obtinha das guas era utilizado para seu prprio consumo. Mergulhar proporcionava-lhe imenso prazer. De vez em quando, descia s profundezas 
do oceano e l passava minutos de indescritvel satisfao, alheio aos problemas do mundo, coletando conchas apenas pelo prazer de faz-lo. Com freqncia levava 
turistas para mergulhar ou pescar em alto-mar. No entanto, em certos dias, preferia ficar s, em seu barco, permitindo que os pensamentos voassem livres como as 
gaivotas, imaginando-se senhor absoluto das guas e de tudo que nelas vive.
        Sempre fora uma pessoa inquieta. Segundo sua me, ele viera ao mundo duas semanas mais cedo, porque no agentou esperar pelos nove meses normais. Ky havia 
completado trinta e dois anos na primavera, mas nem pensava em mudar sua maneira de viver. A nica coisa que queria era ter liberdade para tomar suas prprias decises 
quanto ao futuro. O problema  que nem ele mesmo sabia que tipo de futuro desejava. Sentir-se dono do cu lmpido e daquele mar infinito parecia ser o suficiente 
para que vivesse feliz.
        Uma brisa agradvel amenizava o calor, e o barco de Ky j quase na praia vazia trazia alguns peixes que seriam preparados para o jantar.
        Quem o olhasse a certa distncia, em seu barco, poderia confundi-lo com um pirata, isso se houvesse piratas no sculo vinte. Os cabelos eram longos o suficiente 
para cobrir-lhe as orelhas e a nuca, e tinham uma cor negra, talvez proveniente do sangue siciliano que lhe corria nas veias. Os olhos assemelhavam-se ao escuro 
verde do mar num dia de sol. A pele bronzeada e o corpo perfeito tornavam-no muito atraente.
        Seu sorriso continha uma expresso de liberdade e despreocupao que as mulheres amavam. Quando no sorria, no entanto, seus olhos podiam tornar-se frios 
como os de um leo que se prepara para atacar a presa. Ky descobrira, h muito tempo, que as mulheres achavam isso tambm irresistvel.
        Depois de ter diminudo a velocidade do barco, manobrou-o para a vaga que lhe era reservada no porto de Silver Lake. Com os movimentos rpidos e eficientes 
de algum que nasceu para o mar, saltou para o cais e prendeu o barco pelos cabos com a ajuda de seu irmo, Marsh, que o estava aguardando.
        - Apanhou alguma coisa? - perguntou Marsh.
        - O suficiente - respondeu Ky, sorrindo. - E como est o movimento no "Paraso"? Muito fraco?
        Sem responder  pergunta, o irmo sorriu. Os dois eram bastante parecidos, mas Marsh costumava ser mais cuidadoso com a aparncia.
        - Preocupado com o seu investimento, Ky?
        - Com voc cuidando dos negcios? - observou, encolhendo os ombros.
        Ambos se conheciam muito bem, e a diferena de temperamento nunca fora obstculo para que se entendessem.
        - Linda quer que jante conosco. Ela se preocupa muito com voc.
        A cunhada, apesar de ser cinco anos mais jovem do que Ky, tratava-o com o desvelo de uma me. Dirigia o restaurante com o marido, e grande parte do sucesso 
em que se tornara o "Paraso" era devido a sua extrema dedicao, unida  competncia e  facilidade de Marsh para os negcios, alm das renovaes inteligentes 
feitas por Ky. Quando montaram o negcio, ficou decidido que a direo seria de total responsabilidade de Marsh e Linda, pois Ky, habituado com o trabalho ao ar 
livre, jamais conseguiria viver entre quatro paredes.
        Depois de amarrar com fora os cabos do barco, Ky limpou as mos no calo e perguntou:
        - Qual o cardpio desta noite?
        - Teremos uma bela peixada!
        Sorrindo, Ky levantou a tampa da pequena geladeira, mostrando o produto da pescaria.
        - Diga a Linda para no se preocupar, eu tenho o que comer.
        - Ela no vai gostar -- replicou o irmo, enquanto Ky contemplava a imensido do mar. - Acha que voc anda solitrio demais.
        - Uma pessoa s se sente solitria demais quando no gosta da solido, e este no  o meu caso. - Ky tinha os olhos perdidos no horizonte. Voltou-se para 
o irmo e continuou: - Talvez se vocs tivessem um outro beb, Linda ficaria ocupada o bastante para no ter tempo de pensar em mim.
        - Ora, d-me um tempo, Hope tem apenas dezoito meses!
        - Pois ela parece ter pelo menos trs anos. - Ky gostava muito da sobrinha, apesar de ela ser um verdadeiro demoniozinho. - De qualquer forma, parece que 
a tarefa de impedir o fim de nossa linhagem ser da pequena Hope.
        - Sim. - Marsh deu um tossido para limpar a garganta e calou-se, como quem diz: "J que voc no resolve a sua vida..." Este tipo de atitude s vezes aborrecia 
Ky, pois o fazia sentir-se cobrado por algo que no desejava fazer: assumir responsabilidades.
        De repente, Ky pressentiu alguma coisa estranha no ar. Ao que tudo indicava, Marsh tinha algo a lhe dizer, mas hesitava.
        - Voc est com cara de preocupado. Diga logo o que , pois preciso voltar para casa antes que chova.
        - Tenho uma carta para voc. Foi deixada em minha casa por engano.
        Pela expresso no rosto de Marsh, Ky pressentiu que ainda havia algo mais. Sem dizer uma s palavra, ele pegou a carta.
        - Ky... - disse Marsh, No havia nada que ele pudesse fazer pelo irmo, como no houvera tambm quatro anos antes.
        Ky nem precisou olhar o nome do remetente para saber de quem se tratava. A caligrafia inconfundvel trouxe-lhe recordaes dos muitos momentos felizes que 
vivera um dia. Prendeu o ar nos pulmes por alguns instantes, tentando no entregar-se s emoes. Procurou manter a calma e no demonstrar o que sentia.
        - Obrigado - disse, com indiferena. Enquanto guardava a carta no bolso, foi tomado pelas lembranas. Recolheu os apetrechos que estavam no cho e ps-se 
a caminho de casa.
        - Ky! - gritou Marsh. - Se voc mudar de idia quanto ao jantar...
        - Eu o avisarei - disse ele, andando pelo cais com uma expresso fria e impaciente nos olhos.
        
        Por sorte no tinha vindo ao porto com seu carro. Quando algo o perturbava, o melhor para clarear as idias era uma boa caminhada. Lembrava-se de coisas 
que no queria sobre o passado. Algum de quem nunca se esquecera: Kate.
        Quatro anos atrs ela sara de sua vida com a mesma rapidez com que entrara. Ky costumava compar-la a uma boneca vitoriana: meio presunosa, meio fria... 
Ele nunca tivera muita pacincia com mulheres que se portam de maneira arrogante, mas se apaixonara por Kate e a desejara com loucura desde o primeiro instante em 
que a vira.
        Na verdade, sentira-se desafiado por ela e sua maneira diferente de ser. Adorava ensin-la a mergulhar e acompanhar passo a passo o seu aprendizado, lento 
mas eficiente. Gostava de ver seu corpo esbelto, elegante e atraente, delineado pela roupa de mergulho.
        Ky ainda podia lembrar-se da primeira vez em que ela soltara os cabelos brilhantes e macios, permitindo que ficassem livres para flutuar ao ritmo do vento. 
Isso o deixou sem flego, fascinado, com um desejo incontrolvel de toc-la, de acariciar sua pele e seus cabelos. A presena do Sr. Hardesty muitas vezes o impedira 
de tocar Kate, mas um homem inteligente e determinado a levar adiante seus intuitos sem dvida acharia uma forma de ficar a ss com a mulher amada. E Ky teve essa 
oportunidade diversas vezes.
        O fundo do mar, com suas surpresas e emoes, atraa a ambos. Kate estava se dedicando ao mergulho com muita vontade, e Ky ensinava-lhe cada segredo daquele 
mundo encantado e perigoso.
        Quando se beijaram pela primeira vez, estavam no convs do barco, descansando das aulas de mergulho. Os cabelos molhados de Kate pingavam, e as gotas iam 
escorrendo pelo seu corpo. Ky tocou-a como que enfeitiado.
        - O que est fazendo? - ela perguntou.
        - Vou beij-la.
        Uma expresso de surpresa e espanto tomou conta dos olhos de Kate, excitando-o.
        - Por qu?
        - Porque eu quero - respondeu.
        Para Ky era simples assim, mas ela relutou um pouco e enrijeceu o corpo para resisti-lo. Embora tentasse protestar, seus lbios foram cobertos pelos dele 
num longo e caloroso beijo. A rigidez foi desaparecendo, e Kate beijou-o com toda a paixo que sua inocncia permitia. Ky, ao notar a ingenuidade dela, viu-se fascinado.
        Kate permanecera um enigma, embora tivessem passado muitas horas juntos, rindo e conversando de maneira descontrada. Ky admirava-lhe a sede de aprender 
e divertia-se com aquele jeito complicado que ela tinha de falar, o que muitas vezes o deixava confuso. Era uma pessoa muito curiosa e no se contentava em nada 
sob a gua com o auxlio de um tanque de ar, tinha de saber como eles funcionavam, como haviam sido construdos etc. Ky ficava encantado ao v-la absorver com tanta 
vontade o que ouvia.
        Gostava de fazer longas caminhadas pela praia  noite, e nessas ocasies Kate recitava poesias, de cor. Belas poesias, como as de Byron, Shelley e Keats, 
que se revestiam de encanto especial quando declamadas por sua voz melodiosa e compassada. E Ky, que nunca se impressionara com esse tipo de arte, sentia-se envolvido 
pela emoo e pela vida que ela dava aos versos. Em seguida, comeava, entusiasmada, a falar de teorias gramaticais, e ele logo mudava de assunto, sem deixar que 
Kate percebesse.
        Durante trs meses pensou noite e dia na possibilidade de mudar de vida. Sua pequena cabana perto da praia necessitava de uma reforma e de moblia, Kate 
precisaria mais do que simples caixotes e redes de dormir. Comeou a fazer mil e um planos para o futuro, mas Kate tinha seus prprios planos traados e acabou deixando-o 
sozinho e voltando para a cidade.
        O Sr. Hardesty voltou  ilha no vero seguinte, e assim o fez em todos os outros veres. Ela, entretanto, jamais retornou.
        Ky sabia que Kate j havia concludo o seu doutoramento e que estava lecionando numa escola de grande prestgio, da qual seu pai fora um dos fundadores. 
Ky reconhecia as diferenas que havia entre eles, mas jamais se conformou com o fato de ter sido abandonado pela nica pessoa que realmente amou em toda sua vida.
        Colocando a geladeira porttil no cho da cozinha, abriu o refrigerador e bebeu uma cerveja gelada quase at a metade num s gole, como se isso o ajudasse 
a resistir  tristeza que sentia.
        Mais calmo, decidiu ler a carta:
        
        "Prezado Ky:
        No sei se voc est informado de que meu pai faleceu na semana passada, vtima de um ataque cardaco. Foi algo totalmente inesperado. No momento estou tentando 
acertar os muitos detalhes que ficaram pendentes com a morte dele.
        Ao examinar os papis que deixou, fiquei sabendo que pretendia voltar  ilha neste vero e utilizar os seus servios. Creio que chegou o momento de eu assumir 
o lugar de meu pai e, por razes que prefiro explicar pessoalmente, necessitarei de sua ajuda. O depsito bancrio j foi feito em seu nome por ele mesmo. Quando 
chegar a Ocracoke, no dia quinze, discutiremos os termos do acordo.
        Se possvel, entre em contato comigo no hotel, deixe um recado.  possvel que venhamos a realizar um negcio interessante para ambas as partes. Por favor, 
d lembranas minhas a Marsh. Talvez eu o veja durante minha estada.
        Cordialmente
        Kathleen Hardesty."
        
        Ky no podia dizer que sentira afeio por Edwin Hardesty, pois ele estava sempre mal-humorado e era uma pessoa difcil de se lidar. No entanto, havia se 
acostumado  sua companhia nos ltimos veres. Mas desta vez seria Kate!
        Olhou para a carta e pensou: "Dois dias". Kate estaria ali em dois dias... para discutir os termos de um acordo. Um discreto sorriso surgiu em seus lbios, 
mas no era um sorriso de felicidade. Eles discutiriam os termos do acordo, repetiu em silncio, enquanto corria os olhos pela carta.
        Ento Kate queria assumir o lugar do pai! Ficou imaginando se ela no teria percebido, quando escreveu a carta, o quo irnico era aquilo. A vida toda seguira 
os caminhos determinados pelo Sr. Hardesty e, mesmo aps a morte dele, continuaria seguindo suas idias.
        Mas as recordaes logo invadiram Ky. Ser que aquela fascinante aura de inocncia e indiferena ainda se achava presente nela? Ou teria se desvanecido com 
o passar dos anos. Em dois dias teria a resposta para essas perguntas...
        Ento Kate queria contratar os seus servios, ele pensou, depois de ter atirado a carta sobre a mesa. Em seguida, apoiou as mos na pia e ps-se a olhar 
pela janela. O mar estava calmo e uma brisa gostosa vinha da praia. Um acordo comercial: o aluguel de seu barco, do equipamento de mergulho e o seu tempo. Sentiu 
um amargor subindo pela garganta e o engoliu to rpido como havia feito com a cerveja. Teria seu acordo, sim. E pagaria por ele.
        Ky deixou a cozinha sem retirar os peixes da geladeira porttil. O apetite, que surgira feroz com o cheiro da gua salgada e a velocidade do barco, tinha 
desaparecido por completo.
        
        Kathleen manobrou o carro para dentro da balsa que a levaria a Ocracoke. A manh estava fresca e o cu, muito claro. Mesmo assim, ela sentia vontade apenas 
de recostar a cabea no banco e fechar os olhos.
        Ao seu lado havia uma pasta contendo todos os documentos que juntara na mesa da biblioteca de seu pai. Quando j estivesse no hotel da ilha, reexaminaria 
tudo. Quem sabe, ento, a sensao de que estava fazendo  coisa certa voltasse, fortalecendo-a como acontecera alguns dias atrs.
        Quanto mais se aproximava de Ocracoke, mais as dvidas aumentavam. Talvez fosse um erro reencontrar-se com Ky, depois de tantos anos.
        Restava-lhe pouco tempo para apagar as recordaes que tinham invadido sua mente durante a viagem. Era tolice ficar se atormentando por coisas que aconteceram 
no passado. Afinal, no estava voltando para reconciliar-se com um amante, mas para incumbir um mergulhador competente de uma tarefa muito especial, pela qual seria 
muito bem remunerado. Os sentimentos pessoais no importavam em absoluto, pois fariam um negcio, apenas isso.
        A Kathleen Hardesty que chegara  ilha do Ocracoke quatro anos atrs tinha pouca coisa a ver com a Dra. Kathleen Hardesty que se dirigia para l agora. No 
era mais uma jovem inexperiente. O tipo rude e ousado de Ky no mais lhe causaria abalos nem sustos. Seriam apenas scios num acordo comercial.
        Kathleen sentia a balsa movendo-se, enquanto olhava atravs do pra-brisa do automvel. Sim, pensou, a menos que ele tivesse mudado muito, a perspectiva 
de mergulhar em busca de um tesouro perdido despertaria o seu esprito de aventura.
        Ky, sem dvida, daria conta do trabalho, pois era o melhor e mais competente mergulhador da ilha. Mais relaxada e sentindo-se menos cansada, Kate desceu 
do carro e ficou parada junto s grades da balsa. De l observava o vo majestoso das gaivotas e as belas ilhas desabitadas pelas quais passavam. Sentiu uma estranha 
sensao de estar voltando ao lar, mas tratou logo de afast-la. Connecticut era o seu lar. E, uma vez que tivesse concludo o que viera fazer, retornaria para l.
        Redemoinhos iam se formando  medida que a balsa avanava, e, embora fosse impossvel ouvir-lhe o som, devido ao ronco barulhento dos motores, Kate assistia 
maravilhada  agitao das guas. Era muito difcil distinguir uma ilha de outra, pois todas se confundiam sob o manto de grandes pelicanos marrons que as sobrevoavam. 
Sorria, satisfeita por rever aqueles pssaros esquisitos, de aparncia grosseira e movimentos desengonados. A balsa passou prxima a uma extensa ponta de terra, 
onde os pescadores estacionavam seus caminhes, e Kate acenou para eles antes de voltar para dentro do carro.
        Logo que a balsa atracou, ps o automvel em movimento. E, sem perda de tempo, tomou a longa e estreita estrada que a levaria  vila.
        A tenso j havia desaparecido, constatou aliviada. S restava um leve nervosismo, coisa sem importncia, muito comum em situaes de ansiedade como aquela. 
J se sentia preparada para rever Ky, falar com ele e trabalhar em sua companhia, desde que pudessem chegar a um acordo.
        Enquanto dirigia, uma brisa mida e suave penetrava pelas janelas, aliviando o calor e o cansao que tomavam conta de seu corpo.
        Ao avistar as humildes casas da vila, experimentou uma agradvel sensao de serenidade e confiana. Estava l, e agora no voltaria mais atrs.
        O hotel onde se hospedara com seu pai quatro anos atrs ficava na melhor parte da ilha. Era um hotel simples e tranqilo, onde o servio de atendimento no 
era to eficiente quanto na cidade, mas a maravilhosa paisagem do local compensava esse pequeno inconveniente.
        Estacionou o carro e desligou-o. A satisfao que sentia consigo mesma a fez suspirar. Havia dado o primeiro passo e estava preparada para o seguinte.
        Ao descer do veculo, viu Ky do outro lado da rua. Por um instante, viu a fora e a confiana que experimentara h poucos segundos desmoronarem. Sentia-se 
frgil e entregue s emoes.
        Oh, Deus, ele no havia mudado em nada. Continuava exatamente o mesmo.  medida que Ky ia se aproximando, Kate era tomada pelas recordaes de cada beijo, 
cada murmrio, cada instante ardente vivido pelos dois. Com o calor do sol a aquecer-lhe a pele e com o brilho dos olhos de Ky, Kate sentiu como se estivesse retornando 
no tempo. Aquele olhar lhe era to familiar como h quatro anos.
        Ky ficou surpreso ao v-la. No imaginava que chegaria to cedo. Contudo, sentiu vontade de ir at o Paraso para ver como andavam as coisas. Como o hotel 
ficava bem em frente ao restaurante, o encontro foi inevitvel.
        Ela estava ali e parecia um pouco mais magra, vestida com uma blusa simples e cala comprida. Seus cabelos estavam presos para cima, revelando a doce feminilidade 
do pescoo. Os olhos pareciam escuros demais em contraste com a pele alva, que aos poucos se tornaria dourada sob o intenso sol de vero.
        Tinha a mesma feio suave, um pouco arrogante, mas serena. Adorvel. Ky procurou controlar o nervosismo quando parou na frente dela. Olhou-a de cima a baixo 
e ento sorriu, para disfarar a enorme tenso que tomava conta de seu corpo.
        - Kate! Parece que sou mais pontual do que pensava.
        Ela quase no conseguia esconder a impacincia e comeou a falar devagar, procurando parecer calma.
        -  bom v-lo outra vez.
        - ?
        Ignorando o sarcasmo, ela deu a volta e abriu o porta-malas do carro.
        - Gostaria de falar-lhe sobre nosso contrato o mais breve possvel. Precisamos discutir sobre o assunto.
        - Sem dvida - respondeu Ky. - Estou sempre aberto para os negcios.
        Ele apenas observou enquanto Kate retirava duas malas do automvel, sem se oferecer para ajud-la. Notou que no havia aliana no dedo dela, no que isso 
importasse no momento.
        - Talvez possamos nos encontrar hoje  tarde, depois que eu tiver me arranjado no hotel. Quanto mais cedo fixarmos os objetivos e os termos do pagamento 
melhor. Voc poderia almoar comigo hoje?
        - No, obrigado - ele disse, encostando-se na lateral do carro, enquanto Kate descarregava o resto da bagagem. -  voc que precisa de mim, e sabe onde me 
encontrar. Esta ilha  pequena.
        Com as mos nos bolsos, ele foi embora sem dizer mais nada. Isso fez com que ela se lembrasse de uma cena idntica ocorrida quatro anos antes.
        Apanhando as malas, dirigiu-se para o hotel sem saber ao certo o que sentia.
       
       
       
       CAPTULO II
        
        
        
        Mesmo que a ilha tivesse o dobro do tamanho, encontrar Ky no seria uma tarefa difcil para Kate. Ir ao encontro dele com tanta rapidez talvez fosse um erro 
estratgico. Pensando nisso, comeou a desfazer as malas com calma.
        As recordaes invadiam seus pensamentos. Ali quatro anos atrs, tinham passado uma noite toda juntos, vibrando de paixo um nos braos do outro, at que 
os primeiros raios de luz invadiram o cmodo, pondo um ponto final quelas horas de prazer e encantamento.
        Aproximou-se da janela e, olhando para a rua, foi tomada mais uma vez pelas lembranas. Era como se revivesse aquela noite. O cu tinha, ento, uma colorao 
rosada, que se transformou em lmpido e esplndido azul momentos mais tarde.
        Com a pele ainda quente e a mente tomada pelo desejo, Kate acreditara que as sensaes que estava experimentando pudessem durar para sempre. Mas  claro 
que no poderiam, e ela s veio a entender isso semanas depois. A paixo e as impensadas noites de amor tiveram de ceder lugar s responsabilidades e obrigaes.
        Vivera momentos terrveis ao partir, pois sabia que nunca mais estariam juntos; que o sonho tinha se acabado.
        Kate jamais se entregou a outro homem; passou a dedicar-se  sua carreira,  sua vocao e a seus livros
        Voltando  realidade, decidiu iniciar as negociaes. Pegou a maleta de documentos e foi para a casa de Ky. Em vez de pegar o carro, preferiu ir a p, como 
fizera diversas vezes durante o vero de quatro anos atrs.
        Enquanto caminhava, ia tentando se convencer de que j estava refeita do choque que sentira ao rev-lo. O fato de ela ficar feliz e nervosa na presena de 
Ky provocava-lhe uma certa insegurana. Afinal, teria de estabelecer apenas uma relao comercial com ele.
        Ky Silver continuava exatamente o mesmo, ela pensou. Arrogante e pretensioso. Essas caractersticas um dia a atraram, mas ela era muito jovem ento; agora, 
porm j mais madura, tinha outras coisas em que pensar. No estava em Ocracoke por acaso; tinha um objetivo e iria at o fim com ou sem a ajuda dele.
        Kate atravessou a vila observando que quase tudo ali tambm continuava o mesmo. As construes simples e a tranqilidade que pairava no ar a agradavam. Dezenas 
de lojinhas, restaurantes e pequenas hospedarias espalhavam-se pelo local. Os aldees tiravam o mximo proveito de seu notrio fantasma: o Barba Negra, que durante 
um bom tempo morou na ilha. Seu nome e seu rosto eram muito utilizados nas placas colocadas  frente das casas comerciais.
        Passando pelo porto, Kate desviou os olhos para o barco de Ky. Estava no mesmo lugar de sempre. O convs escovado e o equipamento brilhando como novo. A 
ponte de comando cintilava, refletindo os raios de sol. Os vidros estavam to limpos que pareciam nem existir. Ele sempre tratava o barco com mais cuidado do que 
a si mesmo e a sua cabana.
        "Tufo." Refletiu, por alguns instantes, sobre o significado que tinha para Ky essa palavra escrita com letras floridas na popa do barco. S ela sabia a 
velocidade vertiginosa que ele costumava desenvolver naquela lancha-cruzeiro de segunda mo que havia reformado com tanto amor. Nada poderia apagar a recordao 
dos dias em que ficara ao seu lado no leme. O vento desarrumava-lhe os cabelos enquanto acelerava o barco at o ponto em que ambos tinham certeza de que nada nem 
ningum poderia alcan-los. Ela sentira medo dele... da violncia dos ventos... E, por fim, decidira abandonar-se a tudo.
        Ky adorava as emoes fortes e deliciava-se com o perigo. Mas no fora essa a razo que a levara a procur-lo? Existiam dezenas de outros mergulhadores experientes, 
grandes conhecedores das guas costeiras. Mas apenas um Ky Silver.
        - Kate? Kate Hardesty?
        Ao ouvir algum chamando seu nome, virou-se e, de sbito, sentiu novamente como se os anos estivessem retrocedendo.
        - Linda! - exclamou admirada, abrindo um largo sorriso. - Que prazer encontr-la!
        As duas abraaram-se, e Kate ficou admirada com a beleza da amiga. Os mesmos cabelos castanhos cortados de maneira a realar-lhe a jovialidade do rosto; 
os mesmos olhos cor de mel demonstrando franqueza e firmeza de carter. Muito pouca coisa havia mudado na ilha.
        - Voc est tima!
        - Quando olhei pela janela e a vi, mal pude acreditar. Voc continua praticamente a mesma! - Com a costumeira simplicidade, e sem pretenso, Linda submeteu-a 
a uma rpida e completa inspeo visual. - Analisando melhor, estou achando-a meio magra. Bem, mas creio que isso  algo de que outras moas devem sentir inveja.
        - E voc est parecendo uma garotinha recm-ingressada na Universidade - disse Kate em tom alegre retribuindo o elogio da amiga. - Isso, sim, deve causar 
inveja s outras mulheres.
        Logo em seguida Linda assumiu um ar de seriedade e disse, comovida:
        - Sinto muito quanto a seu pai. Estas ltimas semanas devem ter sido difceis para voc.
        Kate, calada, ouviu as palavras sinceras da amiga, embora parte da tristeza e da dor que sentira na ocasio da perda j tivesse passado.
        - Foi Ky quem lhe contou?
        - Ele nunca me conta coisa alguma - disse Linda, lanando um olhar para o "Tufo". E, como Kate estava se dirigindo para o norte, s havia um lugar para 
onde poderia estar indo: a cabana dele. - Quanto tempo pretende ficar?
        - No estou certa ainda. H algumas coisas que preciso fazer.
        - Sim, e uma delas  jantar no restaurante "Paraso" esta noite. Fica bem em frente ao seu hotel.
        Kate virou-se e olhou para a rstica placa de madeira colocada  porta.
        - Sim, eu notei.  novo?
        Linda, demonstrando satisfao e orgulho, sacudiu a cabea em sinal afirmativo.
        - Pelos padres de Ocracoke, sim. E somos ns que o dirigimos.
        - Ns?
        - Marsh e eu. Estamos casados h trs anos - explicou ela com um sorriso alegre nos lbios. Depois revirou os olhos num gesto tpico seu, do qual Kate se 
lembrava muito bem. - S levei quinze anos para convenc-lo de que no poderia viver sem mim.
        - Fico feliz por vocs. Casados e dirigindo juntos um restaurante... Meu pai nunca me colocou a par das fofocas da ilha.
        - Temos uma filha tambm, ela se chama Hope. Tem um ano e meio e  um assombro de criana. Por alguma razo ela parece ter puxado ao Ky. - Linda assumiu 
uma expresso sria e colocou a mo no brao de Kate. - Voc vai procur-lo agora? - perguntou, sem disfarar a apreenso que sentia.
        - Sim. - "No perca a naturalidade", Kate ordenou a si mesma. "No se deixe enfraquecer pela preocupao nos olhos de Linda." - Meu pai estava trabalhando 
em algo muito importante quando morreu; algo que pretendo levar adiante agora. Mas, para isso, necessitarei da ajuda de Ky.
        Linda observou que Kate falava com tranqilidade.
        - Voc tem certeza do que est fazendo?
        - Sim - ela respondeu, sem deixar transparecer o menor sinal de inquietao. Na verdade, sentia-se nervosa. - Sei exatamente o que estou fazendo.
        - Est bem. - Aceitando a resposta da amiga, mas no satisfeita, Linda baixou a mo. - Por favor, no se esquea de vir ao restaurante ou  nossa casa esta 
noite. Ns moramos logo adiante de Ky, na mesma rua. Marsh ficar feliz em v-la, e eu estou ansiosa para mostrar-lhe Hope e o nosso cardpio tambm,  claro; ambos 
so notveis - acrescentou com um sorriso.
        - Virei com certeza! - Num gesto espontneo, Kate segurou as mos de Linda. -  to bom rev-la. Sei que nunca mais entrei em contato com voc, mas...
        - No se preocupe, eu entendo. O que passou, passou. Agora eu tenho de voltar. Nesta poca do ano h sempre uma multido esperando pelo almoo. - Soltou 
um leve suspiro, imaginando se Kate estaria, no ntimo, to calma quanto aparentava, - Boa sorte - murmurou. Ento atravessou a rua e voltou ao restaurante.
        - Obrigada. - Ia mesmo precisar de muita fora para encarar Ky sem se deixar influenciar pelo passado.
        A caminhada foi to bela como das muitas outras vezes em que ela fizera esse trajeto. Ficou fascinada com os lindos artigos feitos a mo e as antiguidades 
expostas nas vitrines das lojinhas. Tudo ali trazia-lhe gratas recordaes, at mesmo as pequenas casas com suas paredes externas revestidas de ripas de madeira 
nas cores azul e branca. Este tipo de revestimento era utilizado para impedir a penetrao da umidade.
        O ltimo trecho do caminho antes de chegar  cabana de Ky era estreito e recoberto de cascalho.
         medida que se aproximava, Kate ia se tornando insegura, as palmas de suas mos estavam midas e o nervosismo aumentava. Por que esse maldito medo no desaparecia? 
Ela se perguntava, irritada consigo mesma.
        A estrada era estreita, e de ambos os lados havia muitos arbustos e rvores, que, com seus enormes galhos, davam uma aparncia selvagem ao local, isso tudo 
agradava muito a Ky. Certa vez ele dissera a Kate que no fazia questo de receber visitas. Se quisesse companhia, o que tinha a fazer era ir  vila e pronto. L 
conhecia todo mundo. Quando queria uma visita, ele fazia o convite. No gostava de ser importunado por ningum.
        Ele a quisera uma vez... Nervosa, Kate segurou a pasta com as duas mos. O que Ky queria j no tinha muita importncia, agora ele teria apenas de ouvi-la. 
Ela necessitava de sua colaborao para as duas coisas que ele melhor sabia fazer: mergulhar e no desperdiar oportunidades.
        Ao chegar a casa, Kate passou e ficou alguns instantes a observ-la. Continuava pequena, primitiva. Contudo, no dava mais aquela impresso de que iria desabar 
com um vento mais forte.
        O telhado fora reconstrudo. Talvez Ky no precisasse mais espalhar vasilhas pelo cho quando chovia forte.
        Uma varanda ocupava toda a parte da frente e parecia recm-construda. A velha porta de tela, remendada em meia dzia de lugares, fora substituda por uma 
nova. Ainda assim, nada parecia novo, ela observou. Parecia apenas estar em ordem.
        No, estava enganada, concluiu Kate ao se aproximar. Algo estava diferente, ou melhor, Ky Silver tinha mudado, mas como e quanto ela ainda teria de descobrir.
        Estava colocando o p no primeiro degrau quando ouviu sons que vinham de trs da casa. Havia um barraco l, lembrou-se, cheio de tbuas e ferramentas. Satisfeita 
por no precisar entrar, Kate deu a volta pela lateral da cabana em direo ao quintal. Podia ouvir o barulho das ondas do mar, que ficava bem prximo. Numa curta 
caminhada, atravs de um gramado e dunas de areia, podia-se chegar at a praia.
        Ky gostava muito de passear pela areia  noite, apenas para olhar o cu e sentir o aroma da gua salgada. s vezes apanhava pedaos de madeira, conchas ou 
quaisquer outros pequenos tesouros que o mar enviasse  praia. Certo dia presenteara Kate com uma pequenina concha que se encaixava perfeitamente na palma das mos. 
Era quase toda branca, com uma delicada tonalidade rosa no centro. Uma mulher que recebesse um punhado de diamantes como o primeiro presente de sua vida no teria 
ficado to emocionada... Kate entrou no barraco. A ltima vez que estivera no local, estava repleto de madeira e caixas de ferramentas. Agora havia o casco de um 
barco. Na ponta de uma mesa, de costas para ela, Ky trabalhava, lixando o mastro.
        - Voc o construiu! - exclamou Kate, atnita e satisfeita. Quantas vezes ele contara sobre o barco que um dia iria construir? Esta sempre parecera ser a 
nica ambio de sua vida. Costumava dizer que seria feito em madeira de carvalho e que seria muito veloz, capaz de cortar as guas como um relmpago. Um dia viajaria 
pelas guas costeiras de Ocracoke a New England. Ele costumava descrever o barco com tanto entusiasmo e detalhes que Kate podia at visualiz-lo... Mas agora; o 
barco era real. Ver este sonho de Ky realizado lhe provocava uma estranha emoo.
        - Eu lhe disse que faria. - Ele se virou e a encarou.
        - Sim. - Sem saber o que dizer e sentindo-se uma tola, Kate apertou a pasta nas mos. - Voc disse.
        - Mas nunca acreditou em mim - disse Ky com um pouco de raiva e atirando a lixa para o lado. Como ela conseguia ser to bela e atraente e ao mesmo tempo 
to insensvel? - Voc sempre teve problemas para enxergar alm do presente.
        Imprudente, impaciente, mando. Ser que ele ficaria a vida toda insistindo no mesmo assunto?
        - E voc sempre teve problemas para enxergar o presente.
        Ao ouvir as palavras dela, a expresso de seu rosto modificou-se.
        - Ento pode-se dizer que ns dois sempre tivemos problemas - disse ele. - Mas houve uma poca, quatro anos atrs, em que isso parecia no ter a menor importncia. 
- Aproximou-se de Kate e, esticando o brao, tocou-lhe o rosto. Ela no se moveu. Sua pele continuava to sedosa e fresca como antes. - Voc parece cansada.
        Apesar da aparente calma e indiferena, ela sentiu uma contrao no estmago. Sua voz, entretanto, permanecia inalterada.
        - Foi uma viagem longa.
        - Creio que voc est necessitando tomar um pouco de sol - disse, deslizando os dedos pela face dela.
        Desta vez Kate se afastou e, desejando mudar o rumo da conversa, falou sria:
        - No se preocupe com isso. Eu pretendo tomar um pouco de sol.
        - Foi o que deduzi ao ler a sua carta. - Satisfeito por notar que ela recuava, Ky encostou-se junto  porta do barraco. - Voc escreveu dizendo que precisava 
falar comigo. Estou aqui. O que deseja?
        O sorriso arrogante nos lbios dele, no passado, poderia t-la feito delirar de paixo. Agora, no entanto, servia apenas para fortalec-la na deciso que 
havia tomado. - Meu pai estava trabalhando num projeto. Eu pretendo termin-lo.
        - E ento?
        - Preciso de sua ajuda.
        Ky riu e caminhou para fora do barraco. Precisava de ar puro para coordenar as idias. Sentia uma enorme necessidade de toc-la outra vez.
        - Pelo seu modo de falar, parece que no h nada que deteste mais do que me pedir ajuda.
        - No, no h - respondeu Kate com aspereza. Havia uma profunda expresso de frieza nos olhos dele quando se voltou para encar-la.
        - Bem, vamos tentar nos entender antes de comearmos. H quatro anos voc abandonou a ilha e a mim, destruindo todos os planos que eu tinha para o futuro.
        Aquele olhar j no era mais capaz de faz-la curvar-se como no passado.
        - O que aconteceu naquele vero no tem nada a ver com o dia de hoje.
        - Com os diabos. No tem mesmo. - Kate deu um passo para trs quando viu Ky andando em sua direo. - Ainda com medo de mim?
        Como tinha ocorrido um momento antes, a pergunta transformou o medo dela em raiva.
        -  claro que no - respondeu. - No estou com medo de voc. No tenho inteno de discutir sobre o passado, mas tenho de reconhecer que abandonei a ilha 
assim como a voc. Mas agora estou aqui a negcios. Gostaria que me ouvisse. Se estiver interessado, conversaremos sobre isso, e nada mais.
        - Eu no sou um de seus alunos, professora - disse ele, imprimindo um toque de ironia  frase. - Portanto, no queira me dar instrues.
        - Em negcios existem sempre as regras bsicas.
        - Mas quem disse que voc  a pessoa indicada para formul-las?
        - Acho que cometi um erro ao procur-lo - Kate disse em voz baixa, enquanto lutava para no perder o controle. - Eu encontrarei outra pessoa que possa me 
ajudar.
        Ela tinha dado apenas dois passos quando Ky a segurou pelo brao.
        -No, voc no encontrar. - A expresso de clera nos olhos dele a fez tremer. Sabia o que ele estava tentando dizer. Ela nunca acharia outro homem capaz 
de despertar-lhe as emoes e os mesmos desejos.
        Precisava resistir. Afastou a mo dele de seu brao com um gesto brusco:
        - Eu repito que vim aqui a negcios. No tenciono brigar com voc por coisas que j no existem mais,
        - Pode deixar, ns trataremos disso. - Por quanto tempo seria capaz de resistir? Ky perguntava-se. Doa olh-la e sentir que desperdiava cada segundo. - 
Mas, por enquanto, por que no me conta o que voc carrega dentro dessa pasta, professora?
        Kate procurou acalmar-se. J deveria saber que no seria fcil. Nada jamais fora fcil com ele.
        - Grficos - respondeu. - Cadernos repletos de pesquisas, mapas, fatos documentados e teorias bem elaboradas. Em minha opinio, meu pai estava muito perto 
da descobrir a localizao exata do "Liberty", um navio mercante ingls que naufragou nas proximidades da costa da Carolina do Norte duzentos e cinqenta anos atrs.
        Ele ouviu do princpio ao fim, sem um comentrio sequer, sem nenhuma alterao na expresso do rosto. Quando Kate terminou, ele permaneceu por mais alguns 
instantes imvel, estudando-a, analisando-a.
        -  Venha comigo. Vamos verificar todos estes documentos l em casa.
        Ky no demonstrou nada alm de ironia, o que fez com que Kate sentisse vontade de no prosseguir a conversa e voltar para a vila. Existiriam outros bons 
mergulhadores que conhecessem as guas costeiras to bem quanto Ky, Ela fazia um enorme esforo para recuperar a tranqilidade e no agir com precipitao. Existiriam 
outros, sim, mas, se era necessrio fazer uma escolha entre o demnio que ela conhecia e o desconhecido, certamente optaria pelo primeiro. Kate o seguiu para dentro 
da cabana.
        O interior da casa havia tambm adquirido um aspecto novo. O cho fora raspado e envernizado, os armrios totalmente refeitos. No teto, uma clarabia permitia 
que os raios do sol atingissem a mesa da cozinha, agora repintada e com bancos em ambos os lados.
        - Voc fez tudo isto sozinho?
        - Por que a surpresa?
        Ele no parecia estar com muita vontade de lhe dar explicaes.
        - Voc sempre me pareceu uma pessoa contente por ter um teto prestes a desabar-lhe em cima da cabea.
        - Eu vivia feliz com muitas coisas antes de conhec-la. Aceita uma cerveja?
        - No. - Sem perda de tempo, Kate sentou-se e tirou da pasta o primeiro dos cadernos de anotaes de seu pai. - Gostaria que lesse as pginas que marquei. 
Creio que elas contm as informaes mais importantes.
        - Est bem. - Fechou o refrigerador e veio para a mesa com uma garrafa de cerveja na mo. Sentou-se e, enquanto tomava o primeiro gole, observava Kate conferindo 
aquele monte de papis. Em seguida ele abriu o caderno.
        Os manuscritos de Edwin Hardesty eram muito claros, e o estilo didtico das anotaes facilitava a leitura. Apesar de ser um trabalho muito bem-feito, no 
deixava transparecer qualquer emoo, o que o fazia assemelhar-se a uma tese cientfica.
        O "Liberty" tinha afundado com todo o suprimento de acar, ch, seda, vinho e outros produtos que levaria para as colnias. Hardesty fizera uma lista minuciosa 
de todas as coisas, inclusive do nmero de biscoitos que a embarcao transportava.
        Havia tambm um carregamento de vinte e cinco mil moedas de ouro do reino, o que era um verdadeiro tesouro.
        - Interessante - ele disse, e virou para a pgina seguinte.
        Apenas trs sobreviventes haviam conseguido chegar  ilha. Um deles descreveu o temporal que fizera o navio afundar, dando detalhes sobre a altura das ondas, 
as lascas de madeira arrancadas do corpo do navio e a gua que invadiu a embarcao. Foi uma histria pavorosa, que o pai de Kate tratou de recontar em seu estilo 
prtico. O mesmo sobrevivente tinha tambm dado a localizao do navio na hora do naufrgio. Ky no precisou dos clculos do Sr. Hardesty para deduzir que o navio 
havia afundado a cerca de duas milhas e meia da costa de Ocracoke.
        Passando de um caderno a outro, correu os olhos pelos grficos, para em seguida estud-los com mais calma. Lembrou-se do grande interesse que o pai de Kate 
tinha por mergulho, o que sempre parecera em desacordo com seu estilo de vida.
        Agora Ky entendia esse interesse.
        Todos esses anos que passara enterrado nos livros tinham um objetivo especfico e, embora parecesse absurdo um homem como Hardesty acreditar em tesouros, 
ali estava Kate querendo prosseguir com aquela histria. Ky sentia-se empolgado com a idia de participar de uma aventura como essa.
        No havia nenhum motivo para que se duvidasse da existncia do tal tesouro.
        Colocando o ltimo caderno de lado, ele apanhou mais uma cerveja.
        - Ento voc quer iniciar uma caa ao tesouro? Ignorando a brincadeira, Kate inclinou-se para frente.
        - Eu pretendo dar prosseguimento  tarefa iniciada por meu pai.
        - Voc acredita nisso?
        Kate hesitou por um instante. Depois respondeu:
        - Eu no creio que todo o tempo que meu pai passou pesquisando tenha sido para nada. Eu quero tentar. E, como voc sabe, preciso de sua ajuda, e voc ser 
recompensado.
        - Serei? - Com um discreto sorriso nos lbios, Ky disfarou suas intenes olhando para o copo. - Serei realmente?
        - Eu preciso de voc, de seu barco e de seu equipamento por um ms, talvez dois. No posso mergulhar sozinha porque no conheo bem as guas para me arriscar, 
e no disponho de muito tempo. Tenho de voltar para Connecticut at o final de agosto.
        - Muito bem, eu tambm no tenho tempo a perder. Se voc deseja os meus servios at o fim de agosto, poder t-los, por um preo.
        - E qual ?
        - Cem dlares por dia e cinqenta por cento do que encontrarmos.
        Kate lanou-lhe um olhar frio enquanto recolocava os papis de volta na pasta.
        - Seja l qual for a idia que voc fazia a meu respeito no passado, Ky, eu no sou nenhuma ingnua ou idiota. Cem dlares por dia  uma quantia exagerada, 
e cinqenta por cento est fora de cogitao. - Regatear com ele lhe causava certo prazer, pois fazia com que a conversa assumisse o aspecto de um negcio. - Eu 
lhe darei cinqenta dlares por dia e dez por cento.
        Com um sorriso irnico, Ky sacudia a cerveja na garrafa.
        - Eu nem ligo o motor do barco por cinqenta dlares.
        Kate inclinou-se para frente para analisar a situao. Costumava fazer isso toda vez que ele dizia alguma coisa que a obrigava a pensar antes de responder.
        - Voc se transformou num mercenrio?
        - Ns todos temos de ganhar a vida, professora. - Ser que ela no estava sentindo nada? Pensou furioso. No estaria sofrendo nem um pouquinho com as lembranas 
do passado? - Voc precisa de um servio, pois pague por ele. Nada  de graa. Setenta e cinco por dia e vinte e cinco por cento. Por amor aos velhos tempos.
        - Nada disso. Por amor aos negcios. - Kate estendeu a mo, mas, quando sentiu o contato com a dele, arrependeu-se. Ela sabia o poder que Ky tinha de seduzi-la, 
quando a tocava com as mos.
        - Negcio fechado - disse Ky, tentando encontrar no fundo dos olhos dela uma chama capaz de fazer reviver os momentos de felicidade experimentados no passado. 
- No h nenhuma garantia de que voc achar o tesouro.
        - Eu sei.
        - Muito bem. Eu deduzirei o depsito de seu pai do total.
        - Est certo - disse ela, enquanto pegava a pasta. - Quando comeamos?
        - Encontre-me no porto amanh s oito horas. 
        Quando Kate ia pegar a pasta, ele lhe segurou a mo.
        - Deixe isto comigo. Quero dar mais uma olhada nos papis.
        - No h necessidade.
        - Bem, se voc no confia em mim, pode lev-los. - A voz dele era macia e calma. - E procure outro mergulhador para ajud-la.
        Por alguns segundos eles se olharam sem nada dizer. A mo de Kate estava presa e fazia com que tomasse conscincia dos sacrifcios que teria de fazer para 
prosseguir em sua busca. O menor toque daquele homem provocava-lhe desejos.
        - Eu o verei s oito.
        - timo. - Ky libertou a mo dela e afastou o corpo no banco, acomodando-se. -  bom fazer negcios com voc.
        Kate levantou-se com calma, embora por dentro estivesse aflita.
        - Adeus.
        Ky bebeu o resto de cerveja que ainda havia assim que a porta de tela se fechou. Permaneceu sentado at ter certeza de que Kate j havia desaparecido e que 
ele no poderia mais sentir o seu delicado e sedutor perfume.
        Navios naufragados e tesouros no fundo do mar. Isso o teria excitado, invadido sua imaginao, fazendo-o vibrar de entusiasmo e interesse se no fosse a 
irresistvel necessidade que sentia de entrar em seu barco e sair sem destino pelo mar aberto. Ele no imaginava que Kate ainda pudesse provoc-lo daquele jeito, 
com tanta intensidade. Havia se esquecido de que o simples fato de estar prximo dela era capaz de enlouquec-lo.
        Durante todos estes anos nunca fora capaz de tir-la da cabea. A dor da perda jamais foi superada.
        Ky fixou os olhos na pasta, com as iniciais do nome dela estampadas perto da ala. No esperava que voltasse, mas acabava de ter a prova de que em momento 
algum se conformara com o fato de ter sido abandonado. Fingira o tempo todo e seria obrigado a continuar fingindo para no sofrer ainda mais.
        Ela estava de volta agora, mas no voltara para ele. Seu nico propsito era realizar uma espcie de transao comercial. Simplesmente precisava do melhor 
mergulhador que conhecia e estava disposta a pagar por isso. Remunerao pelos servios prestados, nada mais nada menos. O passado significava muito pouco ou talvez 
nada para Kate.
        Decidiu que trabalharia para ela sem qualquer tipo de pretenso alm do seu salrio.
        Quando ela partisse, no ficaria triste como da outra vez. Ela  que teria de continuar fingindo pelo resto da vida. Carregaria suas malas at o carro e 
de despediria de sua scia, nada mais.
        Saiu em direo ao barraco e resolveu no beber mais. Queria refletir sobre tudo aquilo com a cabea no lugar.
        
        
        
       CAPTULO III
        
        
        A gua da banheira estava to quente que chegou a embaar o espelho da pia. A espuma que se formava era perfumada e tinha um efeito relaxante. A sensao 
de ter o corpo submerso naquela gua era to agradvel que Kate perdeu a noo do tempo que permanecera no banho, buscando renovar as energias para o dia seguinte.
        O segundo e irrevogvel passo para o cumprimento de sua tarefa havia sido dado com xito. Durante a conversa que tivera com Ky, de certa forma fora capaz 
de no deixar transparecer suas emoes, impedindo que o passado viesse atrapalhar o nico e verdadeiro objetivo de sua presena na ilha.
        Pensou que, tendo enfrentado essa primeira e difcil etapa, seria possvel uma convivncia mais tranqila e fcil com Ky. Isto significava que fariam um 
bom trabalho juntos.
        O gnio agressivo daquele homem e sua freqente ironia diante das coisas a ajudariam a encarar os fatos do passado como loucuras da mocidade.
        Deix-lo h quatro anos fora muito difcil e seria um erro recomear aquele romance. Kate no pretendia mais sofrer. Apenas um romntico seria capaz de acreditar 
que dessa dor se pudesse extrair felicidade e encantamento. E j se passara muito tempo desde que ela agira como uma menininha idiota. Apesar de tudo, os dois comeariam 
a trabalhar juntos em breve. Ambos com o mesmo propsito: descobrir o navio que, por mais de dois sculos, repousara esquecido nas profundezas do oceano.
        Duzentos e cinqenta anos, Kate pensou fechando os olhos. A seda e o acar estariam com certeza perdidos, mas ainda encontrariam os objetos de metal, talvez 
cobertos de corroso. O casco do navio j teria sido atacado pelos fungos e cracas, mas boa parte da madeira ainda poderia ser resgatada.
        O ouro com certeza teria resistido ao tempo. Embora no fosse uma pessoa ambiciosa, Kate sentia-se atrada pelo tesouro. O mais excitante para ela, no entanto, 
era poder aventurar-se nas guas do oceano. Se encontrassem o ouro, ela nem saberia o que fazer com ele ou onde empreg-lo.
        Saiu do banho e enrolou-se no roupo. O espelho ainda retinha gotas de vapor provocadas pela gua quente da banheira.
        Talvez fizesse algum investimento ou uma longa viagem s ilhas gregas, onde Byron, um escritor romntico, estivera. Rindo diante da dvida, dirigiu-se ao 
quarto para pegar a escova de cabelos. Estranho, essa era a primeira vez que pensava no que iria fazer com o dinheiro. Talvez fosse melhor assim; no  bom ficar 
fazendo planos com muita antecedncia.
        De repente lembrou-se do que Ky lhe dissera: "Voc sempre teve problemas para enxergar alm do presente".
        Dane-se. Tomada de um sbito acesso de raiva, atirou a escova de volta  penteadeira. Havia enxergado alm do presente, sim, e visto que ele no seria capaz 
de lhe oferecer nada, exceto algumas noites de amor numa cabana em runas perto da praia. Nenhuma garantia, nenhum compromisso, nenhum futuro. Kate agradecia a Deus 
por ter agido com bom-senso e abandonado a ilha. Jamais deixaria Ky perceber o quanto havia sido doloroso para ela partir naquela poca, apesar de tudo.
        Seu pai estivera certo ao apontar os defeitos dele, ao lembr-la de suas obrigaes consigo mesma e com sua carreira. Ky no tinha nenhuma ambio, nem pensava 
no futuro. Havia uma diferena muito grande entre eles, o que provavelmente no tornaria possvel uma vida a dois.
        Ela havia agido como uma mulher adulta e responsvel, e isso proporcionara-lhe uma sensao de independncia e satisfao.
        Mais calma, ela pegou outra vez a escova. Estava jogando fora tempo precioso com inteis recordaes do passado. Era hora de parar. Daquele momento em diante 
decidiu que pensaria s no futuro. Nada mais de se preocupar com coisas que j aconteceram ou que poderiam ter acontecido. Precisava sair um pouco.
        Foi at o armrio e escolheu um vestido. No importavam mais o cansao nem a enorme vontade que sentia de atirar-se na cama e dar um descanso  mente e ao 
corpo. Os nervos agitados no permitiriam isso mesmo. Iria at o "Paraso" beber alguma coisa com Linda e Marsh. Em seguida teria um delicioso jantar e, quando retornasse 
ao hotel, dormiria logo, sem ter tempo ou disposio para pensar em bobagens.
        Precisava alimentar-se bem e descansar para poder estar bem disposta no dia seguinte.
        Chegou ao "Paraso" logo depois das seis. Sua primeira sensao ao pr os ps no restaurante foi de entusiasmo. O local era simples, mas bastante confortvel. 
No tinha a iluminao fosca ou o aspecto solene dos muitos restaurantes que freqentava em Connecticut, porm, tinha um ar bastante agradvel e convidativo.
        As paredes, revestidas de estuque, estavam decoradas com quadros de cenas martimas. Todo o recinto era decorado com artigos e peas ligados  navegao. 
Os bancos junto ao balco assemelhavam-se a pequenos barris de madeira. Num dos cantos, rodeado por viosas samambaias, um grande mastro, que se elevava  altura 
do teto. A decorao do lugar era to bem-feita que se tinha a viva impresso de que, a qualquer momento, entraria um capito dando ordem para zarpar.
        Metade das mesas j estavam ocupadas por casais ou famlias, das quais a maioria era turista. Podia-se ouvir o rudo dos talheres, misturado ao som das vozes. 
O cheiro da comida era muito agradvel e abriu o apetite de Kate.
        Confortvel, ela pensou, e muito bem organizado. Garons e garonetes, usando trajes de marinheiros, moviam-se pela sala com classe e, embora fossem rpidos, 
no demonstravam afobao. A janela aberta permitia uma viso completa do porto de Silver Lake. Kate sentaria de costas para ela, pois sabia que, se; no o fizesse, 
acabaria voltando os olhos para o lugar onde estava o "Tufo". Precisava de paz e tranqilidade, e s conseguiria isso se afastasse todas as recordaes.
        - Kate!
        Ao mesmo tempo em que ouviu seu nome, sentiu tambm o toque das mos em seus ombros. Reconhecendo a voz, virou-se com rapidez e sorriu:
        - Marsh, que prazer em v-lo!
        Com seu jeito quieto, Marsh a examinou da cabea aos ps. Da mesma forma que Ky, ele tambm se sentira atrado por ela durante aquele vero de quatro anos 
atrs. Uma atrao que terminou se transformando em amizade e respeito.
        - Bela como sempre. Linda j havia me contado, mas  bom poder ver por mim mesmo.
        - Bem, acho que tenho diversos motivos para parabeniz-lo: seu casamento, sua filha e seu negcio.
        - Eu aceito os parabns e agradeo. Agora, que tal a melhor mesa da casa?
        - Pois era isso que eu esperava. De braos dados, Marsh a conduziu a uma mesa prxima  janela.
        - Voc me parece feliz - disse Kate.
        - Pareo e estou - observou ele. Depois, com um gesto delicado, colocou sua mo sobre a dela e disse: - Ns ficamos muito tristes com o que aconteceu ao 
seu pai, Kate.
        - Eu sei. Obrigada.
        Sentou-se diante dela e ficou observando-a, com olhos calmos e meigos, o que a fazia sentir-se tranqila e segura.
        -  trgico, mas eu no consigo dizer que lamento que a morte de seu pai a tenha trazido de volta  ilha. Ns sentimos muito a sua falta. - Ele fez uma pequena 
pausa e ento completou: - Todos ns.
        Kate apanhou o guardanapo que estava sobre a mesa e o passou nas mos.
        - As coisas mudam, meu caro amigo. Voc e Linda so uma prova incontestvel disso. Na poca em que parti, lembro-me muito bem de que voc at fugia dela.
        - Isso no mudou - disse com um sorriso. Em seguida, levantou os olhos para a jovem garonete que aguardava junto  mesa, - Esta  Cindy, que se encarregar 
de atend-la, srta. Hardesty. - Voltando-se para Kate, corrigiu, com um sorriso no rosto, - Creio que deveria dizer Dra. Hardesty.
        - Senhorita  o suficiente - observou. - Eu estou de folga neste vero.
        - A srta. Hardesty  nossa convidada. Uma convidada muito especial - ele acrescentou, sorrindo para a garonete. - Hum... Que tal um aperitivo antes do jantar? 
Ou uma garrafa de vinho?
        - Vinho - respondeu uma voz grave de homem.
        Kate experimentou uma sensao de frio no estmago. Lutando contra o nervosismo, levantou os olhos e viu Ky aproximando-se da mesa.
        - A professora adora vinho!
        - Sim, Sr. Silver - respondeu a garonete, retirando-se antes que Kate tivesse tempo de concordar.
        - Bem, meu irmo - comentou Marsh -, voc tem uma maneira toda especial e discreta de ajudar as pessoas;
        Ky deu de ombros, encostando-se a uma cadeira. Se os trs sentiram que o ambiente ficou pesado, cada um deles soube, a seu prprio modo, disfarar isso com 
delicadeza.
        - Eu senti uma vontade irresistvel de comer lagosta esta noite - informou Ky.
        - Eu recomendo - Marsh disse a Kate. - Linda e o cozinheiro-chefe debateram a receita por muito tempo antes de prepar-la. Tenho certeza de que est perfeita.
        Kate lanou um sorriso espontneo para ele e, ignorando a presena de Ky, disse:
        - Est bem, vou experimentar. Voc me faz companhia?
        - No posso. Linda teve de correr para casa a fim de resolver alguns problemas domsticos. Hope  uma especialista em cri-los e deixa a pobre bab maluca. 
Mas eu tentarei voltar para o caf. Espero que aprecie o jantar. - Levantando-se, dirigiu um olhar significativo para o irmo e retirou-se.
        - Marsh sempre foi um bom amigo - disse Kate, enquanto estendia o guardanapo no colo. - Embora este restaurante pertena ao seu irmo, no creio que voc 
deseje minha companhia para o jantar e, se quer saber, tambm no desejo a sua.
        -  a que voc se engana - corrigiu ele, enquanto dava uma piscada para a garonete que trazia o vinho.
        Ky no se preocupou em contar a ela a respeito de sua parte na posse do "Paraso". A conversa sobre negcios que haviam tido na cabana era suficiente por 
um dia.
        Cindy abriu a garrafa, colocou uma pequena quantidade no copo para que Ky provasse.
        - Est timo - ele disse e, pegando a garrafa, encheu o copo de Kate. - J que escolhemos o mesmo restaurante esta noite, por que no aproveitamos para fazer 
um pequeno teste?
        Kate deu um gole e lembrou-se da primeira garrafa de vinho que haviam compartilhado, sentados no cho da cabana, na noite em que ela decidira entregar-se 
a ele. Bebeu mais um pouco e perguntou;
        - Que tipo de teste?
        - Podemos verificar se somos capazes de agir como duas pessoas civilizadas em pblico.  algo que nunca experimentamos antes.
        Kate franziu as sobrancelhas, observando a classe com que Ky tomava o vinho. Nunca antes estiveram juntos em um restaurante, pois seu pai no aprovaria um 
relacionamento com algum que ele considerava seu empregado. Kate sabia disso e no se arriscaria. Sempre que estivera com Ky a cabana em que ele vivia era o local 
onde jantavam e bebiam.
        Mas as coisas eram diferentes agora, ela disse para si mesma. De uma certa maneira, Ky era seu empregado, e ela podia tomar as decises que achasse justas. 
Resolvida, levantou seu copo num brinde.
        - Ao sucesso da nossa misso.
        Ky tocou a borda de seu copo no de Kate. A maneira como o encarava fazia com que sentisse um certo desconforto.
        - O azul combina com voc - disse, referindo-se ao vestido que ela usava. Olhando-a de forma penetrante, completou. - O azul-escuro transforma a pele de 
seu corpo em algo especial, atraente, delicado, e que deve ser saboreado com muita, muita calma.
        Ela o fitava, atordoada com aquele tom profundo e ntimo que a voz de Ky assumia. As palavras pareciam ter um certo sabor de mistrio.
        - Voc gostaria de fazer o pedido agora? - perguntou-lhe, quando a garonete parou ao lado da mesa, risonha, querendo agradar a ambos.
        Ky sorriu quando Kate, como que hipnotizada, permaneceu em silncio.
        - Ns vamos comer lagosta e salada com o molho especial da casa - informou ele. Depois, com o copo na mo e ainda sorridente, recostou-se na cadeira. Mas 
o sorriso estava presente apenas nos lbios. Nos olhos persistia um misto de seriedade e amargura. - Voc no est bebendo o seu vinho. Talvez eu devesse ter perguntado 
se os seus gostos mudaram com o passar dos anos.
        - Est gostoso - disse ela, enquanto tomava um gole. - Marsh me parece muito bem. Fiquei feliz de saber que ele e Linda esto casados. Sempre os achei um 
par perfeito.
        - Verdade? - Ky ergueu o copo na direo da nebulosa luz que penetrava pela janela. - Marsh no pensava assim. Mas ento... - virando os olhos, ele voltou 
a encar-la. - Ele sempre foi mais lento para tomar decises do que eu.
        - Vocs tm gnios diferentes. Seu irmo  muito mais prudente do que voc, e a pacincia nele no  um defeito, mas uma virtude.  uma pessoa mais fcil 
de se conviver.
        - Mas no foi o meu irmo que voc procurou com seus grficos e anotaes, foi?
        - No. - Com esforo, ela conseguiu manter inalteradas a voz e a expresso dos olhos. - No foi;  que neste caso eu preciso mesmo de algum imprudente e 
aventureiro como voc.
        - Quer dizer que eu posso ser-lhe til em determinadas ocasies, no , Kate?
        A garonete serviu a salada, mas, percebendo o clima de tenso, preferiu no dizer nada.
        - Eu descobri que esse trabalho  perfeito para algum como voc, e ento decidi contrat-lo. - Kate colocou o copo de vinho sobre a mesa e comeou a comer. 
- Nenhuma outra razo teria me trazido de volta a Ocracoke. - Ficou surpresa com a prpria coragem. - As coisas sero mais fceis para ns dois se isto ficar bem 
claro.
        Ky sentiu muita raiva ao ouvir aquilo, mas controlou-se. Kate estava apenas jogando com as palavras, e ele teria que manter a calma. Ela sempre fora uma 
mulher inteligente, mas essa inteligncia, agora, parecia temperada com uma grande quantidade de artificialismo e fingimento. Ky lembrou-se com tristeza da inocente 
e curiosa Kate do passado.
        - Segundo eu me recordo - ele disse -, voc sempre preferiu complicar a simplificar. Eu fui obrigado a explicar-lhe o objetivo, a histria e o mecanismo 
de cada pea do equipamento antes que voc desse seu primeiro mergulho.
        - Isso se chama cautela, no complicao.
        - E voc, sem dvida, est bem servida em matria de cautela. Algumas pessoas passam metade de suas vidas fazendo testes e pouco aproveitam do presente. 
- Bebeu um grande gole de vinho e concluiu: - Eu j prefiro me deixar levar pelo momento.
        - Sim - desta vez foi ela quem sorriu. - Eu me lembro muito bem. Sem planos, sem laos que o prendam. Afinal, amanh tudo poderia mudar. No era assim?
        - Se voc permanece ancorada num mesmo lugar por muito tempo, acaba ficando como uma daquelas rvores l fora. - Esticando o brao, ele apontou para uma 
longa fila de coqueiros arqueados, prximos ao mar. - Atrofiada.
        - E, no entanto, voc ainda est aqui, onde nasceu e cresceu. Parece estranho que algum to livre como voc se diz ser tenha criado razes em Ocracoke.
        - Esta ilha  muito isolada, e a vida, aqui, simples demais para algumas pessoas. Eu prefiro isto s comunidades cheias de estruturas, com suas festas e 
clubes de campo. A liberdade para mim  algo muito diferente do que para voc.
        Kate parecia pertencer a um desses lugares cheios de regras e etiquetas, Ky pensou, enquanto lutava contra o desejo frustrado que flua dentro dele. Imaginava 
como ela se sentiria bem se estivesse, naquele momento, em meio a um grupo de amigos refinados, usando um elegante vestido de seda e discutindo sobre um obscuro 
poeta ingls do sculo dezoito. Sentia-se um bruto, sem graa, e sem chances de t-la para si.
        Se fosse possvel retroceder no tempo, ele a levaria para o alto-mar e, em seu barco, percorreriam todos os portos do mundo. Se isso significasse que ele 
nunca mais poderia voltar para casa, com imenso prazer permaneceria navegando pelo resto de sua vida. Pelo menos estariam juntos e felizes.
        O prato principal foi servido e fez com que Ky voltasse ao presente. No estavam mais no sculo dezoito, muito embora os documentos e mapas que tinham em 
mos fossem daquela poca.
        - Estive estudando os documentos que deixou comigo.
        - Oh! Que bom! Gostaria de saber sua opinio a respeito.
        - A pesquisa de seu pai  completa.
        - Isso eu j sabia!
        Ky deixou escapar uma risada sutil.
        -  claro. Bem, de qualquer forma, acho que ele estava na pista certa. Voc, sem dvida, percebe que a rea assinalada por ele nos mapas  perigosa.
        As sobrancelhas de Kate levantaram-se, mas ela no se abalou.
        - Tubares?
        -  meio difcil encontrar tubares em um s lugar - disse tranqilo. - Muitas pessoas se esquecem de que a guerra chegou at aqui nos anos quarenta. H 
ainda muitas minas espalhadas por essa regio da costa. Se pretendemos levar isso adiante, teremos que tomar muito cuidado.
        - Eu no tenho inteno alguma de ser descuidada.
        - No, mas s vezes nos preocupamos em ver muito adiante. Entusiasmados com a idia do tesouro no poderemos nunca nos esquecer dos perigos que envolvem 
esta busca!
        Ky perdeu o apetite. A possibilidade de aventurar-se pelo mar o entusiasmava, mas era terrvel estar ali ao lado de Kate sem poder toc-la. Pensava em como 
seria bom puxar aqueles grampos que lhe prendiam os cabelos e toc-los como no passado. Lembrava-se de como fora excitante abra-la e sentir seu corpo junto ao 
dela. Ainda podia v-la lanando-lhe um olhar srio e assustado para, em seguida, de maneira apaixonada, entregar-se  magia do amor.
        Mas esse sentimento, que fora to natural e lindo um dia, agora parecia errado. Ela costumava murmurar o nome dele depois de uma relao, como que para prolongar 
o xtase. Ky desejava ouvi-la pronunciando o seu nome s mais uma vez, daquela maneira doce e ofegante. Se ela o fizesse, no estava certo de poder resistir.
        Ainda meio mergulhado em recordaes, fez sinal para que fosse servido o caf. Talvez no quisesse resistir  tentao. Precisava de Kate e tentaria t-la 
de volta, pois tinha certeza de que certas coisas nunca morrem. Ele sabia que com jeito e habilidade a seduziria.
        Quando Ky voltou os olhos para Kate, ela notou que algo estava errado: Ky a atordoava e era imprevisvel. Pressentia que ele havia chegado a algum tipo de 
deciso e que ela estava includa. Tomou seu caf e procurou reanimar-se.
        Ele precisava perceber que o comando da situao no lhe pertencia e conscientizar-se de que apenas um contrato os unia agora.
        - Eu estarei no porto s oito - ela disse com voz decidida. - Vou precisar de tanques,  claro, mas trouxe minha prpria roupa de mergulho. Eu gostaria que 
voc levasse a minha pasta com os documentos para o barco. Creio que seria bom trabalharmos de seis a oito horas por dia.
        - Voc tem praticado mergulho nos ltimos anos?
        - Isso no importa, eu sei o que devo fazer.
        - Eu seria o ltimo a duvidar que voc teve o melhor professor. - Ele tomou o caf num s gole, num gesto rpido e impaciente, que Kate sabia ser tpico 
dele. - Se voc estiver meio destreinada, ns podemos ir devagar nos primeiros dias.
        - Eu sou uma mergulhadora muito competente.
        - Eu quero mais do que competncia numa scia. Ky viu a clera nos olhos dela, e ele gostava de v-la assim. Era uma coisa que gostava de presenciar, aquele 
temperamento sempre controlado e razovel se inflamando.
        - Ns no somos scios. Voc est trabalhando para mim.
        - Uma questo de ponto de vista - Ky disse com toda calma. Ento levantou-se e ficou bem perto de Kate. - Ns teremos um dia duro amanh, portanto seria 
melhor voc ir embora e colocar em dia todo o sono que tem perdido nestes ltimos tempos.
        - Eu no preciso que voc se preocupe com minha sade, Ky.
        - Eu estou me preocupando com a minha prpria sade - ele disse. - Voc no descer comigo a no ser que esteja descansada e bem alerta. Se vier ao porto 
amanh com olheiras, eu no permitirei que mergulhe.
        Kate sufocou a vontade que sentia de discutir, reconhecendo uma certa sensatez nas palavras de Ky.
        - Se voc estiver com o corpo mole e cansado, acabar cometendo erros - ele prosseguiu. - E um erro seu poder me custar caro. Isso parece razovel para 
voc, professora?
        - Est bem - Kate levantou-se e decidiu ir embora.
        - Eu a acompanharei at o hotel.
        - No  necessrio.
        Sem perguntar nada, ele colocou o brao ao redor da cintura dela, dizendo:
        - Isso  ser civilizado. E voc sempre foi uma mestra na arte de se portar com classe.
        "At o momento em que voc me toca", ela pensou. No, ela no poderia permitir que as recordaes voltassem, ou seus planos fracassariam, Kate inclinou a 
cabea num gesto frio de aprovao.
        - Quero agradecer a Marsh.
        - Voc pode fazer isso amanh - disse Ky, colocando sobre a mesa a gorjeta da garonete. - Ele est ocupado.
        Ela se preparava para protestar quando viu Marsh entrar na cozinha.
        - Est bem. - Juntos deixaram o restaurante.
        O cu estava lindo e cheio de estrelas. Ao pr os ps fora do restaurante, Kate notou que havia pouca gente andando pelas ruas.
        Um barco pesqueiro deslizava pelas guas em direo ao porto. Alguns turistas permaneciam na ilha; outros atravessavam a enseada de Hatteras numa das ltimas 
balsas do dia.
        Ela gostaria de navegar sobre as guas agora, sentir a brisa e aquela sensao de solido por estar no meio do oceano, sem ningum ao redor.
        Deixando de lado os sonhos, ela prosseguiu a caminhada em direo ao hotel. O que Kate precisava na verdade no era um passeio de barco, mas de uma boa noite 
de sono.
        O mesmo hotel. Ky levantou a cabea e olhou para a janela. Ele j sabia que ela estava hospedada no mesmo quarto. Em vrias ocasies a acompanhara at a 
porta. Mas tudo era diferente ento. Ela agia de maneira natural e costumava fazer o que o corao mandava. Sempre lhe dava um caloroso e demorado beijo de despedida.
        Os dois tiveram o mesmo pensamento, e Kate virou-se para ele enquanto ainda estava fora do hotel dizendo:
        - Obrigada, Ky. No h nenhuma necessidade de voc se desviar ainda mais de seu caminho.
        - No, no h. - Ele queria lev-la para a cabana esta noite. Ela no demonstrava nenhuma disposio para isso, e ele ento decidiu que no iria embora sem 
levar algo consigo.
        Colocou a mo atrs do pescoo de Kate e olhou-a com insistncia, tentando decifrar seus pensamentos. Ela no se afastou, pois isso teria feito parecer que 
estava com medo.
        - Acho que isto  algo que voc me deve - Ky disse a ela, numa voz to suave que se perdia no ar. - Talvez algo que eu esteja devendo a mim mesmo.
        Ele no era gentil. Aquilo era forado. Em alguma parte dentro dele existia uma necessidade de punir, punir por alguma coisa que acontecera ou deixara de 
acontecer. A boca que ele colocou sobre a dela tinha fome de amor. Se ela se havia esquecido, ele pensou, isto a faria lembrar-se.
        Com os braos dela presos entre os seus, Ky pde senti-la cerrar os punhos e odi-lo. Ele preferia isso do que ir embora sem tentar nada.
        Kate no o estava odiando e no conseguiu esconder o que sentia por muito tempo. Acabou sendo meiga e delicada como uma daquelas ondas brancas que rolam 
e se espalham pela praia.
        Queria que fosse diferente. Oh, como gostaria que fosse diferente, e que no estivesse sentindo nada. Mas estava sentindo tudo.
        A boca firme e. impetuosa que sempre a fizera vibrar continuava a mesma. Em todas as vezes que se beijaram, havia por perto o som da gua, ou dos ventos, 
ou das gaivotas. Nem mesmo isso mudara. Atrs deles, a gua batia contra a madeira dos barcos atracados no cais. Uma gaivota grasnava solitria em cima de algumas 
estacas. A luz do luar refletia sobre o mar. A enxurrada de sentimentos do passado se fundia com o presente.
        Kate no teve foras para resistir  impetuosidade de Ky, e, enquanto se entregavam s delcias de um ardente beijo, ela tocou com a palma das mos o peito 
dele. To quente, to firme, to familiar. Ele beijava como sempre: sem inibies, com completa emoo e impacincia.
        Parecia que o tempo voltava e que todas as decises da professora Hardesty se desfaziam. Sua maior ambio agora era beijar Ky. Esta sensao lhe provocava 
uma imensa vontade de chorar, mas ela no saberia dizer se pelo presente ou pelo passado.
        Enquanto se beijavam, dentro de Ky crescia uma angustiante indeciso. No era bastante tolo para exigir de Kate algo que sabia j haver acabado. Por outro 
lado, no se sentia corajoso o suficiente para solt-la e atirar pelos ares a realizao de um sonho h muito desejado. Quando chegou a uma deciso, deu um passo 
atrs, afastando-se de Kate, com raiva por ter sido to fraco.
        A expresso no rosto de Kate era a mesma de quando ele a beijara pela primeira vez: meio surpresa, meio assustada. Isso o deixou desorientado.
        Embora no quisesse deixar transparecer o amor que sentia por Kate, sabia que continuava enfeitiado por ela, da mesma forma que antes, e que ela j tinha 
percebido isso.
        E, mais uma vez, Ky despediu-se, s que agora com um simples aceno de mo.
        - Assegure-se de ter pelo menos oito horas de sono - ele ordenou sem se virar para trs.
        Kate permaneceu ali parada por alguns minutos, sem entender o que lhe havia acontecido. Embora tivesse prometido a si mesma que sua relao com Ky seria 
apenas comercial, no poderia negar que ele lhe proporcionava prazer, um prazer capaz de transport-la para um mundo cheio de sonhos e fantasias.
        Mas j estava ficando tarde e ela decidiu entrar e dormir. No dia seguinte estaria menos confusa e com tanto trabalho que mal teria tempo de preocupar-se 
com o que houvera entre ela e Ky.
        
        
        
       CAPTULO IV
        
        
        
        Em algumas manhs, o espetculo do sol se elevando no horizonte parecia demorar mais do que em outras, como se a natureza quisesse exibir seu esplendor particular 
por mais tempo. Kate havia deixado a persiana aberta, sabendo que a luz da manh a acordaria antes do despertador.
        Levantando-se, caminhou at a janela. Uma brisa fresca veio acariciar-lhe os cabelos e o rosto, enquanto, maravilhada, via o reflexo colorido dos primeiros 
raios de sol sobre as guas.
        quela contemplao serena era muito diferente da rotina rgida dos ltimos anos, onde as manhs eram todas corridas. S havia tempo para um banho rpido 
e uma verificao na matria das aulas daquele dia, o que Kate fazia durante o caf da manh.
        Havia dormido melhor do que esperava, embalada pelo silncio e anestesiada pelo cansao da longa viagem. Nenhum sonho e nenhuma preocupao vieram roubar-lhe 
a tranqilidade do sono.
        Agora, com as energias j repostas, vestiu-se e saiu do quarto.
        Tomar caf foi impossvel. A excitao que ela havia contido estava comeando a clamar por liberdade. A sensao de estar fazendo a coisa certa voltara e, 
independente dos sacrifcios que tivesse de enfrentar, ela estava decidida a prosseguir a busca de seu pai. Seguiria suas indicaes. Se no achasse o ouro, pelo 
menos teria a conscincia tranqila por haver tentado.
        Ky... No imaginava que a simples presena dele fosse capaz de for-la a rememorar a paixo que preferia esquecer. O beijo da noite anterior a perturbara 
como sempre.
        Teria de conviver longas horas ao lado de Ky, e isso s seria possvel se ela enterrasse de uma vez por todas o passado.
        Quando Kate partira, o orgulho de Ky foi ferido, e ele jamais a perdoou. Ela havia voltado para o seu mundo, sua carreira. Ele insistira para que permanecesse 
na ilha, mas sem lhe oferecer nada, nem uma promessa sequer. Se tivesse lhe acenado com algo concreto, no importa o quo superficial pudesse ter sido, ela ainda 
estaria ao seu lado. Ser que Ky sabia disso?
        Talvez ele imaginasse que conseguiria faz-la mais uma vez se apaixonar com o mesmo ardor de antes, e ento se sentiria vingado. Mas Kate no permitiria 
que isso acontecesse, disse para si mesma. Se Ky a tivesse pressionado na noite anterior, se soubesse como ela chegara perto de fraquejar com aquele beijo...
        Mas no haveria jeito de descobrir, pois ela j havia decidido que aquela cena no ocorreria outra vez. Durante o vero, seu tempo e seus esforos estariam 
voltados para a busca do tesouro, e nada mais. Desta vez pretendia levar algo consigo.
       
        Ky j estava a bordo do "Tufo". De longe, Kate viu-o arrumando o equipamento num canto do barco. Seus cabelos esvoaavam com a forte brisa do mar. Vestia 
apenas uma bermuda e uma camiseta sem mangas.
        Ele no notou a aproximao de Kate. Um barco pesqueiro, j a certa distncia do porto, prendia sua ateno. Por um momento, ela parou e ficou a observ-lo.
        Por alguma estranha razo, Ky dava a impresso de estar sempre agitado, inquieto. Parecia que alguma coisa se movimentava o tempo todo dentro dele. Quando 
contemplava o mar, era como se ali estivessem todos os desafios, todas as aventuras.
        Estava sempre pronto para a ao, todavia, tambm era capaz de sentar-se e permanecer por longo tempo apreciando as ondas, como se no houvesse nada mais 
importante a fazer do que assistir quela infindvel batalha entre a terra e a gua.
        Naquele momento ele estava de p no convs do "Tufo", mos na cintura, observando o enorme barco pesqueiro que se lanava em direo ao horizonte. Era uma 
cena que ele j havia presenciado centenas de vezes, mas que ainda lhe fazia sentir imenso prazer.
        Em silncio, Kate continuou caminhando at a lancha.
        - Voc est adiantada - ele disse surpreso, no instante em que a viu. Ento esticou o brao e ajudou-a a subir a bordo.
        - Eu achei que voc talvez estivesse to ansioso para comear quanto eu - respondeu.
        - Dever ser uma viagem sem problemas - ele observou, voltando os olhos para o mar. - O vento que est soprando do norte no tem velocidade superior a dez 
ns.
        - timo! - ela exclamou, satisfeita. O fato de o vento estar com dez ou vinte ns de velocidade, no entanto, no era importante para ela nem para ele, Kate 
pensou. O que importava  que aquela seria a primeira manh em que trabalhariam na caa ao tesouro.
        Ela podia sentir a impacincia crescendo dentro de Ky, o desejo de partir logo e entrar em ao. Querendo apressar as coisas, Kate ajudou Ky a soltar os 
cabos que prendiam o "Tufo" ao cais. Depois caminhou pela popa do barco. Isso manteria os dois bem distantes. Permaneceram calados, enquanto Ky ligava o motor e 
saa do porto. A velocidade foi mantida constante enquanto atravessaram a parte rasa da enseada. Olhando para trs, Kate via crescer a distncia entre o barco e 
a vila.
        A ltima coisa que avistou foi uma criana descendo o cais, com uma vara de pescar.
        O vento quente e o sol brilhando provocaram certa excitao em Kate, que no estava certa de que aps tantos anos as emoes continuariam as mesmas. Mas, 
ao fechar os olhos, permitindo que as pequenas gotas de gua salgada lhe tocassem o rosto, entendeu que aquela era uma paixo que permanecera constante, apesar do 
tempo.
        Sentada e completamente relaxada, ela podia sentir a velocidade do barco crescendo  medida que avanavam para o alto-mar. De olhos fechados, apreciava o 
movimento, o vento, o sol.
        A caa ao tesouro, sem dvida, seria muito mais gratificante do que o prprio tesouro.
        Embora no quisesse admitir, parte do prazer que sentia naquele momento era devido  presena de Ky, ali to prximo.
        Ky, por sua vez, prometia a si mesmo que no olharia para trs. Mas no resistiu. Tinha de faz-lo pelo menos uma vez. Ela estava de olhos fechados, com 
um sorriso nos lbios, enquanto alguns fios sedosos de cabelos danavam ao redor de seu rosto, devido ao forte vento. Isso fez com que sua mente viajasse de volta 
ao passado, para o dia em que viu Kate daquele jeito pela primeira vez, quando percebeu que tinha de possu-la. Ela parecia calma, em paz, e ele, sem nenhum controle, 
entregue a uma intensa e maravilhosa paixo que parecia no ter fim.
        Mesmo quando se voltou para o mar, ainda conseguia ver apenas a imagem dela  sua frente, recostada na popa do barco, absorvendo ao mximo tudo de bom que 
o sol e o vento tinham a lhe oferecer.
        Kate necessitava dessa sensao de paz que o mar lhe trazia. Era uma professora universitria ciente de suas responsabilidades, mas havia tambm em seu corao 
um espao reservado para a moa sonhadora, capaz de se encantar com as coisas mais simples e puras da natureza. E isso, mesmo que quisesse, ela no poderia negar.
        Satisfeita, abriu os olhos e assistiu ao espetculo do sol lanando seus diamantes de luz no mar. Na superfcie, eles ondulavam, acompanhando o harmonioso 
movimento das guas.
        Devido  liberdade ou  onda de fora e energia que estava sentindo fluir dentro de si, levantou-se e foi falar com Ky.
        - Isto aqui continua to lindo como sempre - disse em tom amistoso.
        Ky tremeu ao v-la de novo ao seu lado, mas aos poucos a tenso foi desaparecendo, e ele conseguiu agir de forma tranqila.
        - As coisas no mudam muito - observou. Ancorado prximo dali estava o barco pesqueiro que deixara o porto pouco antes deles. Os homens haviam lanado a 
rede ao mar, e centenas de gaivotas famintas sobrevoavam a embarcao, na esperana de um almoo farto e fcil.
        - A pesca tem sido boa este ano - disse Ky.
        - Voc tem pescado com freqncia?
        - No. S de vez em quando.
        - No est com vontade de falar? - Kate perguntou, referindo-se  resposta curta e direta que acabava de receber.
        Ele no conseguiu evitar um sorriso, lembrando-se de alguns acontecimentos do passado.
        Ela tambm se recordava de muitas coisas, principalmente das noites que passara junto de Ky.
        - Eu sempre tive curiosidade de saber como fica a ilha durante o inverno - disse Kate.
        - Bastante calma.
        - Alm disso, sempre me deixou perplexa o fato de voc preferir esta vida a qualquer outra.
        Virando-se para ela, Ky perguntou, surpreso:
        - Verdade? Verdade que voc tem reservado alguns minutos de sua vida para pensar em mim?
        Sem ligar para o que ele havia dito, Kate deu de ombros e prosseguiu:
        - Seria tolice de minha parte dizer que jamais voltei a pensar na ilha ou em voc nestes quatro anos. Voc sempre me provocou curiosidade.
        Ele riu. Era tpico dela colocar as coisas dessa forma.
        - O que a incomodou foi o fato de algumas de suas perguntas terem permanecido sem resposta, no ? Voc pensa demais como uma professora, Kate.
        - A vida no  como um teste de mltipla escolha? - ela perguntou, contando nos dedos. - Talvez duas ou trs respostas sirvam, mas apenas uma  a correta.
        - No, apenas uma  a errada - corrigiu ele, notando que os olhos dela assumiam uma expresso pensativa. Ela estaria pesando os prs e os contras da afirmao 
que acabara de ouvir, ele pensou. Quer ela concordasse ou no, analisaria a questo de todos os ngulos possveis. - Voc no mudou nada...
        - Eu tambm achava isso, mas estamos enganados. Nenhum de ns continua o mesmo.  assim que deve ser, eu creio. - Kate virou-se em direo ao mar e soltou 
um grito de alegria: - Oh, olhe! - Sem pensar, colocou a mo no brao de Ky. - Golfinhos.
        Havia uma dzia deles, talvez mais, saltando e dando mergulhos com movimentos ritmados e graciosos. Kate sentiu-se invadida por uma sensao mista de prazer 
e inveja. Mover-se daquela maneira, da gua para o ar e depois para a gua novamente, daria a qualquer ser humano uma enorme sensao de liberdade...
        - Fantstico, no ? - murmurou. - Ser parte tanto do ar quanto da gua... Eu j havia quase me esquecido de como so interessantes os golfinhos!
        - Quanto? - Ky perguntou, estudando o perfil de Kate. - Quanto do que aconteceu quatro anos atrs voc j quase se esqueceu?
        Kate virou o rosto na direo dele, percebendo que estavam bem perto um do outro. Sem notar, ela se aproximara demais, enquanto observava distrada os golfinhos. 
Agora no estava vendo nada seno o rosto de Ky a poucos centmetros do seu; no sentia nada a no ser o contato da prpria mo com a pele quente do brao dele.
        A pergunta no a agradou muito, e ela respondeu:
        - De tudo que era necessrio e, agora, vamos ao que interessa: o tesouro. Eu gostaria de examinar os grficos de meu pai. Voc os trouxe a bordo?
        - Sua pasta est na cabine. - As mos de Ky agarraram o leme, como se ele estivesse lutando contra um temporal. Talvez estivesse mesmo. - Voc sabe onde 
fica; v at l e pegue.
        Sem responder, Kate caminhou em direo  estreita escada que conduzia ao interior do barco.
        Havia duas tarimbas pequenas, cobertas por lenis to esticados que fariam saltar uma moeda que fosse arremessada sobre eles. Kate lembrava-se de j se 
haver deitado com Ky numa delas, vivendo ali momentos incrveis de paixo, enquanto o barco oscilava suavemente e o rdio tocava jazz.
        Apertou com toda a fora o couro da pasta, como se a dor nos dedos pudesse ajud-la a afastar as recordaes. Com cuidado, desdobrou um dos grficos de seu 
pai, colocou-o em cima da tarimba e comeou a verificar os detalhes.
        Como tudo que o Sr. Hardesty fizera, o grfico tambm era objetivo, preciso e sem informaes desnecessrias. Embora no tivesse sido este o seu campo de 
atividade, realizara um trabalho no qual qualquer marinheiro depositaria total confiana.
        Mostrava com preciso a costa da Carolina do Norte. Os traados indicando latitude e longitude apareciam em um grfico que tinha tambm finas linhas cruzadas, 
assinalando a profundidade.
        Setenta e seis graus norte e trinta e cinco graus leste. De acordo com o documento, aquela era a rea em que seu pai acreditava que o navio tivesse afundado. 
Isso ficava a poucas milhas a sudeste de Ocracoke. E a profundidade no era to grande. A roupa de mergulho comum e o tanque de ar seriam suficientes, sem necessidade 
do uso de botas e capacetes especiais, obrigatrios na explorao de regies mais profundas.
        De repente, Kate notou que a velocidade do "Tufo" diminua e, logo em seguida, o rudo do motor cessou. Pressentindo que haviam chegado ao lugar marcado, 
ela guardou o grfico e voltou para o convs.
        Ky estava fazendo uma ltima inspeo nos tanques.
        - Ns vamos descer aqui - ele avisou e levantou-se. - Estamos a mais ou menos meia milha do local onde estive com seu pai no ltimo vero.
        Com rapidez, ele tirou a camiseta e a bermuda, ficando apenas com o calo de banho.
        Se naquele instante o corao de Kate disparou, ela podia explicar a si mesma como uma coisa muito natural, devido  expectativa do mergulho. Se sentiu um 
n apertando-lhe a garganta, isso nada mais era do que o nervosismo diante da idia de entregar-se s delcias do mar.
        O corpo de Ky era musculoso, bronzeado e esbelto, mas ela estava preocupada apenas com o mergulho. E ele provavelmente estava interessado somente nos setenta 
e cinco dlares por dia e nos vinte e cinco por cento do que encontrassem. Ela, pelo menos, procurava encarar aquilo apenas como um negcio, embora fosse quase impossvel.
        Sob o short, Kate usava um maio que colava ao corpo, revelando suas pernas compridas e elegantes, que Ky sabia serem suaves como gua e fortes como as de 
uma corredora. Mas ambos estavam ali com uma misso muito bem definida: encontrar o tesouro perdido. Alguns tesouros, ele acreditava, jamais poderiam ser recuperados.
        Enquanto pensava nisso, ergueu os olhos para observar Kate retirar os grampos do cabelo e deix-los cair; sobre os ombros. Se ela tivesse lanado um dardo 
mortal de encontro ao peito dele no teria conseguido despedaar-lhe o corao de maneira to completa.
        - Ns vamos descer por uma hora hoje - disse ao levantar o primeiro par de tanques.
        - Mas...
        - Uma hora  mais do que suficiente. Voc no tem mergulhado h quatro anos.  aconselhvel no abusar no comeo.
        Kate esticou os braos a fim de que Ky a ajudasse na colocao do tanque.
        - Eu no me lembro de ter-lhe contado isso.
        - No. Mas teria me contado caso houvesse mergulhado desde aquela poca. - Os cantos da boca dele esboaram um sorriso quando ela permaneceu em silncio. 
Depois de prender os prprios tanques, Ky se dirigiu  escada fixa na lateral do barco.
        Limpou a mscara com as mos e, colocando-a sobre os olhos e nariz, soltou as mos e jogou-se ao mar. Kate no demorou mais do que dez segundos para saltar 
e colocar-se ao seu lado. Por um instante ele parou, para certificar-se de que ela no estava tendo dificuldades, ento prosseguiu mergulhando em direo ao fundo.
        Kate ainda no se havia esquecido de como respirar debaixo da gua, mas sua primeira inspirao ao submergir fora quase um suspiro. Achava incrvel poder 
ficar sob a superfcie do oceano, obtendo ar atravs de um tanque. Para ela, era uma experincia to emocionante como fora da primeira vez.
        Olhou para cima, a fim de ver o sol projetando-se dentro da gua, e esticou a mo para observar os raios de luz brincando sobre sua pele. Ela poderia passar 
muito tempo ali, divertindo-se, mas tinha um trabalho a realizar. Deu um impulso com as pernas e seguiu Ky at as regies mais profundas e escuras.
        Ele esperava que Kate fosse lhe fazer perguntas acerca de seus planos para encontrar o "Liberty". Como tal coisa no aconteceu, levantou duas hipteses: 
ou ela no queria ter com ele uma conversa sria no momento, ou, ento, deduzira por si mesma qual seria a estratgia. A segunda hiptese era a mais provvel, pois 
ela era muito inteligente.
        O mtodo de busca mais lgico parecia ser uma rota semicircular em torno dos trechos em que Hardesty havia estado das ltimas vezes. Aos poucos iriam ampliando 
o crculo. Se o pai de Kate estivesse certo, eles acabariam por encontrar o navio mais cedo ou mais tarde; caso contrrio, passariam o vero todo numa busca emocionante 
e cheia de aventuras, mas sem encontrar nenhum tesouro.
        Embora os tanques presos s costas servissem para lembrar Kate de que no estava livre, ela sentia que poderia permanecer o resto da vida ali embaixo. Sentir 
a gua, as algas e o macio e arenoso fundo do mar lhe proporcionava um imenso prazer.
        O deslumbramento diante das maravilhas naturais daquele mundo desconhecido no impediu, no entanto, que se portasse como uma mergulhadora experiente, chegando 
mesmo a ultrapassar as expectativas.
        Durante essa primeira investida no conseguiram avistar nenhum sinal do "Liberty". Encontraram apenas destroos de outros navios, pedaos de metal enferrujados, 
cobertos de cracas, e que talvez fossem restos de um submarino ou de um navio afundado durante a Segunda Guerra Mundial.
        Ky no quis ultrapassar o tempo planejado para a busca e, voltando-se para Kate, fez-lhe sinal para que retornassem. Durante o retorno, aproveitaram para 
reexaminar a rea j explorada.
        A sensao que ela tinha era a de procurar agulha num palheiro. Para encontrar o navio iriam precisar no s dos mapas e documentos de que dispunham, mas 
principalmente de uma boa dose de sorte.
        Kate deslizava com a graa de uma sereia ao lado de Ky. Agitava a cabea para os lados tentando aproveitar ao mximo cada segundo, mas ele sabia que sua 
mente no estava concentrada em tesouro ou em navios perdidos naquele momento. Na verdade, Kate tinha fascinao pelo mar e pelos seres que o habitavam, e era isso 
que ocupava seu pensamento.
        Enquanto subiam as escadas do barco, Kate ia feliz como uma criana.
        - Oh,  maravilhoso! - Ky no ouvia o som agradvel de sua risada h quatro anos, mas era algo de que jamais se esquecera.
        - L embaixo voc me pareceu mais interessada em se divertir do que em procurar tesouros. - Ky sorriu para ela, apreciando todo aquele contentamento estampado 
no rosto de Kate.
        - Pois eu estava mesmo. Sabia que no encontraramos nada da primeira vez, s se tivssemos muita sorte. Alm disso, foi to maravilhosa a sensao de mergulhar 
novamente! Creio que no existe nada melhor no mundo.
        - H, sim - ele corrigiu. - Mergulhar sem o uso de equipamento. Eu experimentei no ano passado, quando estive no Taiti.  incrvel voc estar debaixo daquela 
gua cristalina sem nada alm da mscara, nadadeiras e seus prprios pulmes.
        - Taiti? - Surpresa e demonstrando grande interesse, Kate virou-se para ele. - Voc esteve l?
        - Por duas semanas - respondeu, jogando a roupa molhada num grande balde de plstico, onde, deixava todo o equipamento de mergulho antes de lav-lo.
        - Por causa de sua afeio por ilhas?
        - E tambm pelas saias feitas de plantas que as nativas usam. Tenho certeza de que voc ficaria linda com uma daquelas. - A fala foi acompanhada de uma sonora 
gargalhada. - S lamento no ter tirado fotografias.
        - O que aconteceu? Preocupado demais em namor-las que no teve tempo de bater umas fotos?
        - Alguma coisa assim. E,  claro, tentando fingir que no percebia o quanto algumas delas me desejavam.
        Kate sorriu.
        - Mulheres com saias feitas de plantas... - ela comentou.
        Ky atirou um pssego em sua direo. Esticando o brao numa ao instantnea e precisa, ela apanhou a fruta e lanou-lhe um sorriso antes de dar a primeira 
mordida.
        - Ainda tem bons reflexos - ele comentou.
        - Ainda mais quando estou com fome. Esta manh no consegui comer nada.
        - Preocupada com o mergulho? - ele perguntou, enquanto retirava duas garrafas de soda da geladeira.
        - Isso e... - interrompeu-se, surpresa consigo mesma por estar falando com ele to  vontade como fazia quatro anos atrs.
        - E... - Ky insistiu. O tom de sua voz era casual, mas os olhos estavam brilhando.
        Percebendo a situao, Kate virou-se para o mar.
        - Talvez tenha me deixado entusiasmar demais com a beleza do sol nascendo, e sua luz se refletindo majestosa na superfcie da gua. Uma cena que no via 
h muito tempo.
        - Por qu?
        - Quando a vida da gente  comandada por uma rotina e horrios rgidos, creio que no sobram muita disposio e tempo para coisas como essa.
        -  o que voc deseja? Horrios rgidos e rotina diria?
        Kate girou a cabea e, por cima do ombro, o encarou. Como era possvel haver entendimento entre duas pessoas quando seus mundos eram to diversos?
        - Foi o que eu escolhi.
        - Uma de suas mltiplas escolhas de vida?
        - Talvez. - Virou-se, determinada a no perder a euforia da primeira aventura sob o mar. - Conte-me mais a respeito do Taiti. Como  l?
        - Muito ar puro, muita gua fresca e agradvel. Muito azul, verde, branco.
        - Como uma pintura de Gauguin?
        - Suponho que sim. Mas no acredito que ele teria apreciado os hotis que existem por l.
        - Voc chegou a mergulhar usando o tanque?
        - Algumas vezes. H conchas e corais to grandes que eu poderia ter enchido um barco com eles se quisesse. Peixes to exticos e belos que seriam uma sensao 
se fossem expostos num aqurio pblico. E tubares. - Ky lembrou-se de um que quase o apanhara quando ele mergulhava a meia milha da praia. A recordao o fez sorrir. 
- As guas prximas ao Taiti podem ser tudo, menos montonas.
        Kate reconheceu uma expresso agitada nos olhos dele. Ky era capaz de unir imprudncia e cautela de forma harmoniosa, uma contrabalanando a outra. Por isso 
a aventura combinava com sua vida simples e sem ambies.
        Mas o temperamento de Ky, sem dvida, nada tinha em comum com o de Kate. O que os afastava era isso, a incompatibilidade que havia entre suas formas de viver.
        - Voc trouxe algum colar feito com dentes de tubaro?
        - Eu o dei para Hope - disse sorrindo. - Mas Linda no quer que ela o use ainda.
        - Como ela ? Ainda no tive oportunidade de conhec-la.
        - Ela se parece comigo.
        - Ah, o ego masculino atuando outra vez!
        Ky deu de ombros, reconhecendo que existia nele uma certa dose de convencimento. Mas achava isso saudvel e muito normal.
        - Eu adoro ver a menina fazendo Linda e Marsh correr em crculos atrs dela. Voc sabe, no h muita diverso aqui na ilha.
        Kate tentou imagin-lo s voltas com uma criana, uma coisa to frgil e dcil, to diferente dele. No conseguiu.
        -  estranho - disse aps alguns segundos de silncio. - Nunca imaginei encontrar Marsh e Linda casados, com uma filha. Quando eu parti, ele a tratava como 
a uma irmzinha.
        - O seu pai no costumava mant-la a par dos acontecimentos aqui na ilha?
        Kate ficou sria e respondeu:
        - No.
        Ky ergueu as sobrancelhas e disse, espantado.
        - E voc lhe perguntava?
        - No.
        - Ele tambm no lhe contou nada a respeito do navio e do motivo que o trazia a Ocracoke todos os anos?
        - No. Ele jamais mencionou coisa alguma sobre o "Liberty".
        - E isso no a incomoda?
        A pergunta a entristeceu, mas ela procurou no demonstrar.
        - Por que deveria? Ele tinha o direito de ter sua vida prpria, sua privacidade.
        - Mas e voc?
        Kate sentiu um repentino desnimo. Atravessou o convs e jogou sua garrafa num canto.
        - Eu no sei o que voc est tentando dizer.
        - Voc sabe, sim. - Ele se levantou e colocou sua mo sobre a de Kate. Sabendo que seria covardia agir de modo diferente, ela ergueu a cabea e o encarou.
        - Voc sabe - ele repetiu com voz baixa. - Apenas no est preparada para admitir ainda.
        - Vamos falar de outra coisa, Ky. - A voz dela estava trmula, e isso a deixou furiosa. - Esquea esse assunto.
        Ele quis sacudi-la, obrig-la a enxergar a verdade e ouvir de seus prprios lbios que o havia abandonado porque seu pai preferia assim. Ele teve vontade 
de ouvi-la dizer, talvez entre soluos, que no tivera foras para contrariar ao homem que lhe moldara a vida de acordo com seus valores e desejos.
        Com esforo, Ky afrouxou os dedos que a seguravam. E, encolhendo os ombros, virou-se para o outro lado.
        - Deixe estar - disse, enquanto voltava para o leme. - O vero est apenas comeando. - Ligando o motor, acrescentou: - Ns dois sabemos o que pode acontecer 
durante um vero.
        H quatro anos muita coisa acontecera, e ambos sabiam disso.
        Kate tentava sufocar seus sentimentos, mas sabia que em algum momento teria de decidir sobre sua vida. A caa ao tesouro, na verdade, significava um resgate 
de seu relacionamento com o pai. No poderia continuar vivendo em funo do falecido Hardesty, e isso a confundia... Teria de encontrar seu prprio caminho e parece 
que Ky estava no meio dele, embora ele no quisesse admitir.
        
        
CAPTULO V
        
        
        
        - A primeira coisa que voc precisa saber quanto a Hope... - Linda comeou, enquanto punha em p um vaso que a pequena havia derrubado -  que ela tem uma 
disposio fora do comum.
        Kate acompanhava os movimentos da menina, que tentava subir numa cadeira, a fim de olhar-se num espelho pendurado na parede.
        Hope era uma garotinha de cabelos pretos, bochechuda e incapaz de permanecer parada por um minuto. Seus olhos irradiavam um brilho expressivo de algum que 
sabe o que quer e como conseguir. Ky estava certo, Kate pensou. A sobrinha se parecia com ele, em muitos aspectos.
        - Como voc arranja energia para dirigir um restaurante, manter um lar e, ao mesmo tempo, educar uma criana como Hope?
        - Vitaminas - Linda respondeu. - Vidros e mais vidros de vitaminas. Hope, no ponha as mos a - ela gritou.
        - Hope! - a pequena repetiu, imitando a me. - Bonita, bonita, bonita... - A menina fazia caretas e se observava no espelho.
        - O ego dos Silver comeou a se manifestar cedo demais.
        - Bem, ela  bonita - observou Kate. -- Isso somente mostra que  tambm esperta para perceb-lo.
        Dando um suspiro de satisfao, Linda sentou-se no sof. Ela gostava muito de ter as tardes de segunda-feira livres, pois assim podia brincar com a filha 
e pr em dia dezenas de coisas que eram deixadas de lado por causa do restaurante.
        - Voc j est aqui h uma semana e esta  a primeira vez que paramos para conversar.
        Kate inclinou-se para frente e afagou os cabelos de Hope, que agora se distraa brincando no tapete.
        - Voc  uma mulher ocupada.
        - Voc tambm. E sei que no voltou  ilha apenas para pescar e descansar. O que anda fazendo com Ky todos os dias em alto-mar?
        - Procurando um tesouro - Kate respondeu, sem dar mais nenhuma explicao.
        - Oh! - Sem mostrar-se muito surpresa, Linda esticou o brao e salvou uma pequena violeta africana dos dedos curiosos de Hope. Em troca, deu-lhe um patinho 
de borracha. - O famoso tesouro do Barba Negra. Meu av ainda gosta de contar histrias do temido e infame pirata. Mas no sabia que o tesouro estava no mar.
        Encantada com a maneira habilidosa com que a amiga conseguia lidar com a menina e conversar sem perder o ritmo, Kate sacudiu a cabea.
        - No, no  o tesouro do Barba Negra. Meu pai vinha tentando descobrir o paradeiro de um navio mercante ingls que naufragou aqui nas proximidades, no sculo 
dezoito.
        - Seu pai? - A ateno de Linda se aguou. - Ento  por isso que ele vinha a Ocracoke todo vero? Sempre me intrigou o fato de... Bem... Voc me desculpe, 
mas seu pai nunca pareceu o tipo de homem que encarava o mergulho submarino como um lazer, e eu jamais o vi segurando um peixe. Ele conseguiu mesmo manter o que 
estava fazendo em segredo.
        - Sim, at de mim.
        - Voc no sabia? - Linda olhou para Hope que batia num balde de plstico com uma das peas de seu quebra-cabea.
        - No antes de ter examinado os documentos dele h algumas semanas. Foi a que decidi concluir aquilo que ele havia comeado.
        - E ento voc veio  procura de Ky.
        - Sim. Eu necessitava de um barco e de um mergulhador, de preferncia algum que morasse na ilha. Ele era o mais indicado para a tarefa.
        - Essa  a nica razo por que voc o procurou? - Linda estava tentando apenas entender a amiga, mas sua voz revelava certa impacincia.
        Kate sentiu-se tomada pelas recordaes, mas, com algum esforo, conseguiu responder  pergunta de Linda sem perder a naturalidade.
        - Sim,  a nica razo.
        - E se eu lhe dissesse que ele jamais a esqueceu?
        - No diga!
        - Eu gosto muito dele, sabe? Mesmo sendo um homem difcil de se lidar. Afinal, ele  irmo de Marsh.  como se fosse meu irmo tambm. E voc  a primeira 
pessoa do continente com quem eu tenho amizade.
        Foi grande a tentao que Kate sentiu de abrir seu corao com a amiga, de contar-lhe tudo a respeito de suas dvidas, de seus sentimentos para com Ky. Mas 
no o fez. Preferiu guardar tudo em segredo, como seu pai fizera com o tesouro.
        - Eu gosto muito dele, Linda. No entanto, creia-me, o que existia entre mim e Ky terminou muito tempo atrs. A vida muda.
        - Est bem. - Pelo tom de sua voz podia-se afirmar que Linda no se convencera, mas decidiu no pressionar. - Conte-me como foi sua vida nestes ltimos quatro 
anos.
        - Sem muitas novidades. Obter o meu doutorado to cedo exigiu de mim grande esforo e dedicao. - Ela necessitara encontrar alguma coisa com que se preocupar 
para poder afastar a angstia e o sofrimento, para poder esquecer-se de Ky. - E, como tinha de lecionar tambm, isso no me deixou muito tempo para outras coisas. 
 estranho, eu nunca imaginei que ser professora fosse to difcil e desgastante quanto ser estudante.
        -  mais ainda - Linda acrescentou. - Voc tem de fornecer as respostas certas no momento em que so pedidas.
        - Sim. - Kate abaixou-se para observar a coleo de animaizinhos de Hope. - Mas talvez esse seja um dos aspectos mais atraentes da carreira. Dar a informao 
e v-la ser absorvida pelo aluno.
        - Esperando que seja absorvida, voc quer dizer.
        Kate riu.
        - Sim, suponho que seja assim. Quando acontece,  muito gratificante. Ser me no deve ser to diferente. Todo dia voc est ensinando.
        - Ou tentando - disse Linda.
        - A mesma coisa, ento.
        - Voc  feliz?
        Hope abraou um drago cor-de-rosa e mostrou-o a Kate. Ela era feliz? Kate perguntava-se enquanto acariciava o brinquedo. Ela havia estado em busca de sua 
realizao profissional, pensou, no de sua felicidade. O seu pai jamais lhe perguntara isso.
        - Eu quero lecionar - ela respondeu. - E seria uma mulher infeliz se no pudesse.
        - Essa  uma maneira indireta de responder sem responder a coisa alguma.
        - s vezes no existe um "sim" ou "no".
        - Ky! - Hope gritou, e Kate, num impulso, virou-se em direo  porta da frente.
        - No... - Linda notou a reao, mas no disse nada. - Ela est falando com o drago. O tio o deu a ela, por isso ficou sendo Ky.
        - Oh! - Kate sentiu vontade de praguejar, mas em vez disso conseguiu sorrir enquanto devolvia o brinquedo  menina. No era possvel que o simples fato de 
ouvir o nome dele a fizesse tremer toda.
        - Ele no parece gostar muito de coisas comuns, no ? - observou, referindo-se ao nome de Ky.
        - No. Os seus gostos sempre o conduziram ao que  raro e difcil de se obter.
        As sobrancelhas de Kate se levantaram quando ela percebeu o olhar firme que a amiga lhe dirigia.
        - Voc  persistente, hein?
        - Sim. Com as coisas em que acredito. - Havia em Linda muita coragem e fora, Kate pensou. Ela no era do tipo que desistia de alguma coisa com facilidade. 
- E acredito em voc e Ky - ela concluiu.
        - Voc no mudou nada. Eu voltei e a encontrei casada, me e dona de um restaurante, mas voc continua a mesma.
        - Ser esposa e me apenas me torna mais segura de que aquilo em que acredito  certo - disse um pouco arrogante, mas sem ser indelicada. - Ns no possumos 
o restaurante - ela acrescentou.
        - No?! - Kate estava surpresa. - Mas eu pensei que voc tivesse dito que o "Paraso" pertence a voc e a Marsh.
        - Ns o dirigimos - Linda corrigiu. - E temos vinte por cento no negcio. - Recostando-se no sof, ela lanou um sorriso de satisfao para a amiga. No 
havia nada que apreciasse mais do que atirar pequenas pedras em guas calmas e ficar assistindo ao efeito que causavam. - Ky  o dono do restaurante.
        - Ky? - Kate no conseguiu disfarar o espanto. O homem que ela julgou conhecer no possua nada alm de um barco e uma cabana velha na praia. Montar um 
restaurante, mesmo numa ilha remota, exigiria mais do que capital. Exigiria ambio.
        - Ele no falou sobre isso com voc?
        - No. - Ele tivera vrias oportunidades, Kate recordou, durante a noite em que jantaram juntos. - No, ele no mencionou. Isso no parece prprio dele. 
Eu no estranharia se soubesse que ele havia comprado um outro barco, maior ou mais veloz, mas no consigo imagin-lo como proprietrio de um restaurante.
        - Acho que a notcia surpreendeu a todos, exceto Marsh, pois ele conhece o irmo melhor do que ningum. Duas semanas antes de nos casarmos, Ky nos contou 
que havia comprado o estabelecimento e que pretendia remodel-lo. Nessa poca, Marsh era obrigado a atravessar a enseada de Hatteras todos os dias para ir ao trabalho. 
Quando Ky nos perguntou se queramos entrar com vinte por cento e assumir a direo, ns mais do que depressa aceitamos.
        Kate lembrou-se da atmosfera agradvel, da excelente comida e do eficiente e rpido atendimento. No, com certeza no fora um mau negcio, mas Ky...
        - Eu no consigo imagin-lo como um homem de negcios.
        - Ele conhece muito bem a ilha - disse Linda. - E sabe o que quer. Seu nico problema, no meu modo de entender,  que nem sempre sabe como conseguir.
        Kate no estava disposta a discutir sobre isso.
        - Eu vou dar um passeio pela praia - ela decidiu. - Voc gostaria de vir comigo?
        - Eu adoraria, mas... - Com um gesto de mo, indicou o motivo pelo qual Hope permanecera quieta nos ltimos minutos. Abraada ao pequeno drago e esparramada 
sobre os demais brinquedos, ela dormia como um anjinho.
        - Se ela anda, voc anda; se ela pra, voc pra, no ? - observou Kate, rindo.
        - O bom disso  que, quando ela pra, eu posso parar tambm. - Habilmente, Linda carregou Hope nos braos, embalando-a. - Faa um bom passeio, e aparea 
no "Paraso"  noite, se puder.
        - Est bem. - Kate afagou os cabelos da menina, to grossos, escuros e desarrumados quanto os de seu tio. - Ela  muito bonita, Linda. Voc  uma mulher 
de sorte.
        - Eu sei.  algo de que eu nunca me esqueo.
        Kate deixou a casa e comeou a caminhar em direo  praia. Havia algumas nuvens baixas e escuras no cu, o que indicava que choveria logo. No caminho avistou 
dois homens conversando, sentados em suas banquetas, com as varas de pescar fincadas na areia. Kate no pde entender o que diziam, pois o barulho das ondas rebentando 
na praia encobria o som de suas vozes. Mesmo assim, tinha certeza de que o assunto girava em torno de iscas, barcos e o produto da pescaria do dia anterior. Sabia 
que aquela tranqilidade lhe fazia bem. Ver pessoas to calmas como os dois pescadores era uma situao rara no continente. Na ilha todas viviam bem, e isso a agradava 
muito.
        O vento fazia seus cabelos flutuarem, afrouxando os grampos que os prendiam. Parada prxima s guas, ficou de frente para o mar, com os olhos perdidos na 
imensido.
        Precisava meditar sobre o que acabara de descobrir a respeito de Ky. A brisa batendo-lhe no rosto a ajudaria a conservar as idias claras e os pensamentos 
coerentes. Talvez o cheiro do mar e o barulho das guas a fizessem recordar aquilo que um dia tivera e que rejeitara em prol de sua carreira.
        No passado ela fora capaz de delirar, de vibrar com as belezas da vida e da natureza. Ky lhe fizera perceber o mundo de uma outra forma, muito mais sensvel. 
Ao lado dele Kate sentira-se mulher e entregara-se s emoes.
        Mas ela preferia uma existncia calma e organizada s constantes e loucas aventuras; a estabilidade financeira, s dificuldades materiais advindas de uma 
vida em comum dedicada somente  natureza e ao amor.
        Com o vento batendo-lhe no rosto, assistiu  chuva que comeava a cair como uma cortina escura a cobrir o oceano. Se o passado fora um tesouro que ela perdera, 
nenhum grfico seria capaz de traz-lo de volta. Desde pequena ela fora ensinada a nunca voltar atrs em suas decises.
        
        De alguma forma, os dois haviam transformado suas horas de trabalho em busca do "Liberty" numa atividade to intensa e agitada que j era possvel permanecerem 
juntos sem problemas. Mas a tenso da convivncia ia aos poucos deixando Ky nervoso, a ponto de cometer algum erro nos momentos em que nenhum mergulhador poderia 
comet-los.
        Ver Kate, estar ao seu lado, sabendo que ela no mais o desejava, doa mais do que quando estavam distantes. Para ela, Ky era apenas um meio para atingir 
um objetivo, uma ferramenta que usava da mesma forma que um livro em sua sala de aula. O nico culpado deste sofrimento parecia ser ele mesmo.
        Mas, como tinha aceitado os termos do acordo, agora s lhe restava criar coragem para enfrent-los.
        Ele no ouvira mais a risada dela desde aquele primeiro mergulho, e sentia falta disso. Tanto quanto sentia falta de seus beijos, da sensao de t-la em 
seus braos. Kate no lhe daria nada disso de livre e espontnea vontade, e ele j estava quase convencido de que no moveria um dedo para t-la de volta.
        Mas  noite, sozinho, com o som das ondas chegando-lhe aos ouvidos, ele no estava certo de que desistir deste amor fosse a melhor alternativa. Tinha de 
consegui-lo. Fora a feroz luta pela sobrevivncia que o mantivera de p nos ltimos anos. A rejeio de Kate o abatera a princpio, para ento tornar-se a fonte 
de energia de que ele necessitava para continuar batalhando. Kate fora a razo de ele ter arriscado cada centavo que possua na compra do "Paraso". Ele precisava 
de algo concreto que lhe garantisse segurana, e o restaurante lhe dera isso. Uma sensao de posse, de responsabilidade, que Ky no passado julgava desnecessria.
        Agora, na mesma praia, com uma distncia de talvez alguns metros a separ-los, Kate e Ky apreciavam o mar e a chuva, sem se dar conta da presena um do outro. 
Seus pensamentos eram idnticos e repletos de recordaes.  medida que a chuva se aproximava, a fora do vento ia aumentando. Ambos reconheciam a inquietao que 
crescia dentro de si, mas nenhum era capaz de reconhecer que estava na hora de acabar com aquela solido.
        Quando se viraram para subir as dunas, avistaram-se.
        Kate no entendia como, estando to perto, no haviam notado a presena um do outro. Seu corpo e sua mente, sempre to calmos, arderam em agitao quando 
ela o viu. O que sentia estava acima de seu controle. Sabendo que fugir seria como admitir a prpria derrota, deu o primeiro passo em direo a Ky. O fino tecido 
branco de que era feita a sua saia ondulava com o vento. Sua pele clara dava destaque aos olhos escuros. Mais uma vez ele voltou a pensar em sereias, em iluses 
e sonhos.
        - Voc sempre gostou de vir  praia antes de um temporal - ela disse quando se aproximou.
        - No vai demorar muito. - Ky colocou as mos nos bolsos da frente de seus jeans. - Se voc no trouxe o carro, vai ficar molhada.
        - Eu estava visitando Linda. - Kate olhou para o mar, a fim de observar a chuva. - No, no deve demorar muito. Mas no importa - murmurou. - Temporais como 
esse so passageiros. Eu conheci Hope. Voc estava certo.
        - Sobre o qu?
        - Ela se parece com voc. Sabia que colocou o seu nome num boneco?
        - Um drago no  um boneco. - corrigiu. Um discreto sorriso curvou-lhe os lbios. Ky podia resistir e se mostrar indiferente a muitas coisas, durante o 
tempo que desejasse, mas isso era impossvel quando se tratava de sua sobrinha. - Ela  uma grande garota. Um futuro marinheiro, ou melhor, marinheira.
        - Voc a leva para passear em seu barco?
        Ele percebeu o tom de espanto e deu de ombros.
        - E por que no? Ela gosta da gua.
        - Eu no consigo imagin-lo... - Interrompendo-se, Kate tornou a fitar o mar. No, ela no conseguia v-lo entretendo uma criana com drages de brinquedo 
e passeios de barco, assim como era difcil imagin-lo no mundo dos negcios, discutindo assuntos comerciais com um contador. - Voc me surpreende em muitos aspectos!
        - Por exemplo?
        - Linda me contou que voc  o dono do "Paraso".
        Ky no precisou olhar para o rosto dela para saber que se estampava nele aquela tpica expresso pensativa.
        -  verdade, ou pelo menos da maior parte dele.
        - Voc no me disse nada quando jantamos l.
        - E por que deveria? - Kate no precisou olhar para saber que ele estava encolhendo os ombros. - A maioria das pessoas no se importa em saber quem  o proprietrio 
de um restaurante desde que a comida seja boa e o atendimento rpido.
        - Acho que eu no sou como a maioria das pessoas - ela disse em voz to baixa que Ky mal pde entender.
        - E por que isso importaria a voc? - perguntou, tenso.
        Antes que tivesse tempo de raciocinar, ela se virou, com os olhos cheios de emoo.
        - Porque isso tudo me importa. Porque tantas coisas mudaram e tantas coisas continuam as mesmas. Porque eu quero... - Interrompendo-se, ela deu um passo 
atrs. A expresso em seus olhos era de pnico no momento em que tentou fugir.
        - O qu? - Ky agarrou seu brao, exigindo uma resposta. - O que  que voc quer?
        - Eu no sei - ela gritou, sem se dar conta de que era a primeira vez que pronunciava essa frase em anos. - Eu no sei o que eu quero... No entendo...
        Impaciente, ele a puxou de encontro a seu corpo, acariciando seu rosto.
        - Esquea-se de tudo que no esteja aqui e agora. - Ver Kate num momento em que no esperava fez suas emoes vacilarem. - Voc me abandonou uma vez, mas 
eu no vou rastejar aos seus ps de novo. - Depois de uma pausa, ele acrescentou: - Garanto que no vai ser to fcil fugir de mim desta vez.
        Ky apertou mais os braos ao redor do corpo de Kate. Seus lbios, vidos de paixo, procuraram pelos dela, ameaando, prometendo. Mas Kate no percebia nada 
disso; nada mais lhe importava. Era o sabor daqueles lbios que ela queria sentir. Mais tarde ela pensaria nas conseqncias.
        - Diga-me o que voc quer, Kate. - A voz dele era baixa, ofegante. - Vamos, diga-me agora.
        Agitada, ela apenas balanou a cabea. O calor da respirao de Ky junto  sua pele bastou para que o desejo que ela tanto procurava reprimir tomasse conta 
de seu corpo.
        - Voc - ela murmurou. - Apenas voc. - Abraando-o, Kate ergueu a cabea e ofereceu-lhe os lbios.
        Foi um beijo selvagem e apaixonado, acompanhado do barulho estrondoso do rebentar das ondas e da ameaa da chuva se aproximando.
        Ela podia sentir a presso do corpo de Ky junto ao seu, ao mesmo tempo em que a boca dele parecia querer devor-la.
        Kate era capaz de faz-lo delirar de desejo com uma simples carcia. Como era bom sentir novamente a delicadeza e o calor que dela emanavam. A pele de Kate 
parecia to sensvel quanto a ptala de uma rosa, e seu perfume era to suave. As recordaes, o momento presente, as fantasias e desejos, tudo isso se misturava 
na cabea dele, enlouquecendo-o.
        Queria lev-la para junto do mar e l fazer amor... E nessa hora o cu derramaria sobre os dois uma chuva doce e revigorante.
        - Eu a quero muito... - Com o rosto tocando o pescoo de Kate, procurava excit-la. - Voc sabe o quanto. Sempre soube.
        - Sim... - A cabea de Kate agitava-se de um lado para outro.
        Cada pequena palavra sussurrada contribua para aumentar seu desejo.
        Sim, ela sabia o quanto Ky a desejava. No importavam as inmeras perguntas a respeito dele que ainda permaneciam sem resposta, ela jamais chegara a duvidar 
da intensidade de seus sentimentos.
        Havia, no entanto, outras coisas em que pensar. A concluso da audaciosa tarefa empreendida por seu pai; a carreira pela qual ela batalhara com tanto afinco; 
o departamento de ingls da Universidade de Yale, que viria a chefiar um dia...
        - Ns no podemos - disse Kate, tentando desvencilhar-se dos braos de Ky. - Eu no posso... - Desta vez, quando tocou o rosto dele com as mos, foi para 
afast-lo. - Isso no seria sensato.
        Os olhos de Ky s revelavam frustrao.
        - Sensato? Como voc consegue desperdiar um momento como este falando em sensatez? Ser que daquelas vezes em que nos amamos eu no representei para voc 
nada alm de um passatempo sem conseqncias?
        - Est enganado. Voc foi muito importante para mim e sempre me atraiu muito, mas no  isso que desejo agora.
        Os dedos dele apertaram com mais fora os braos de Kate.
        - Eu pedi que voc me dissesse o que queria. E voc o fez. -; Enquanto Ky falava, a chuva comeou a cair e os deixou ensopados em pouco tempo. Parados, to 
prximos e to distantes, eles permaneceram calados por alguns segundos. Ela via a gua escorrer pelo corpo de Ky, excitada. No sabia dizer por que, mas no cederia 
outra vez.
        - Naquele momento eu quis t-lo, no posso negar.
        - E agora? - ele perguntou com voz firme,
        - Agora eu quero voltar  vila.
        - No foi isso o que eu perguntei, Kate. O que mais voc quer?
        Ela o fitou, e os olhos dele estavam muito escuros, tempestuosos como o mar. De alguma forma, parecia mais difcil resisti-lo quando estava assim, irritado, 
quase sem controle. Kate sentiu um peso no corao e um frio no estmago. Isso era tudo, ela disse a si mesma. Nisso se resumiam os seus sentimentos por Ky. Um desejo 
sem explicao, uma paixo sem futuro e emoes irracionais.
        - Nada que voc possa me dar - ela sussurrou, ciente de como seria difcil reunir foras para ir embora, at mesmo para dar o primeiro passo. - Nada que 
tenhamos para dar um ao outro. Eu vou embora.
        - Voc voltar para mim - Ky prometeu, enquanto ela comeava a se distanciar. - E, se no voltar - acrescentou, num tom que a fez hesitar -, no far diferena. 
Ns apenas estaremos terminando o que nem recomeamos.
        Ela estremeceu, mas continuou andando. Terminar o que nem haviam recomeado. Isso era o que Kate mais temia: um recomeo.
       
       
       
       CAPTULO VI
        
        
        
        O temporal havia passado. Pela manh o mar estava calmo e azul, iluminado por um cu lmpido e sem nuvens.
        O dia parecia perfeito para mais uma jornada no mar, apesar do estado em que se encontravam os nervos de Kate. Foi o compromisso assumido consigo mesma e 
o acordo firmado com Ky que a fizeram caminhar at o porto, quando sua vontade era abandonar tudo e retornar a Connecticut. Mas, se ele era capaz de prosseguir a 
busca, a despeito do que acontecera entre os dois na praia, ento ela tambm seria.
        Talvez Ky tivesse percebido a fadiga em seu rosto, mas no fez nenhum comentrio a respeito. Poucas palavras foram trocadas enquanto navegavam para o alto-mar. 
No convs do barco, mantinham-se bem distantes um do outro. Enquanto Ky permanecia atento junto ao leme, Kate dirigiu-se para a popa, onde ficou sentada, em silncio.
        Depois de fazer uma verificao nos instrumentos, Ky constatou que haviam atingido o ponto previsto e desligou os motores. Sem se falarem, comearam a se 
aprontar para o mergulho. Puseram os trajes, as lanternas foram fixadas  cabea, junto com as mscaras. Inspecionaram as vlvulas dos tanques e os prenderam s 
costas, apertando as fivelas. Ky entrou na gua primeiro e esperou at que Kate se juntasse a ele.
        A euforia logo tomou conta de Kate, pois o mar tinha sempre alguma coisa nova e fascinante para exibir aos seus olhos.
        Mantendo-se sempre  vista um do outro, eles iniciaram sua trajetria em direo aos trechos mais profundos. Kate sabia que Ky mergulhava sozinho, e que 
essa era uma prtica bastante arriscada. Sabia tambm que, independente da raiva e do ressentimento que ele pudesse estar alimentando, jamais colocaria sua vida 
em risco.
        Confiava tanto nos instintos dele quanto em sua habilidade. Era a percia de Ky que os estava guiando agora, talvez mais do que os cuidadosos clculos de 
seu pai. Eles ainda estavam na extremidade do territrio traado nos mapas pelo Sr. Hardesty, mas Kate no se sentia desanimada. Se no tivesse confiana na habilidade 
e nos instintos de Ky, nunca teria voltado a Ocracoke.
        Quando ele lhe fez sinal para que desligasse a lanterna, ela o obedeceu sem vacilar. Uma sensao de deslumbramento a invadiu, pois a luz do sol estava um 
pouco acima deles, e seu brilho penetrava as guas do oceano proporcionando um espetculo muito bonito. Vez por outra um peixe, curioso e valente, surgia ao lado 
deles, para em seguida desaparecer nas profundezas, com movimentos to ligeiros que mal se podia acompanh-los com os olhos.
        Ky nadava com calma, sem perder o ritmo. A claridade de suas lanternas, agora acesas novamente, permitia que vissem melhor o caminho e afastava os peixes 
que se escondiam em rochas existentes no fundo do mar h sculos.
        Havia tanto para ver e tocar. Crustceos de diferentes formas, tamanhos e cores. Ali, em seu prprio habitat, eles eram livres e felizes, bem ao contrrio 
do que seriam se estivessem na praia, desamparados, sendo recolhidos e atirados em pequenos baldes pelas crianas. Peixes exticos de todos os tipos mostravam-se 
e sumiam na farta vegetao marinha. Diferentes dos golfinhos e dos homens, algumas criaturas jamais conheceriam a emoo de poder viver tanto em terra como na gua.
        Num dado momento, o foco de luz emitido pela lanterna de Kate incidiu sobre alguma coisa escondida sob uma grossa camada de cracas. Curiosa, ela se deteve 
para observar. Era estranho, pensou, a forma como algumas rochas estruturavam-se. Aquela, em particular, at se parecia com um objeto.
        Hesitante, ela se aproximou para examinar os detalhes. A euforia que se apossou de Kate foi to intensa que ela sem querer agarrou o brao de Ky. A primeira 
idia que passou pela cabea dele foi a de que Kate estava tendo problemas com o equipamento. Com um gesto de cabea, ela o informou de que no se tratava disso. 
Em seguida apontou com o brao para a estranha formao.
        Quando as luzes das lanternas juntas iluminaram o objeto, Kate quase soltou um grito de alegria pela descoberta. Embora corrodo e coberto de crustceos, 
podia-se afirmar com segurana que se tratava de um canho.
        Ky aproximou-se e, com  cabo de sua faca, deu algumas pancadas na estrutura do canho. O rudo metlico produzido soava de maneira estranha. Kate tinha 
certeza de que nunca ouvira nada mais musical.
        A alegria era tanta que ela no conseguiu conter o riso. Uma longa fileira de bolhas de ar se formou sobre sua cabea. Ky olhou em sua direo e sorriu tambm, 
expelindo outras tantas bolhas.
        Haviam achado um canho enferrujado, e ela estava to feliz como se tivesse descoberto uma arca cheia de moedas de ouro. Ele compreendia a razo disso. O 
velho canho talvez estivesse perdido ali h mais de duzentos anos. Isso s j bastava para transform-lo num tesouro.
        Fazendo um movimento com a mo, Ky ordenou-lhe que o seguisse. Se haviam encontrado um canho, era possvel que, vasculhando os arredores, acabassem descobrindo 
mais coisas.
        A princpio, Kate relutou um pouco em abandonar sua primeira descoberta, mas depois concordou em acompanh-lo. Ela no imaginara que aquela busca pudesse 
ser to emocionante.
        A idia de estar diante de um objeto que talvez estivesse ali por mais de dois sculos a fascinava. Imagine o que seus amigos de Yale diriam disso... E pensar 
que Ky compartilhava de tudo, de cada pequena descoberta! Seus colegas dariam uma interpretao intelectual ao caso, mas o raciocnio cientfico no faz ningum 
ter vontade de dar cambalhotas, e eles nunca sentiriam a alegria que ela experimentava agora.
        Talvez seu pai tivesse vibrado muito com isso. Ela gostaria de poder ter-lhe dado essa emoo, mas Edwin Hardesty ficara apenas na fase de planejamento, 
de criao de teorias, de pesquisas em livros. Ela, com uma longa olhada para aquele canho antigo, aprendera muito mais do que o pai em tantos anos de pesquisa.
        Quando Ky a tocou nos ombros, suas emoes estavam to embaralhadas quanto seus pensamentos. Se pudesse falar naquela hora, mesmo sem saber por que, teria 
pedido a ele que a tomasse nos braos. Estava feliz, mas em meio a essa felicidade existia uma ponta de tristeza, por tudo que havia perdido e que jamais seria capaz 
de reencontrar. Talvez Ky soubesse o que a abalava. No se podiam comunicar atravs de palavras, mas ele lhe tocou o rosto com os dedos, reconfortando-a. O gesto 
valeu a ela mais do que qualquer coisa que Ky pudesse dizer. Ela compreendeu, ento, que nunca havia deixado de am-lo. No importa por quantos anos ou por quantas 
milhas eles tivessem se mantido distantes um do outro. A vida para ela nos ltimos quatro anos fora, apesar das inmeras atividades a que se dedicara, um completo 
e triste vazio. Era possvel continuar para sempre dessa forma, mas no depois de haver provado o sabor da liberdade e da verdadeira vida. Kate poderia ter entrado 
em pnico e fugido dali, no fosse o sucesso da descoberta. Quanto  confuso de sentimentos, por certo o tempo mostraria o melhor rumo a tomar. Ky queria perguntar-lhe 
o que se passava em seus pensamentos, mas as palavras teriam de esperar. Seu tempo de permanncia sob a gua estava se esgotando. Mais uma vez ele lhe tocou o rosto 
e esperou pelo sorriso, que indicaria que estava tudo em ordem. Quando ela sorriu, Ky apontou para algo que tinha acabado de encontrar. Uma prancha de madeira, velha, 
lascada e coberta de plantas parasitas. Tirou a faca para remover a madeira enterrada escavando. Logo em seguida, acenou com o polegar para Kate, indicando que deveriam 
voltar  tona. Ela sacudiu a cabea para os lados, indicando que preferia continuar a busca. Ky apontou para o relgio que marcava a quantidade de ar existente no 
tanque, fazendo-a entender que no era uma questo de escolha.
        Frustrada, ela teve de concordar, e os dois rumaram para o oeste, de volta ao barco. Quando passaram ao lado do canho, Kate admirou-o mais uma vez, orgulhosa. 
Ela o encontrara. E as descobertas estavam apenas comeando.
        No instante em que ps a cabea fora da gua, ela comeou a rir,
        - Ns o achamos! - E agarrou-se  escada do barco com uma das mos, enquanto Ky subia na frente e colocava a prancha e seu tanque de ar no convs.
        - Eu no consigo acreditar...  incrvel, aquele canho perdido l embaixo todos estes anos. - Gotas de gua escorriam-lhe pelas faces, mas ela nem notou.
        - Ns precisamos encontrar o casco do navio, Ky. - Impaciente, retirou os tanques e subiu a bordo.
        - As chances so boas, me parece.
        - Finalmente! - Kate sacudiu a cabea a fim de afastar os cabelos molhados que lhe cobriam os olhos.
        - Ns achamos isto em uma semana! - Ela apontou para a prancha no convs. - Ns descobriremos o "Liberty".
        - Ns descobrimos os destroos de um navio - ele corrigiu. - Talvez no do "Liberty".
        - Mas  - ela afirmou com tamanha convico que deixou Ky surpreso. - Ns encontramos o canho e isso bem na extremidade da rea marcada por meu pai.
        - Independente de ser ou no o "Liberty", o seu nome ir para os livros, professora.
        A maneira como Ky disse aquilo a irritou.
        - Eu no estou interessada em que meu nome v para os livros.
        - O nome do seu pai, ento. - Ky desceu o zper do traje, permitindo que sua pele secasse ao sol.
        Kate lembrou-se de sua emoo ao localizarem o canho e de como Ky parecia t-la entendido bem. Ser que s eram capazes de trocar gentilezas quando estavam 
debaixo d'gua?
        - E h algo errado nisso?
        - Somente se for uma obsesso. Voc sempre teve problemas com seu pai.
        - Por que ele no o aprovou? - ela replicou.
        - No, mas porque voc dava uma importncia exagerada ao que ele queria e se esquecia de si mesma.
        Aquelas palavras atingiram-na como um golpe. Afinal,  sempre doloroso ouvir as verdades.
        - Eu vim aqui para concluir o projeto de meu pai. Deixei isso bem claro desde o princpio. E voc est recebendo os seus honorrios.
        - Voc ainda est seguindo as instrues dele.
        Antes que ela pudesse argumentar, ele se virou e comeou a caminhar em direo  cabine.
        - Ns vamos comer e descansar antes de descermos outra vez.
        Com esforo, Kate conseguiu manter a calma. Queria muito voltar a mergulhar e descobrir mais coisas, mas no para a aprovao do velho "Hardesty", tampouco 
 de Ky, e sim para sentir-se satisfeita e realizada.
        Mais tranqila, ela observou Ky mexendo num armrio.
        - Pasta de amendoim? - perguntou ao ver a pequena jarra que ele havia tirado de l.
        - Protena.
        Kate riu, e isso a ajudou a relaxar.
        - Voc ainda costuma com-la com bananas?
        -  muito bom.
        Kate torceu o nariz, duvidando.
        - Quando ns acharmos o tesouro - ela disse sem pensar -, eu lhe pago uma garrafa de champanhe.
        Os dedos de Ky e de Kate se roaram quando ele lhe deu um sanduche.
        - Eu vou cobrar essa promessa de voc. - Ele apanhou seu lanche e um copo de leite. - Vamos comer no convs.
        Ky sabia que permanecer ao lado dela naquela minscula cabine seria to difcil como fora da primeira vez, ou da ltima. Sem esperar para descobrir se ela 
concordava ou no, ele subiu as escadas de volta para evitar qualquer atrito, e Kate o seguiu.
        -  possvel que seja bom para voc - ela comentou ao dar a primeira mordida no sanduche. - Mas me parece o tipo de alimentao que uma me daria a uma 
criana de cinco anos que estivesse doente.
        - Crianas de cinco anos necessitam de muita protena. - Sem querer continuar a discusso, Kate sentou-se no convs. No permitiria que os sutis ataques 
dele a atingissem, nem pretendia rebat-los. Estavam naquilo juntos, recordou. Tenso e guerra entre eles no os ajudaria a encontrar o que procuravam.
        -  o "Liberty" - ela murmurou, fitando a prancha. - Eu sei que .
        -  possvel, mas h muitos navios naufragados nestas guas. Diamond Shoals  um verdadeiro cemitrio deles.
        - Diamond Shoals fica a cinqenta milhas ao norte.
        - E toda a costa ao longo destas ilhas est cheia de violentas correntezas litorneas e recifes. H duzentos anos no se dispunha dos modernos equipamentos 
de navegao que temos hoje. Eu no saberia fazer uma estimativa do nmero enorme de navios que naufragaram por aqui desde Colombo at a Segunda Grande Guerra.
        - Ns estamos preocupados com apenas um desses navios.
        - O problema  este mesmo, no queremos encontrar qualquer navio, mas um especfico. No ano passado, aps a passagem de dois furaces, acharam restos de 
embarcaes junto  praia de Hatteras. H dezenas de casas na ilha que foram construdas a partir de peas recolhidas em meio a destroos. - Ky apontou para a prancha. 
- Aquilo que encontramos pode ou no ser o "Liberty", mas, de qualquer forma, no podemos negar que se trata de um tesouro. Afinal, qualquer coisa que permanea 
perdida por mais de duzentos anos deve ser considerada como tal.
        Kate preferiu no lhe dizer que no era em qualquer tesouro que estava interessada. Apenas no do "Liberty". Tinha certeza de que ele j sabia disso. Depois 
de tomar um gole de leite, ela perguntou:
        - O que voc planeja fazer com sua parte?
        Com os olhos meio fechados, Ky encolheu os ombros. No era uma pessoa ambiciosa.
        - Comprar outro barco, talvez.
        - Com o que o ouro de duzentos anos deve estar valendo hoje, voc poderia comprar um dos melhores.
        -  o que pretendo - ele disse, sorrindo. - E voc?
        - Eu no estou certa. -- Kate gostaria de ter algum objetivo definido para o dinheiro, algo que causasse grande excitao. Mas no momento parecia impossvel 
pensar noutra coisa que no fosse a aventura da busca em si. - Eu pensei em viajar um pouco.
        - Para onde?
        - Grcia, talvez. Gostaria de conhecer as ilhas gregas.
        - Sozinha?
        A comida e o suave balano do barco atuavam nela como um calmante, relaxando-a.
        - No existe algum dedicado professor que voc gostaria de levar junto? Algum com quem voc pudesse discutir a guerra de Tria?
        - Eu no quero ir para a Grcia com um dedicado professor.
        - Algum mais?
        - Ningum.
        - Por qu?
        - Pare de me fazer tantas perguntas.
        - Por que  que voc no tem um namorado?
        A paz interior e a sonolncia que Kate comeava a sentir desapareceram. Ky viu os dedos dela enrijecerem-se sobre o tecido azul-escuro de sua roupa, demonstrando 
nervosismo.
        - No  de sua conta se eu tenho ou no.
        - Voc acabou de me contar que no tem.
        - Eu apenas disse que no havia ningum que eu gostaria de levar comigo na viagem - ela corrigiu, mas, quando comeou a se levantar, ele a impediu.
        -  a mesma coisa.
        - No, no . E eu torno a repetir que minha vida no  da sua conta, assim como a sua vida no  da minha.
        - Eu tive algumas mulheres - ele disse com tranqilidade. - Mas nenhuma namorada desde que voc deixou a ilha.
        Kate sentiu-se invadida por um misto de dor e prazer. Era perigoso permitir que essa sensao perdurasse. To perigoso quanto seria perder-se nas profundezas 
do oceano.
        - Pare! - Ela tentou afastar a mo dele de seu ombro. - Isto no  bom para nenhum de ns.
        - Por qu? Se ns nos queremos um ao outro?
        - Ky, eu no estou preparada - ela respondeu, depois de uma breve pausa. Sua voz era baixa e revelava certa insegurana.
        Ele a puxou, ficando ambos frente a frente. Embora fosse uma mulher alta, sua magreza a fazia parecer muito frgil. Seus olhos demonstravam medo, e Ky s 
no lhe arrancava o que tanto queria porque percebeu o temor de Kate, como a implorar-lhe que no o fizesse. No naquele momento.
        - Eu no sou um homem paciente.
        - Eu sei disso.
        Ky a soltou, enquanto ainda era capaz de controlar as emoes.
        Uma hora mais tarde mergulharam mais uma vez. A menos de trs jardas de distncia do canho havia uma cordoalha semi-destruda. Com gestos de mo, Ky indicou 
que deveriam comear a juntar num mesmo local tudo o que achassem. Depois ento voltariam, munidos dos apetrechos necessrios para lev-los para cima. Havia mais 
pranchas espalhadas pela rea, algumas to grandes que apenas um homem forte poderia carreg-las, outras to pequenas que Kate poderia segur-las com uma das mos.
        Ao descobrir uma tigela de barro, intacta, Kate imaginou como deveria se sentir um arquelogo ao encontrar, aps horas de escavao, algum objeto ou fragmento 
remanescente de outras eras. Tinha em suas mos uma tigela coberta de sedimentos e de histria. Algum comera nela um dia, talvez um marinheiro, enquanto descansava 
sentado no convs do navio, viajando pelo Atlntico em direo ao Novo Mundo.
        A cordoalha, o canho, as pranchas lembravam o navio. A tigela lembrava o homem.
        Embora colocasse a tigela junto com os outros achados, Kate pretendia lev-la consigo para a lancha assim que Ky desse a ordem de subida. Quaisquer outros 
artefatos que encontrassem poderiam ser doados a um museu, mas daquele em particular ela no abriria mo. Em pouco tempo conseguiram reunir um bom nmero de objetos: 
pedaos de loua, xcaras e garrafas. Haviam achado a cozinha do navio, concluiu Kate.
        Com o passar dos anos, a presso da gua teria desintegrado a embarcao, reduzindo-a a migalhas espalhadas pelo fundo do oceano, como se fizessem parte 
do mundo submarino.
        Precisavam achar alguma coisa com o nome "Liberty" inscrito, para que tivessem certeza de que os objetos encontrados faziam parte do tesouro descrito por 
Hardesty.
        Com o uso de uma faca, Kate comeou a escavar. No era uma maneira prtica de procurar, mas no havia nenhum mal em tentar a sorte.
        Ao desenterrar uma grande colher de pau... sentiu-se muito satisfeita. Em pouco tempo ela seria capaz de provar a Ky que os destroos pertenciam ao "Liberty".
        Radiante e orgulhosa de seu achado, Kate girou o corpo para comunicar-se com Ky, sem perceber que muito prximo dela estava uma criatura muito perigosa, 
uma raia-lixa.
        Ky, que no devia estar a mais de um metro de distncia dela, percebeu o movimento da raia, libertando-se da areia e dos sedimentos que a cobriam, Num gesto 
rpido, agarrou a mo de Kate e a puxou, tentando tir-la do alcance do terrvel peixe. Mas no houve tempo para tanto, e Kate foi chicoteada pela ligeira e malfica 
cauda da raia.
        Seu grito foi abafado pela gua, entretanto Ky pde ouvi-lo. Seu corpo enrijeceu-se, devido  dor e ao choque. A colher que ela achara soltou-se de sua mo 
j sem foras, indo depositar-se no fundo do mar.
        Ky sabia o que fazer. Nenhum mergulhador sensato desceria para o fundo do mar a menos que tivesse conhecimento de como agir em casos de emergncia. Mesmo 
assim, precisou se esforar para dominar o pnico. A pessoa que necessitava de socorro no era apenas um outro mergulhador, era Kate.
        Frio, com movimentos quase mecnicos, inclinou a cabea dela para trs a fim de permitir que a passagem de ar permanecesse aberta. Segurou-a com fora, pressionando 
o peito contra os tanques e a mo contra as costelas de Kate. Em seguida voltou para a superfcie.
        Durante a subida apertava-a, obrigando o ar a sair dos pulmes. Havia sempre o risco de embolia, pois estavam subindo a uma velocidade muito superior  aconselhvel. 
Mesmo enquanto ventilava seus prprios pulmes. Ky mantinha-se atento. Ela iria sangrar, e o sangue atrairia tubares.
        Quando atingiram a superfcie, tratou de desatar o cinto de Kate. Agarrou-se  escada do barco com a mo direita e segurou-a com o outro brao. Em seguida 
soltou os prprios tanques e os atirou ao convs, fazendo o mesmo com os de Kate. Seu rosto estava branco como cera, mas quando removeu-lhe a mscara, ela soltou 
um pequeno gemido. Carregando-a nos ombros, Ky subiu a bordo do "Tufo".
        Colocou-a deitada no convs e, sem vacilar, tirou-lhe o traje de mergulho. Ela gemeu no momento em que ele puxou a parte do traje que estava sobre o ferimento, 
bem acima do tornozelo.
        Com uma expresso de terror no rosto, Ky examinou a rea atingida. Estava pior do que imaginava. Apesar da proteo oferecida pela roupa de mergulho, o espinho 
havia penetrado at o fundo da pele. Se ao menos ele tivesse sido mais rpido...
        Amaldioando-se pelo ocorrido, foi at a cabine buscar o estojo de primeiros socorros.
        Aos poucos Kate foi voltando  conscincia e sentiu uma terrvel dor percorrer-lhe o corpo, desde o tornozelo at a cabea, consumindo o pouco de energia 
que ainda lhe restava. Seu sofrimento era to grande que ela se contorcia de um lado para outro, tentando encontrar alvio.
        - Tente permanecer quieta - Ky pediu, com voz calma e doce. Kate cerrou os punhos e esforou-se para obedecer.
        Agachando-se ao lado dela, Ky colocou as mos sobre seus ombros, de forma que Kate pudesse olhar em seus olhos. Tinha de ter certeza de que ela compreenderia 
bem o que ia lhe dizer.
        - Era uma raia-lixa - disse, omitindo o fato de que o animal devia ter bem uns dez ps de comprimento. - Parte do espinho quebrou e est bem acima de seu 
tornozelo.
        Enquanto falava, via a expresso de tristeza se intensificando nos olhos dela, devido  dor e ao medo.
        - No est cravado to fundo que eu no possa tir-lo, mas vai doer muito.
        Kate compreendia o que ele estava dizendo. Ela poderia ficar como estava at que chegassem ao mdico da ilha, ou confiar nele e permitir que a tratasse ali 
mesmo. Embora com os lbios tremendo, fitou-o nos olhos e disse:
        - Faa o que achar melhor.
        - Est bem, agente firme, ento. No tente ser valente. Grite o quanto quiser, mas procure no se mexer. Eu serei rpido. - Aproximando-se dela, deu-lhe 
um beijo.
        Kate balanou a cabea e, ento, concentrando-se no sabor dos lbios de Ky junto aos seus, fechou os olhos. Em segundos sentiu uma dor aguda, muito maior 
do que imaginou que pudesse suportar. Inspirou para gritar, mas de sua boca saiu apenas uma golfada de sangue, que se esparramou pelo convs. Ky sabia que isso era 
bom, pois o sangue trazia para fora parte do veneno que se espalhara pelo organismo.
        Depois de retirar o espinho, ele limpou e cobriu o ferimento. Em uma hora estariam no mdico.
        Com os dedos trmulos, ele tomou seu pulso. Estava fraco, mas constante. Levantando-lhe uma das plpebras, examinou tambm a pupila. No acreditava que ela 
estivesse em choque. O desmaio sofrido durante a eliminao de sangue fora apenas uma maneira que seu organismo encontrara de escapar  dor. Ky levantou os olhos 
e agradeceu a Deus por isso.
        Inclinando-se, ps sua testa em contato com a de Kate por um momento, e rezou para que ela permanecesse inconsciente at que estivesse segura, sob os cuidados 
do mdico.
        Segurando o leme, partiu a toda velocidade de volta a Ocracoke, onde Kate seria adequadamente atendida.
        
        
        
       CAPTULO VII
        
        
        
        No momento em que comeou a recobrar a conscincia, Kate abriu os olhos e no mais viu o resplandecente azul do cu. Acima dela havia apenas um teto branco. 
Sentiu uma mo fria tocar-lhe o queixo e ouviu a voz terna e serena de Ky.
        - Acalme-se, Kate. Voc est bem agora. Tudo j terminou.
        - Ky... - Ao pronunciar seu nome, ela se esforou para pegar-lhe a mo, algo que lhe daria confiana naquela hora de extrema dificuldade. A prpria voz, 
um pouco debilitada, a assustava.
        - Voc vai ficar boa. - Enquanto falava, Ky mantinha a mo em contato com seu queixo, sabendo que isso a ajudaria. Ele quase enlouquecera esperando ansioso 
que os olhos de Kate se abrissem. - O Dr. Bailey esteve aqui. Lembra-se dele? Voc o conheceu h quatro anos.
        Ela forou a memria e veio-lhe  mente a figura de um homem velho e forte, com a pele do rosto castigada pelo sol, que mais parecia um pescador do que um 
mdico.
        - Sim, eu me lembro. No  ele que gosta de... de cerveja e solha?
        Ky sentiu vontade de rir, assombrado com aquela prodigiosa memria.
        - Voc vai ficar boa, mas ele quer que voc mantenha repouso por mais alguns dias.
        - Eu me sinto... estranha. - Ergueu a mo e tocou a prpria cabea, como que para certificar-se de que ainda estava ali.
        - Voc est sob medicao, por isso se sente atordoada. Compreende?
        - Sim. - Com cuidado ela girou a cabea para observar ao redor. As paredes eram de uma cor branco-marfim. No assoalho de madeira de lei havia um nico tapete, 
com desenhos indianos semi-apagados pela idade. Era a nica coisa que Kate reconhecia. No quarto de Ky, todo o resto havia sido colocado e reconstrudo depois que 
ela deixara a ilha.
        - Eu no estou no hospital - ela constatou, aliviada.
        - No. - Ky ps os dedos em sua testa para verificar se a febre no havia retornado. - Foi mais fcil traz-la para c depois que o Dr. Bailey a medicou. 
No havia necessidade de voc permanecer no hospital, e tanto ele quanto eu achamos que no seria uma boa idia deix-la no seu quarto do hotel por enquanto.
        - Sua casa - ela murmurou, lutando para concentrar as energias. - Este  o seu quarto, eu me lembro do tapete.
        Eles haviam se amado ali uma vez. Era disso que Ky se lembrava. Com esforo, ele conseguiu evitar que sua mo comeasse a tremer.
        - Voc est com fome?
        - Eu no sei. - Ela no sentia dor alguma, mas, quando tentou se sentar, o medicamento em seu organismo fez com que o quarto e a realidade girassem como 
um carrossel.
        Ky ajeitou os travesseiros junto  cabeceira da cama e a colocou quase sentada.
        - O mdico disse que voc deveria se alimentar quando acordasse. Apenas um pouco de sopa. - Depois de levantar-se, Ky tornou o olhar para ela e, com um sorriso 
nos lbios, tentou reconfort-la. - Eu vou providenciar sua comida. No se levante - ele acrescentou, enquanto caminhava em direo  porta. - Voc ainda no est 
forte o suficiente.
        No momento em que deixou o quarto, ele balanou a cabea, desanimado.
         claro que ela no estava forte, sua cor era branca como os lenis que a cobriam. "Nenhuma resistncia", foram estas as palavras que o Dr. Bailey havia 
usado. Falta de alimentao adequada, falta de sono, excesso de tenso. Se no havia mais nada que pudesse fazer, Ky decidiu, pelo menos cuidaria de Kate com todo 
o carinho. Abriu o armrio da cozinha e comeou a preparar uma sopa.
        Ela estava fraca, e isso no era bom. Quando mergulharam, a tenso parecia estampada no rosto de Kate, as olheiras, os sinais de fadiga na voz, mas ele estava 
preocupado demais com seus prprios problemas para fazer qualquer coisa a respeito.
        Ele no se lembrava de j ter passado na vida tanto nervosismo como nas ltimas vinte e quatro horas. Mesmo depois que o mdico a havia examinado e tratado, 
mesmo depois de t-la colocado em segurana em sua casa, sob o efeito de analgsicos e sedativos, a tenso e a angstia permaneciam. Kate queimara de febre durante 
toda a noite, e ele permanecera sentado a seu lado na cama, enxugando-lhe o suor e conversando com ela, mesmo sabendo que no podia ser ouvido.
        Sabia que a queria muito, agora talvez ainda mais do que antes. At o instante em que a viu estendida no convs, com a boca e o pescoo cobertos de sangue, 
no se havia conscientizado de que a amava tanto.
        Ele soubera como enfrentar os prprios desejos, at mesmo a amargura, mas agora, cara a cara com o amor, ele estava indefeso como uma criana. No lhe parecia 
possvel amar algum to frgil, to calma, to... diferente dele. Mesmo assim a atrao que um dia sentira por ela havia crescido, amadurecido e se transformado 
em algo slido do qual ele no poderia fugir. No momento, ele cuidaria dela para que nada de mal lhe acontecesse, pois no era mais possvel imaginar a vida sem 
Kate.
        - O cheiro est delicioso - ela observou, quando Ky ps o prato de sopa a seu lado, na cama.
        - Somente o cheiro no ser suficiente para coloc-la em forma de novo.
        Ela sorriu e, antes que tivesse tempo de pensar, Ky colocou-lhe a primeira colherada na boca.
        - O gosto tambm est timo. - Quando Kate esticou o brao para pegar a colher, esta j estava novamente em frente  sua boca. - Eu mesma posso fazer isso.
        - Apenas coma. Eu cuido disso - ele disse em tom autoritrio, e, tentando imprimir uma certa frieza s palavras, concluiu: - Voc est horrvel.
        - Eu sei. A maioria das pessoas no consegue se manter no auge de sua beleza duas horas depois de ter sido atacada por uma raia-lixa.
        - Vinte e quatro - ele corrigiu, enquanto lhe oferecia outra colherada de sopa.
        - Vinte e quatro o qu?
        - Horas.
        - Voc est querendo dizer que eu fiquei desacordada durante um dia inteiro? - Olhou para a janela, procurando pela luz do sol e uma maneira de desmenti-lo.
        - Voc voltou  conscincia e permaneceu assim por alguns segundos antes que o Dr. Bailey lhe aplicasse uma injeo. Ele avisou que voc no se lembraria. 
Graas a Deus.
        Ela passara por verdadeira agonia todas as vezes que acordara. Ele ainda podia ouvir os seus gemidos, senti-la agarrando-lhe o brao, como que implorando 
que a libertasse de tanta dor e desespero. Ky nunca imaginara que algum pudesse sentir na prpria carne todo o sofrimento de outra pessoa como ele o sentira.
        - Esse atordoamento deve ser devido  injeo que o Dr. Bailey me deu.
        - Ele fez o que era necessrio. - Os dois se olharam e neste momento Kate percebeu que Ky estava muito abatido.
        - Voc esteve de p a noite toda - ela murmurou. - No descansou nem um pouco, est com olheiras.
        - Voc precisava de assistncia - respondeu. - O mdico preferiu mant-la desacordada durante o perodo de dor mais intensa. - O tom de sua voz era suave, 
o que tranqilizava Kate. - O ferimento no foi to srio assim, compreende? Mas voc no estava em condies fsicas para enfrent-lo. O Dr. Bailey disse que voc 
estava a caminho de uma sria e total estafa, por livre e espontnea vontade.
        - Isso  ridculo. Eu no...
        Ky no a deixou prosseguir e colocou mais uma colherada de sopa em sua boca.
        - No me diga que isso  ridculo. Eu tive de ouvir o que o mdico dizia e no pude discordar dele, vendo o seu estado. Voc no come, no dorme... vai acabar 
se arruinando.
        Havia ainda muito do sedativo em seu sistema nervoso para permitir que discutisse e contra-atacasse. Em vez de irritadas, suas palavras saram como um suspiro, 
de to suaves.
        - Eu no me arruinei ainda.
        -  apenas uma questo de tempo, e tenho certeza de que voc s conseguir desfrutar do tesouro se estiver em plena forma.
        A sopa a aquecia e, aos poucos, seu rosto tornava-se mais vivo e adquiria um tom rosado.
        - Eu estarei em forma - ela disse, sem perceber que suas palavras comeavam a se embaralhar. - Ns mergulharemos amanh, e eu vou lhe provar que o navio 
que encontramos  o "Liberty".
        Ele se preparou para discutir com ela, mas, vendo que seus olhos estavam tristes e pesados, decidiu calar-se.
        -  claro - disse com voz calma, sabendo que ela logo adormeceria.
        - Eu doarei a colher de pau, a cordoalha e todo o resto a um museu. - Os olhos dela se fecharam. - Por meu pai...
        Ky colocou o prato no cho.
        - Sim, eu sei.
        - Isso era muito importante para ele. Eu preciso... eu preciso faz-lo em sua memria. - Seus olhos se abriram. - Eu no sabia de sua doena. Ele jamais 
me disse algo sobre seu corao. Se eu soubesse...
        - Voc no poderia ter feito por ele mais do que fez. - A voz de Ky era macia e soava meiga como uma cano de ninar.
        - Eu o amava muito.
        - Eu sei que sim. - Ky ajeitou os travesseiros e colocou-a deitada. - Agora descanse. Quando voc estiver bem, ns dois encontraremos o tesouro.
        - Ky... - Esticando o brao, Kate segurou a mo dele e fechou os olhos, sentindo-se tranqila por ele estar ali.
        - Eu ficarei aqui - ele murmurou. - Agora procure repousar.
        - Durante todos esses anos... - Ky podia sentir os dedos dela perdendo a fora  medida que comeava a adormecer. - Eu nunca o esqueci. Nunca deixei de quer-lo. 
Nunca...
        Quando Kate pegou no sono, seu rosto estava tranqilo, plido como mrmore e suave como seda. No conseguindo resistir, Ky levantou a mo dela e a colocou 
contra seu prprio rosto, apenas para sentir o contato com sua pele. Decidiu descansar um pouco, pois, do contrrio, no teria foras para cuidar dela quando o efeito 
dos remdios passasse.
        Depois de fechar a veneziana, tirou a camisa e deitou-se na cama ao lado da de Kate.
        Durante a noite ela acordou sentindo muita dor, pois j havia acabado o efeito dos medicamentos. Comeava a reordenar seus pensamentos.
        Permaneceu deitada e, aos poucos, lembrou-se do que se passara. Ouvindo o som tranqilo da respirao de Ky, virou a cabea e o viu deitado na cama ao lado. 
A luz do luar banhava a pele de seu peito.
        Ky tinha dito que ficara com ela todo o tempo, lembrou-se. E havia sinais evidentes de fadiga em seu rosto.
        Uma branda onda de calor percorreu o corpo de Kate. Emocionada, estendeu o brao at ele e o tocou no rosto.
        Embora o gesto tivesse sido leve como um sussurro, Ky despertou assustado. Seu sono na verdade no fora mais que um cochilo, mas suficiente para repor as 
energias. Sentando-se na cama, ele sacudiu a cabea, como que para despertar por inteiro. Parecia um menino que acabava de voltar ao mundo depois de uma rpida soneca.
        - Eu no pretendia acord-lo - murmurou.
        - Est sentindo dor? - ele perguntou, depois de ter acendido a luz.
        - No.
        A resposta no soou muito convincente aos ouvidos de Ky. Estudando-a com cuidado, notou que o aspecto vidrado dos olhos, causado pelos remdios, havia desaparecido, 
mas a cor normal ainda no retornara.
        - Tem certeza?
        - Est bem. Di um pouco.
        - O Dr. Bailey deixou algumas plulas.
        Quando ele se preparou para levantar, Kate o segurou.
        - No, eu no quero tomar nada. Os remdios me deixam grogue.
        - Mas tiram a dor.
        - No agora, Ky, por favor. Eu prometo que avisarei se piorar.
        Aquelas palavras, pronunciadas em tom de splica, revelavam tanta fragilidade que Ky no teve coragem de discutir.
        - Est bem. Voc est com fome?
        Ela sorriu e sacudiu a cabea.
        - No. Devemos estar ainda no meio da noite. - Ela o tocou, em sinal de gratido. - Voc deve dormir.
        - Eu j descansei o suficiente. E, de qualquer modo, a paciente  voc.
        De uma maneira quase automtica, ele encostou a mo na testa de Kate para verificar se havia febre. No mesmo instante, ela levantou a mo e colocou-a sobre 
a dele, percebendo que seus dedos se tornaram tensos no momento do toque.
        - Obrigada, Ky, por voc ter tomado to bem conta de mim.
        - Voc estava necessitando - ele respondeu sem olh-la. No podia permitir que Kate o excitasse naquela hora, no quando estavam justamente naquele quarto 
repleto de recordaes.
        - Voc no saiu do meu lado desde que fui atingida pela raia, no ?
        - Eu no tinha nenhum lugar para ir.
        A resposta dele fez Kate sorrir.
        - Voc se aborreceu comigo?
        - Voc no tem se cuidado direito.
        Ele dizia a si mesmo que deveria se afastar da cama de Kate e de tudo que pudesse faz-lo fraquejar. No entanto, permaneceu inclinado sobre Kate, com uma 
das mos presa pela dela. Ele queria segur-la at que no houvesse mais dor para nenhum dos dois, mas sabia que, se pressionasse seu corpo contra o dela naquela 
hora, no poderia parar, no resistiria  tentao. Tentou mover-se, puxando a mo. Mais uma vez Kate o impediu.
        - Eu teria morrido se voc no me trouxesse para a superfcie.
        -  por essa razo que  sempre bom mergulhar com um companheiro.
        - Eu ainda poderia ter morrido se voc no tivesse feito tudo o que fez.
        - O ferimento no foi assim to srio - ele disse, tentando no assust-la.
        - Eu nunca vi uma raia-lixa daquele tamanho.
        - No pense nisso agora. Tudo j acabou.
        "Estava tudo acabado mesmo?", ela se perguntou ao levantar a cabea e ver o brilho dos olhos de Ky. Durante quatro anos inteiros ela dissera a si mesma que 
existiam alegrias e dores que podiam ser superadas e esquecidas. Agora, no entanto, j no estava mais to certa. Mas necessitava dessa certeza. Mais do que qualquer 
outra coisa, ela precisava ter certeza de que era possvel esquecer aquele amor.
        - Abraa-me - ela murmurou.
        Estaria tentando deix-lo louco? Ky questionou-se. Ser que Kate estava querendo que ele derrubasse a barreira que ela havia erguido entre eles desde a sua 
chegada? Talvez ainda estivesse sob o efeito das drogas. Procurando manter a voz calma, ele comeou a dizer: -- De manh...
        - Eu no quero pensar no amanh - ela sussurrou. - Somente o agora me interessa. Quero que voc me abrace. - Antes que ele pudesse recusar, Kate colocou 
os braos ao redor de sua cintura e recostou a cabea em seu ombro.
        Ela sentiu a hesitao de Ky, mas percebeu que ele ainda procurava se conter. Suspirou como que aliviada por estar ali depois de tanto tempo. Era bom ter 
junto de si aquele corpo msculo e quente. Ky a fazia sentir coisas diferentes e maravilhosas. Ele era carinhoso, compreensivo e ao mesmo tempo arrogante; isso fazia 
com que fosse especial e imprevisvel.
        Kate estava to bela, seu corpo to suave e irresistvel sob o fino tecido da camisola. Ele podia sentir as mos quentes dela acariciando-lhe as costas, 
como que a esculpir desejos incontrolveis em seu corpo. Ser amado daquela forma o fazia feliz e eliminava todo o medo. As recordaes j no o incomodavam, e nada 
parecia impedir que a paixo voltasse, a explodir.
        Kate percebeu que aos poucos Ky ia se entregando, e sentia-se satisfeita por notar que ainda tinha o poder de seduzi-lo.
        -  maravilhoso estar aqui com voc... - ela murmurou, inclinando a cabea para trs.
        - Kate...
        - Eu nunca esperei que fosse experimentar esta sensao outra vez quando decidi voltar a Ocracoke - disse, interrompendo-o. - Acho que seria um erro no 
ter voltado...
        - Kate, voc no est bem - ele disse com medo de causar algum problema. - Voc perdeu bastante sangue depois do acidente. Alm disso, a febre alta deve 
ter consumido grande parte de suas energias. Seria melhor que tentasse dormir agora.
        Kate no estava com febre no momento. Sentia-se muito bem e cheia de desejo.
        - Aquele dia na praia, durante o temporal, voc disse que mais cedo ou mais tarde eu acabaria voltando para voc. - Subiu as mos pelas costas de Ky, at 
chegar aos ombros. - Mesmo naquela hora eu j sabia que um dia voltaramos a nos entregar um ao outro. Faa amor comigo, Ky, aqui, na mesma cama onde me amou pela 
primeira vez.
        E, pela ltima, ele se recordou, lutando contra a devastadora torrente de desejos que flua por todo o seu corpo.
        - Voc no est bem - ele repetiu.
        - Estou bem o suficiente para saber o que quero - Kate insistiu. Depois, com os lbios, roou o queixo msculo, cuja barba cerrada o tornava ainda mais sensual. 
- Bem o suficiente para saber o que preciso. Preciso de voc. - Aproximou-se ainda mais de Ky, acariciando-lhe o rosto.
        Talvez afastar-se dela fosse a coisa mais sensata a fazer. Mas algumas vezes no h lugar para sensatez.
        - Amanh voc poder se arrepender.
        Kate esboou aquele sorriso calmo e sereno que sempre o enternecera.
        - Pois ento vamos aproveitar esta noite.
        Ele no era mais capaz de resistir. Aquele calor... Aquela maciez... A necessidade, o desejo tomando corpo dentro dele, a vontade de am-la sem pensar que 
ela ainda estava doente. Recordou a primeira vez em que se haviam entregado um ao outro. Ele fora muito cuidadoso ento, tratando-a como a uma boneca de loua. Depois, 
percebeu que Kate podia amar da mesma forma que ele, de maneira ardente e selvagem. Lembrando-se disso, ele a abraou com fora.
        - Vamos aproveitar esta noite - ele concordou, e beijou-a.
        Doura, xtase, encantamento. Essas palavras ecoaram no crebro dele; essas sensaes percorreram-lhe o corpo da cabea aos ps, no momento em que se beijaram. 
Os dois estavam entregues, e o prazer crescia, sem que nenhuma barreira os impedisse de se amarem.
        Os dedos de Kate delineavam a face de Ky, como que numa tentativa de reconhec-lo depois de tanto tempo. Kate podia ouvir as batidas do prprio corao a 
acompanhar o crescimento de sua excitao. Murmurava palavras que soavam como doces carcias. Quando Kate sentiu-se no pice da paixo, Ky a beijou de uma forma 
muito especial, o que a fez delirar de prazer.
        Ky percebeu que tinha o domnio da situao e que aos poucos levaria Kate  loucura.
        Deslizou as mos sobre a camisola de Kate, sentindo o calor daquele corpo. Depois de desabotoar um a um todos os botes, ele abriu a camisola dela com a 
mesma expectativa de quem remove pela primeira vez a tampa de um tesouro de valor incalculvel.
        Ky jamais se esquecera de como aquela mulher era bela e do quanto sua delicadeza o excitava. Com uma suavidade que jamais demonstrara, ele baixou a cabea 
e acariciou com os lbios o corpo ardente de Kate, sentindo cada mnimo desejo que ela manifestava.
        Estava dando vida quela linda mulher. Ela sentia o sangue fervilhar em suas veias. O corao batia to forte dentro do peito que parecia ter permanecido 
congelado at aquele momento.
        Ela pde perceber o liso tecido da camisola escorregando-lhe do corpo, removendo a ltima barreira que ainda a separava do contato pleno com Ky. Ele conhecia 
cada ponto de seu corpo e sabia o que deveria fazer para provocar-lhe todo o tipo de prazer.
        Kate experimentou uma sbita sensao de liberdade no instante em que atingiram o auge de sua relao amorosa. Insacivel em seus desejos, ela corria as 
mos pelo corpo dele, pedindo, implorando que lhe desse mais. Sua boca era quente, esfomeada, e cobria-o de beijos no rosto, no pescoo.
        - Voc me deixa louco - ele murmurou.
        - Sim. - Sua voz era ofegante, no mais alta que um sussurro. - Sim...
        - Eu quero v-la estremecer, Kate - ele disse com voz branda, enquanto deslizava seu corpo sobre o dela. - Quero ver o que fazer amor comigo provoca em voc.
        Ela se arqueou e soltou um gemido de satisfao no momento em que ele a pressionou contra si com mais fora. Ky viu os olhos dela se semi-cerrarem, enquanto 
ele a conduzia em direo  fronteira entre a paixo e a loucura. Ele viu a cor voltar s suas faces; viu seus lbios tremerem na hora em que ela pronunciou seu 
nome.
        A excitao e o prazer perduraram durante todo o tempo em que permaneceram unidos, como um s corpo, desfrutando toda a beleza e a magia que o amor podia 
lhes proporcionar.
        Kate estava como que recomposta de sua enfermidade, nada mais a entristecia, nenhuma dor a incomodava.
        
        
        
       CAPTULO VIII
        
        
        
        Quando Ky acordou, foi imediatamente verificar se Kate dormia com tranqilidade. Satisfeito, constatou que a palidez havia desaparecido e, em seu lugar, 
surgira uma suave tonalidade rosada, devolvendo ao rosto dela um aspecto saudvel. A respirao estava normal, e a pele, fresca e seca, revelava que a febre no 
retornara.
        Tudo o que ela lhe dera na noite anterior, ele pensou, fora por sua livre e espontnea vontade, sem as marcas sombrias do passado, sem o gosto amargo do 
arrependimento. Agora, tendo ainda na boca o doce gosto daquele fruto saboroso, estava decidido a no mais deix-la partir. Desta vez, tudo seria diferente.
        A rudeza, a arrogncia, a inexperincia, ou talvez uma combinao das trs coisas, haviam sido a causa de ela t-lo abandonado h quatro anos. Mas ele podia 
tirar proveito das experincias do passado, no repetindo os mesmos erros e conquistando-a para sempre. Pensaria bem em tudo antes de agir, a fim de no correr o 
risco de ser outra vez abandonado.
        Levantou-se, colocou uma roupa e saiu do quarto, tomando cuidado para no acord-la.
        Pouco tempo depois, Kate despertou. Animada com as lembranas da noite anterior, que surgiam em sua mente como se fosse parte de um sonho bom, abriu os olhos, 
embora preferisse no voltar  realidade. De repente, uma inesperada pontada no tornozelo. Como podia haver dor quando tudo parecia to perfeito? Com um suspiro, 
virou-se para o lado e encontrou a outra cama vazia.
        O sono que ainda restava desapareceu por completo. Com grande esforo, conseguiu sentar-se na cama, sentindo-se um tanto atordoada.
        Um pouco confusa, chegou a pensar que tudo aquilo no tivesse passado de um delrio provocado pelo efeito dos medicamentos que ingerira.
        Ela necessitava de Ky, e isso no fora sonho. Mesmo agora tinha uma estranha sensao de frio no estmago devido ao desesperado desejo de t-lo. Sabia que 
Ky tambm continuava apaixonado por ela. Mas a cama vazia ao seu lado confundia seus pensamentos.
        A felicidade que sentira ao acordar desvaneceu-se por completo. Kate sentiu-se obrigada a retornar  realidade. Quis chorar, mas descobriu que no tinha 
energia nem para derramar lgrimas.
        - Ento voc j est acordada!
        A voz grave de Ky, quebrando o silncio, a fez virar a cabea num gesto rpido e involuntrio. Seus nervos retesaram-se. Ele entrou no quarto carregando 
uma bandeja nas mos e tinha um sorriso nos lbios.
        - Isso me poupa o trabalho de ter de acord-la. Est na hora de sua alimentao. - Antes de se aproximar da cama, foi at as janelas e abriu as venezianas. 
A luz do sol penetrou, iluminando o quarto, acompanhada por uma calma brisa que agitava os lenis de leve, lembrando pequenas ondas a romper a monotonia de um mar 
sereno. - Como passou a noite?
        - Bem - respondeu Kate, um tanto sem graa. Ento, cruzou os dedos e permaneceu sentada, imvel. - Eu quero lhe agradecer por tudo que tem feito por mim.
        - Voc j me agradeceu uma vez. No era necessrio e continua no sendo. - Preocupado com o tom debilitado da voz de Kate, ele parou junto da cama e deu 
uma longa e cuidadosa olhada em seu rosto. - Voc est sentindo dor, no est?
        - Um pouco.
        - Desta vez voc vai tomar umas das plulas. - Depois de colocar a bandeja no colo de Kate, ele foi at a penteadeira e apanhou um pequeno vidro. - E no 
adianta reclamar - concluiu com voz firme.
        - Ky, no  nada srio, eu sei. - Ela nem se lembrava de ele lhe ter oferecido uma plula antes. O esforo para lembrar disso trouxe-lhe somente mais frustrao. 
- Por favor, no se incomode.
        - Eu no me incomodaria com a dor... - ele comeou, enquanto se sentava na cama e colocava o remdio na palma da mo dela - se no fosse voc que a estivesse 
sentindo.
        Kate experimentou uma sensao de conforto e orgulho naquele instante, to bom era o que sentia que evitou qualquer movimento, temendo perturbar aquela serenidade.
        - Eu no estava sonhando, estava? - perguntou num sussurro.
        - Quando?
        - Na noite passada. Quando acordei, tive medo de que tudo tivesse sido apenas um sonho.
        Ele sorriu e, aproximando-se de Kate, beijou-a nos lbios.
        - Se foi, ento eu tive o mesmo sonho. - Ky tinha uma expresso alegre nos olhos. - Foi maravilhoso.
        - Ento no importa se tudo no passou de um sonho.
        - Oh, no, eu prefiro a realidade.
        Rindo, Kate se preparou para atirar a plula de volta na bandeja, mas ele a impediu.
        - Ky...
        - Voc est com dor - ele repetiu. - Posso ver isso em seus olhos. O efeito dos remdios que voc tomou j passou h horas, Kate.
        - E deixaram-me inconsciente por um dia inteiro.
        - Mas este  fraco e vai apenas aliviar a dor mais aguda. Oua - apertou firme as mos dela - doeu-me muito v-la naquela agonia toda.
        - Ky, no, por favor...
        - Nada disso, mocinha. Se no quer faz-lo por voc mesma, faa-o por mim. Fui eu que a vi sangrando no barco, depois perdendo e recobrando a conscincia 
tantas vezes... - Ky afagou-lhe os cabelos com ternura, e depois, colocando a mo no queixo dela, fez com que Kate o encarasse. - Voc no pode imaginar o quanto 
sofri, sabendo que estava to mal. No sou capaz de v-la triste, ou sofrendo. Colabore.
        Em silncio, Kate pegou a plula, colocou-a na boca e a engoliu com a ajuda de um pouco de suco que ele havia trazido.
        -  pouca coisa mais forte que uma aspirina - Ky explicou. - O Dr. Bailey disse que lhe daria algo mais forte se fosse necessrio, mas ele preferia que voc 
pudesse se agentar com isto apenas.
        - Eu tenho certeza de que resolver. A dor do ferimento no  to grande quanto o desconforto que ele me causa. - Kate no estava sendo sincera, e Ky sabia 
disso; no entanto, naquele momento, nenhum deles estava disposto a iniciar uma discusso. Ambos tentavam analisar e medir as conseqncias de suas palavras mesmo 
antes de pronunci-las, temerosos de estragar aquilo que poderia ter comeado a florescer outra vez.
        - O Dr. Bailey disse quando eu poderia voltar a mergulhar?
        - Mergulhar?! - Ky ergueu as sobrancelhas em sinal de espanto, enquanto retirava a tampa que cobria o prato com ovos, bacon e torradas. - Kate, voc no 
vai sequer pr os ps fora desta cama pelo resto da semana.
        - O que voc est dizendo? Uma semana? - ela perguntou, irritada, como quem estivesse ouvindo o maior absurdo do mundo. - Ky, eu fui picada por uma raia-lixa, 
no atacada por um tubaro.
        - Voc foi picada por uma raia-lixa - ele concordou. - E seu organismo estava to debilitado que o Dr. Bailey quase teve de mand-la direto a um hospital. 
Eu entendo que as coisas no devem ter sido fceis para voc desde que seu pai morreu, mas no resolveu nada voc ter relegado a segundo plano sua prpria sade.
        Pela primeira vez ele mencionava a morte de seu pai, e Kate no conseguiu encontrar o menor vestgio de solidariedade em suas palavras.
        - Os mdicos costumam exagerar - ela comeou, mas foi interrompida,
        - No o Dr. Bailey. - A raiva retornou sem que ele conseguisse evitar. - Ele  um bode velho, descrente e teimoso, mas entende de sua profisso e me disse 
que voc estava caminhando para uma estafa; que sua resistncia estava a zero e que seu peso devia estar uns cinco quilos abaixo do normal. Ns vamos dar um jeito 
nisso, professora - afirmou, pegando o garfo do prato. - comeando agora mesmo.
        Kate olhou para a comida no prato. Quatro grandes ovos estrelados, seis fatias de bacon e quatro pedaos de torrada.
        - Eu estou vendo que voc pretende...
        - No quero v-la doente - ele a interrompeu, enquanto segurava-lhe a mo com firmeza. - E vou cuidar da senhorita, quer goste ou no.
        Ela voltou a encar-lo com aquele seu tpico jeito calmo e pensativo.
        - No sei se gosto ou no, mas acho que ambos vamos logo descobrir alguma coisa no meio disso tudo.
        Com o garfo, Ky comeou a preparar o primeiro bocado. Os lbios dela esboaram um leve sorriso. Jamais fora mimada antes e no pretendia comear agora, depois 
de adulta.
        - Est bem - disse, conformada. - Mas desta vez eu mesma me alimento.
        Kate sabia de antemo que no seria capaz de esvaziar o prato, mas, por amor a ele e tentando preservar o ambiente de paz, decidiu comer pelo menos a metade. 
Essa fora a estratgia de Ky. Se tivesse trazido uma poro menor, ainda assim ela teria se servido apenas da metade, e estaria comendo menos. Ele a conhecia melhor 
do que imaginava.
        - Voc continua sendo um excelente cozinheiro - comentou, saboreando um pedao de bacon. - Muito melhor do que eu.
        - Se voc for boazinha, eu talvez prepare um suculento assado de solha para esta noite.
        - Que timo! - Kate exclamou satisfeita, lembrando-se da perfeio com que ele costumava aprontar seus pratos  base de peixe.
        - Quem sabe eu traga tambm alguns doces de chocolate do "Paraso".
        - Meus Deus! Nesse caso eu terei de me esforar para mostrar um bom comportamento.
        - Essa  a idia.
        - Ky... Sobre ontem a noite, o que aconteceu...
        - Nunca deveria ter terminado - ele concluiu.
        - No estou to certa. - Havia calma e sinceridade em seu olhar.
        - Pois eu estou - ele contestou, beijando-a com suavidade. Foi um beijo quase inocente, que pouco tinha a ver com os beijos apaixonados da noite anterior, 
mas que prometia muito. - Mas deixe estar por enquanto, Kate. Se as coisas entre ns tiverem de se complicar, ento pelo menos vamos esperar at que outros pequenos 
problemas estejam solucionados, est bem?
        Complicar. Por que para ele pensar com seriedade no futuro parecia to difcil? Kate baixou os olhos para o prato, sabendo que no dispunha de foras para 
fazer perguntas nem para dar respostas.
        - De certa forma eu me sinto como se estivesse recuando em minha vida, para aquele vero de quatro anos atrs. Entretanto...
        - , na verdade, um passo  frente.
        Ela tornou a fit-lo. Desta vez acariciou-lhe a face spera com os dedos delicados. Ele sempre a compreendera. Apesar de falar pouco, apesar de seu jeito 
de ser por vezes rude, Ky sempre a compreendera bem.
        - Sim. Mas, seja como for, assusta um pouco.
        - Eu nunca gostei de guas tranqilas. Algumas ondas tornam o passeio mais gostoso e excitante.
        - Talvez - ela concordou sem muita convico. - Um passo atrs, um passo  frente, pouco importava. De uma forma ou de outra, caminhava em direo ao amor.
        - Ky, eu no consigo comer mais.
        - Eu percebi - ele apanhou outro garfo na bandeja e comeou a comer os ovos j frios. - No tem importncia. Talvez voc tenha comido mais do que seu desjejum 
de uma semana inteira.
        - Acho que sim - ela concordou num sussurro, dando-se conta da astcia com que ele a manobrava. Ento, recostou o corpo na pilha de travesseiros, aborrecida 
por estar sentindo-se sonolenta. Nada mais de remdios, ela decidiu calada, enquanto Ky terminava de esvaziar o prato. Se pudesse evitar pegar no sono e sair para 
tomar um pouco de ar fresco, tinha certeza de que se sentiria melhor. O problema seria convencer Ky.
        Kate olhou em direo  janela e viu como o dia estava claro e bonito.
        - Eu no quero adiar por uma semana a busca do "Liberty".
        Ky no precisou acompanhar a direo do olhar dela para entender seus pensamentos. Ela queria estar no meio do oceano com o vento acariciando-lhe o rosto.
        - Eu vou prosseguir a busca. Amanh... ou depois de amanh. - Talvez antes, pensou consigo mesmo, dependendo de como se processasse a recuperao de Kate 
dali em diante.
        - Sozinho?
        - Eu j mergulhei sozinho antes - disse, aps ter percebido o tom de preocupao na voz dela.
        Kate teria protestado, recordando a Ky dos perigos que tal prtica envolve, se achasse que adiantaria alguma coisa. Ento decidiu tentar outra estratgia, 
mas sabia que no entrariam num acordo.
        - Ns estamos procurando pelo "Liberty" juntos, Ky. Isso no  trabalho para apenas uma pessoa.
        Ele lhe lanou um olhar matreiro antes de pegar a xcara de caf, na qual ela sequer havia tocado.
        - Com medo que eu desaparea com o tesouro?
        -  claro que no - Kate respondeu com voz calma, no deixando que as emoes interferissem. - Se no confiasse em sua integridade, no lhe teria mostrado 
os grficos e demais documentos.
        - Parece razovel - ele concordou com um gesto de cabea. - Ento, se eu continuar no trabalho enquanto voc est se recuperando, ns no perderemos tempo.
        - Eu tambm tenho medo de perd-lo. - Praguejando baixinho, ela desviou os olhos para a janela. O cu tinha uma cor azul desbotada, comum em algumas manhs 
de vero. No gostava da idia de ficar ali deitada enquanto ele fazia o trabalho pelos dois.
        Ky sentou-se por um momento, permitindo que a melodia daquelas palavras penetrasse-lhe o esprito.
        - Voc ficaria preocupada comigo?
        Nervosa, Kate virou-se, notando que ele parecia muito convencido e contente com o fato de ela ter demonstrado seu medo de perd-lo.
        - No, eu no ficaria preocupada. Deus zela com especial carinho pelas pessoas de cabea fraca como voc.
        Sorrindo, ele colocou a bandeja no cho, ao lado da cama.
        - Eu talvez gostasse se voc se preocupasse um pouco.
        - Lamento no poder agrad-lo.
        - Voc tem um jeito todo especial e presunoso de falar quando est zangada - ele comentou. - Eu gosto disso.
        - Eu no sou presunosa.
        Kate deslizou a mo pelos seus cabelos soltos. No, ela podia parecer qualquer coisa no momento, menos presunosa.
        - Sua voz parece.
        No, Ky no iria persuadi-la usando o charme.
        - Talvez ento eu devesse gritar - ela disse, ao mesmo tempo em que afastava a mo dos cabelos.
        - Eu gosto disso tambm, mas, acima de tudo - ele beijou-lhe o rosto de um lado, depois do outro -, gosto de ver voc sorrir para mim. Daquele jeito especial 
que apenas eu conheo.
        Kate estava comeando a sentir o corpo esquentar. No, ele no conseguiria acabar com aquela conversa assim to fcil, com um simples toque de carinho.
        - Eu me sinto entediada,  s. Se tiver de permanecer sentada aqui por muito tempo ainda, sem nada para fazer, isso s vai me angustiar ainda mais.
        - Eu tenho dezenas de livros. - Ky segurou a parte superior da camisola de Kate e a fez deslizar at abaixo dos ombros. Ento, com o mais leve dos toques, 
beijou-lhe a pele nua, alva e macia. - Devo ter tambm algumas revistas de palavras cruzadas, se preferir.
        - Muitssimo obrigada.
        - H um livro de poemas de Byron, entre outros. Kate voltou a encar-lo, apesar de haver, decidido que no o faria.
        - Byron?
        - Sim. Eu o comprei depois que voc partiu. As palavras usadas nas composies so lindas. - Ao terminar a frase, Ky j havia desatado os trs botes da 
camisola. - Enquanto as lia, ficava imaginando como seriam, se fossem pronunciadas por seus lbios. Lembro-me de uma noite na praia, quando a lua cheia aparecia 
refletida na superfcie da gua. No tenho certeza quanto ao nome do poema, mas lembro-me de como comeava e de como soava, quando declamado por voc: " chegada 
a hora" - ele comeou...
        - " chegada a hora" - Kate prosseguiu - "em que, dos ramos das rvores, o canto do rouxinol  ouvido.  chegada a hora em que as juras de amor dos namorados 
parecem mais doces em cada palavra sussurrada. E os ventos que sopram gentis e as guas que correm tranqilas entoam bela melodia para os ouvidos solitrios"... 
- Por um curto perodo de tempo, Kate deixou que sua mente mergulhasse em recordaes do passado, daquela noite em particular. - Voc nunca se interessou muito pela 
tcnica de Byron.
        - Apesar do sacrifcio que voc fazia para explic-la a mim.
        Sim, ele conseguira mudar o rumo da conversa. Kate j estava encontrando dificuldade para se lembrar do assunto principal de quando haviam comeado a falar.
        - Ele foi um dos lderes de seu tempo no campo da poesia.
        - Hum... - Ky inclinou-se e deu uma suave mordida na orelha de Kate, brincando com ela.
        - Ele sentia fascinao por guerras e conflitos, no entanto havia mais casos de amor retratados em sua obra do que em Shelley ou Keats.
        - E em sua vida real, fora dos poemas?
        - Tambm - respondeu ela, fechando os olhos no momento em que comeava a ser tocada de uma maneira que lhe abalava os nervos. - Byron costumava usar humor 
e stira. Tinha um estilo lrico. Pena que no tenha concludo o "Don-Juan..." - Mais uma vez, deixou-se invadir por lembranas do passado. O suspiro que acompanhou 
esse breve momento transformou-se aos poucos num gemido de prazer.
        - Eu a interrompi? - Ky perguntou, enquanto deslizava os dedos pela coxa de Kate. - Adoro ouvi-la dissertar sobre o assunto, e imaginei que isso, poderia 
mant-la entretida por alguns instantes... - Correu a mo pelo quadril dela, subindo at tocar-lhe o seio - ...para que no se sinta entediada nessa cama. Quer me 
contar mais a respeito de Byron? Com um longo suspiro, Kate lanou os braos ao redor do pescoo de Ky. A razo principal da conversa parecia ter desaparecido.
        - No, mas eu talvez goste de permanecer aqui na cama, afinal de contas, mesmo sem as palavras cruzadas.
        - Voc vai relaxar agora, querida - ele falou. Sua voz era branda, mas o tom de autoridade era inegvel. Kate poderia ter discutido naquele momento, no 
fosse o intenso e demorado beijo que veio em seguida  ordem, deixando-a tonta de prazer.
        - Eu fico sem opo entre a medicao e voc - ela murmurou. - Ambos parecem exercer o mesmo efeito sobre mim.
        - Essa  a idia. -  claro, que faria amor com ela, Ky pensou. Mas de uma forma to gentil que Kate no teria mais nada a fazer seno se colocar em suas 
mos e sentir toda a delicadeza com que ele era capaz de amar. Em seguida dormiria despreocupada.
        - H coisas que desejo de voc, Kate - ele disse num sussurro, levantando a cabea at que seus olhos encontrassem os dela. - Coisas de que preciso muito.
        - Voc nunca me diz quais so.
        - Talvez no. - Ele encostou a testa sobre a dela. Era provvel que no soubesse como lhe dizer, ou como lhe pedir. - Por enquanto, o que quero  v-la bem. 
- Ergueu a cabea de Kate e a encarou. - No sou um homem caridoso; se desejo a sua recuperao no  apenas por voc, mas por mim mesmo. Sempre pretendi t-la de 
volta em minha cama, em minha vida, mas para satisfazer os meus prprios desejos.
        - Seja l o que for que voc pretendeu ou desejou, sou eu que fao minhas escolhas. - As mos dela subiram dos ombros para o rosto de Ky. - Naquela hora, 
eu escolhi fazer amor com voc. E quero repetir a dose agora.
        Ele riu satisfeito diante da resposta ousada.
        - Professora, voc acha que eu lhe teria dado a chance de uma escolha? Talvez no nos conheamos um ao outro to bem quanto deveramos a esta altura dos 
acontecimentos, mas achei que voc me conhecesse pelo menos um pouco.
        Ela roou o polegar contra a pele de seu rosto msculo. De alguma forma, a aspereza parecia combinar com o tipo dele. Kate achava que um se adequava ao outro 
de maneira perfeita.
        - Quando tomamos alguma coisa que no nos  oferecida de livre e espontnea vontade, na verdade, no temos nada. Mas, se eu decido fazer amor com voc, lhe 
darei tudo, sem que precise pedir.
        - Verdade? - ele murmurou antes de tocar os lbios dela com os seus. - E voc, o que ganha nisso?
        - Aquilo de que tambm necessito - ela respondeu depois de fechar os olhos e recostar-se.
        Por quanto tempo? A pergunta ecoou na mente de Ky, torturando-o, ameaando pr um fim a todo o seu estado de alegria. Mas ele no perguntou nada. Haveria 
uma hora oportuna para essa e outras perguntas mais. No momento Kate estava sonolenta, relaxada como ele queria.
        Em silncio, continuou a acarici-la, de uma maneira que Kate pudesse desfrutar de todo o prazer que ele estava lhe proporcionando. De nenhuma outra mulher 
Ky se lembrava de ter recebido tanto depois de pedir to pouco. Kate era como uma chave capaz de, ao menor toque, abrir uma porta e dar vazo aos sentimentos mais 
profundos de seu corao.
        O modo especial com que ele a provocava no havia mudado, Kate pensou. Ainda que se tivessem passado quarenta anos, em vez de quatro, ela reconheceria aquele 
toque mesmo de olhos fechados. E isso era suficiente para que se entregasse.
        Ela ainda se lembrava do ardor, da paixo louca que experimentara em todas as vezes que se amaram. Agora havia suavidade misturada a um respeito do qual 
ela no o julgava capaz. Se j no o amasse, poderia se apaixonar por ele naquele instante, com os raios de sol penetrando pelas janelas enquanto as mos dele deslizavam 
sobre sua pele.
        Embora uma chama ardesse oculta dentro de seu peito, Ky conservava-se calmo. Mesmo com uma paixo feroz ameaando seu autocontrole, ainda assim ele permanecia 
sereno. Ento, com tranqilidade e carinho, Ky penetrou o corpo de Kate. Ele tinha impresso de que seu desejo por Kate nunca seria suficientemente satisfeito.
        Depois ela dormiu, e Ky a deixou livre para sonhar.
        Quando Kate acordou j eram quase trs horas da tarde. Sentia-se um pouco fraca e, olhando pela janela, desejou sair daquela cama o mais rpido possvel. 
L fora uma aventura a esperava e teria que recuperar-se logo para prossegui-la.
        Como Ky no estivesse ali, resolveu levantar-se e procur-lo.
        Apanhou a camisola e a vestiu. Se fosse como das vezes anteriores, em poucos segundos ele apareceria na porta carregando uma bandeja repleta de comida e 
uma plula. No desta vez, ela decidiu, enquanto tentava pr-se para fora da cama. Nada mais de drogas que a fizessem ausentar-se da realidade.
        Mas, ao colocar-se de p, sentiu-se atordoada, talvez Pelo efeito do medicamento, que ainda no havia passado por completo. Enfurecida, respirou fundo e 
colocou todo o peso do corpo em cima do p machucado. A dor a princpio foi violenta, mas ajudou-a a despertar e a clarear as idias. Ento, com esforo, caminhou 
at o espelho que havia sobre a penteadeira de Ky.
        No gostou nem um pouco do que viu. Os cabelos despenteados, o rosto plido e cansado, os olhos vidrados. Irritada, esfregou as mos nas bochechas, como 
se com isso pudesse faz-las readquirir a cor. Pensou em tomar um bom banho quente para reanimar-se e depois sair para respirar um pouco de ar fresco. E, mesmo que 
esta atitude desagradasse Ky, no importava. Tinha de sentir-se ativa, ou entraria em pnico consigo mesma. Quando abriu a porta, foi surpreendida por Linda.
        - O que est fazendo de p?
        Essas eram as palavras que ela esperava ouvir da boca de Ky, mas no de Linda.
        - Eu estava apenas...
        - Voc est querendo que Ky me esfole viva? - perguntou Linda, ao mesmo tempo em que forava Kate a retornar  cama. - Oua, as ordens so para que voc 
coma e descanse, nada alm disso.
        - Ordens de quem?
        - De Ky. E - ela continuou antes que Kate pudesse retorquir - do Dr. Bailey.
        - Eu no sou obrigada a obedecer s ordens de nenhum deles.
        - Talvez no seja - Linda disse. - Mas eu no gosto de discutir com um homem que est tentando proteger a mulher que ama, ou com o homem que me espetou uma 
agulha no traseiro quando eu tinha trs anos. Ambos podem se tornar muito grosseiros. Agora deite-se.
        - Linda... - ela comeou, interrompendo a frase com um longo suspiro. - Eu tenho apenas um corte na perna, e estou na cama h quase quarenta e oito horas. 
Se no tomar um banho e sair para respirar um pouco, vou ficar louca.
        Um leve sorriso insistiu em aparecer no rosto de Linda, mas ela o disfarou prendendo o lbio inferior entre os dentes.
        - Voc est um pouquinho rabugenta, hein?
        - E posso me tornar muito mais. Olhe para mim - Kate falou aborrecida, puxando os prprios cabelos com a mo. - Eu me sinto como se tivesse permanecido soterrada 
por dias!
        - Est bem. Eu sei como me senti logo aps o nascimento de Hope. Depois de t-la em meus braos e acarici-la por uns bons minutos, no houve nada que eu 
desejasse mais do que um longo e revigorante banho. Voc pode ficar dez minutos no chuveiro - Linda disse, ao mesmo tempo em que colocava a bandeja na mesinha ao 
lado da cama. - Ento poder almoar enquanto eu troco a atadura. Mas Ky me fez prometer que voc comeria at o ltimo bocado, est bem?
        - Ele est exagerando - Kate comeou. -  um absurdo. Eu no preciso ser tratada dessa maneira, como se fosse uma criana.
        - Est muito bem, chega de conversa. Agora vamos, eu vou lhe dar uma mozinha.
        - Ora, deixe disso. Sou capaz de tomar um banho sozinha, sem a ajuda de ningum. - Ignorando a dor na perna, ela saiu nervosa do quarto, batendo a porta. 
Linda sentiu uma enorme vontade de rir, mas conteve-se e sentou-se na cama para esper-la.
        Quinze minutos mais tarde, reanimada e envergonhada de si mesma, Kate retornou ao quarto. Estava vestindo o roupo de Ky e tinha uma toalha enrolada nos 
cabelos.
        - Linda...
        - No se desculpe. Se eu tivesse ficado presa numa cama por dois dias como voc, tambm espumaria contra a primeira pessoa que viesse me trazer problemas. 
Alm disso, se est mesmo arrependida, tomar toda a sopa, para que Ky no se zangue comigo.
        - Est certo. - Resignada, sentou-se na cama e colocou a bandeja no colo. Junto com a primeira colherada de sopa, foi obrigada a engolir tambm o desejo 
que sentiu de protestar ao ver a amiga retirando-lhe a atadura do tornozelo. - Est tima.
        - Sopa feita com frutos do mar  uma de nossas especialidades. Meu Deus, Kate! - Os olhos de Linda assumiram um ar de preocupao no momento em que removeu 
a gaze. - Isto deve ter dodo demais! No me admira que Ky tenha andado to nervoso.
        Reunindo coragem, Kate inclinou o corpo para frente, a fim de observar o ferimento. No havia inflamao nem inchao, como ela temera. Embora sendo um corte 
grande, de quase seis centmetros de comprometimento, estava bem limpo.
        - No est to ruim - ela murmurou. - No h sinal de infeco.
        - Pois olhe, eu uma vez fui atacada por uma raia-lixa pequena. O corte no devia ter mais do que dois centmetros e eu chorei como um beb. Por isso no 
me diga que no  to ruim.
        - Bem, eu dormi quase todo o tempo. - Kate retraiu os msculos, sentindo uma pequena dor, mas logo relaxou.
        Linda franziu as sobrancelhas enquanto estudava a expresso no rosto de Kate.
        - Ky disse que voc deveria tomar uma plula caso surgisse dor quando acordasse.
        - Se voc quer me fazer um favor, pegue as plulas e jogue-as no lixo. - Tomou outra colherada de sopa. - Eu detesto discutir com ele, ou com voc, mas no 
vou voltar a tomar essas plulas nem perder mais tempo. Eu aprecio o fato de Ky estar querendo mimar-me como a uma criana. Isso prova o quo amvel e gentil ele 
pode ser. Mas j suportei tudo que podia.
        - Ele est preocupado com voc. Sente-se responsvel.
        - Por minha imprudncia? - Sacudindo a cabea, Kate ps-se a tomar o resto de sopa que ainda havia no prato. - Foi um acidente, e, se existiu um culpado, 
esse algum fui eu mesma. Estava to concentrada na procura do "Liberty" que me esqueci dos cuidados bsicos. Eu fui de encontro  raia. Ky agiu com enorme rapidez 
puxando-me para longe dela. No fosse isso, as coisas poderiam ter sido muito mais srias.
        - Ele a ama.
        Kate, ao ouvir isso, apertou com fora o cabo da colher.
        - Linda, existe uma enorme diferena entre preocupao, atrao e amor.
        Linda concordou com um simples gesto de cabea.
        - Sim. Eu disse e repito: Ky a ama.
        Com um sorriso nos lbios, Kate apanhou a xcara de ch que fora colocada ao lado da sopa e respondeu.
        -  voc quem est dizendo, no ele.
        - Bem, nem Marsh o havia feito at o momento em que eu, desesperada, cheguei ao ponto de querer estrangul-lo. Mas isso no me fez desistir.
        - Eu no sou voc. - Kate recostou-se nos travesseiros, satisfeita porque a maior parte da fraqueza que estava sentindo havia passado. - E Ky no  Marsh.
        Impaciente, Linda levantou-se e comeou a andar pelo quarto de um lado para outro.
        - Certas pessoas insistem em complicar as coisas mais simples, e isso me deixa maluca!
        Sorrindo, Kate sorveu um gole do ch.
        - Outras apenas simplificam o que parece complicado.
        Com um movimento brusco, Linda virou-se, irritada.
        - Eu conheo Ky desde que nasci. E o vi namorar com todas as garotas bonitinhas da ilha e, mais tarde, com tantas mulheres atraentes que at perdi a conta. 
Mas eram todos romances passageiros, sem importncia. At que voc chegou. Foi como se algum lhe tivesse acertado a cabea com uma pedra. Voc o deixou atordoado 
desde o primeiro minuto. Ele ficou fascinado por voc, ser que no percebe?
        - Atordoado, fascinado. - Kate deu de ombros, enquanto tentava ignorar a dor que lhe apertava o corao. - Muito lisonjeiro, suponho, mas nenhuma dessas 
duas coisas significa amor.
        - Eu no acredito que o amor surja de um momento para outro.  algo que vai tomando corpo dentro da gente com o tempo. Se tivesse visto como ele ficou depois 
que voc partiu h quatro anos, saberia que...
        - No me fale sobre quatro anos atrs - Kate a interrompeu. - O que aconteceu naquela poca est terminado. Ky e eu somos duas pessoas diferentes agora, 
cada qual com seus objetivos. Desta vez... - ela parou e respirou fundo. - Desta vez, quando terminar, eu no sairei magoada, porque agora sei at onde posso chegar.
        - Voc mal acaba de pr os ps aqui e j est falando em terminar, em limites. - Ajeitando os prprios cabelos com as mos, Linda aproximou-se e sentou-se 
na beirada da cama. - O que h de errado com voc? Ser que no  mais capaz de amar? De sonhar?
        - Eu nunca fui muito boa nessas coisas. Linda... - Ela hesitou por alguns instantes, tentando escolher melhor as palavras. - Eu no quero esperar de Ky nada 
mais do que ele  capaz de me dar. Depois de agosto, vamos nos separar e voltar cada um para o seu prprio mundo, pois entre a minha vida e a dele no h qualquer 
semelhana. Quando partir, quero ter nele um amigo. Ele... - Kate hesitou. - Ele sempre foi uma parte muito importante de minha vida.
        Linda permaneceu um momento calada. Ento falou:
        - Essa  a coisa mais estpida que j ouvi.
        Kate no conseguiu conter o riso.
        - Linda...
        Erguendo as mos e sacudindo a cabea num gesto de reprovao, Linda no permitiu que a amiga continuasse.
        - No, vamos mudar de assunto. Esta conversa est me pondo nervosa, e isso no  muito aconselhvel, visto que tenho de cuidar de voc. - Sem conseguir esconder 
o aborrecimento, ela apanhou a bandeja. - No entendo como algum to inteligente pode ao mesmo tempo ser to tola, mas, quanto mais penso nisso, mais conveno de 
que voc e Ky se merecem um ao outro.
        - Isso soa mais como um insulto do que como um cumprimento.
        - Pois foi.
        Kate precisou morder o lbio para no sorrir.
        - Eu compreendo.
        - No fique to convencida por ter me deixado aborrecida a ponto de no querer mais conversar sobre isso. Eu talvez ainda diga a Ky tudo o que penso no momento 
em que ele chegar aqui.
        - Isso  problema dele - Kate falou sorrindo. - Aonde  que ele foi?
        - Mergulhar.
        A expresso de alegria em seu rosto se extinguiu.
        - Sozinho?
        - No h necessidade de se preocupar - Linda disse enquanto praguejava contra si mesma por no ter pensado numa simples e inofensiva mentira. - Ele mergulha 
sozinho noventa por cento das vezes.
        - Eu sei. - Apesar disso, Kate cruzou os dedos, certa de que se sentiria muito angustiada enquanto ele no chegasse.
        
        
        
       CAPTULO IX
        
        
        
        No outro dia, Kate acordou bem disposta e arrumou-se para ir com Ky procurar o "Liberty".
        - Eu vou com voc.
        O sol j estava brilhando e uma suave brisa inundava o ambiente com o aroma puro e suave do mar. Atravs da porta de tela, podia-se ouvir com clareza o canto 
das gaivotas que voavam prximo dali.
        Ky virou-se do fogo, onde havia colocado um pouco de caf para esquentar, e deu de cara com Kate parada junto  porta.
        Ela havia prendido os cabelos e vestia uma cala de algodo fina e uma camisa, ambas muito largas. Ocorreu a Ky que ela, trajada daquele jeito, se parecia 
mais com uma colegial do que com uma professora universitria.
        Conhecendo bem as mulheres e suas vaidades, percebeu de imediato que Kate estava usando um pouco de maquilagem para dar um tom rosado s suas faces. Ky sorriu 
enquanto colocava o caf na xcara.
        - Voc perdeu tempo -toa se trocando - ele disse com voz calma. - Vai voltar direto para a cama.
        Kate no gostava de pessoas inflexveis, que sentem prazer em dar ordens sem se incomodar com a opinio dos outros. Naquele momento, decidiu que deveria 
combater fogo com fogo.
        - No - respondeu sem se alterar. - Eu vou com voc.
        Ky no costumava pensar duas vezes antes de se entregar a uma boa discusso. Preparando-se para uma, ele se encostou no fogo.
        - Eu jamais levo um mergulhador comigo para o mar contrariando ordens mdicas.
        Ela j esperava por isso. Dando de ombros, abriu a porta do refrigerador e retirou uma garrafa de suco. Sabia que estava teimosa e, embora essa no fosse 
uma de suas caractersticas, at que apreciou muito a experincia. A verdade  que precisava de algo para fazer ou acabaria enlouquecendo. Nunca ficara confinada 
numa casa por mais de dois dias. Tinha de se movimentar, caminhar, sentir a brisa no oceano e o calor do sol.
        - Eu posso alugar um barco, equipamento, e ir sozinha - ela disse em tom de desafio. - Voc no pode impedir-me.
        - Tente.
        A palavra foi pronunciada em voz baixa, calma, mas Kate pde ver a chama de clera nos olhos dele.
        - Eu tenho o direito de fazer as coisas da forma que achar melhor. Ns dois sabemos disso. - Talvez ainda tivesse algum desconforto na perna, devido ao ferimento, 
mas sentia-se forte e pronta para entrar em ao. Tambm no havia nada de errado com sua mente ou sua capacidade de raciocinar. Kate planejara sua estratgia muito 
bem. Afinal de contas, o tempo que ficara na cama fora mais do que suficiente para isso.
        - O que ns dois sabemos  que voc no est em condies de mergulhar. E voc no  estpida, Kate. Sabe muito bem que no est em forma para descer l 
por enquanto, e sabe tambm que no a deixarei fazer tal coisa.
        - Eu mantive repouso absoluto durante dois dias. Sinto-me tima. - Enquanto atravessava a cozinha na direo dele, Kate, satisfeita, o viu franzir as sobrancelhas 
em sinal de admirao. Ky sabia que ela era capaz de tomar suas prprias decises e que esse era um problema que teria de ser enfrentado. A verdade  que Kate era 
mais forte do que ele havia imaginado. - Muito bem, senhor, estou disposta a deixar o mergulho por sua conta pelos prximos dois ou trs dias, mas... - ela fez uma 
breve pausa, querendo se certificar de que ele entendia bem que estava somente negociando e no cedendo diante de sua autoridade - quero ir a bordo do "Tufo" com 
voc. Esta manh mesmo.
        Ky semicerrou os olhos no instante em que percebeu a estratgia armada por Kate. Ela no pretendia mergulhar, apenas usara isso como uma forma de pression-lo 
para conseguir o que queria. No podia censur-la. Lembrava-se de uma ocasio, quando tinha quatorze anos, e estava na cama recuperando-se de uma perna fraturada. 
A dor que sentira j lhe escapava da memria. Mas o tdio por que passara continuava vivo como nunca.
        - Voc ir se deitar na cabine como uma boa menina assim que eu lhe disser. Est bem?
        Kate sorriu e negou com um gesto de cabea.
        - Eu vou me deitar na cabine se achar que preciso.
        Ky fez um carinho e disse:
        - Pode estar certa de que ir. Muito bem, ento vamos partir. Quero comear cedo.
        Uma vez que o problema parecia resolvido, Ky ps-se a caminho. Ela o seguiu. Poucos minutos mais tarde j estavam estacionando o automvel prximo  lancha, 
no porto de Silver Lake. Logo que subiram a bordo do "Tufo", Kate tomou um lugar ao lado dele no leme e preparou-se para apreciar o sol e o vento. Ela j comeava 
a sentir a energia voltando a seu corpo.
        - Eu fiz um grfico da posio exata que explorei no mergulho de ontem - Ky disse a ela enquanto manobrava o barco para fora do porto.
        - Um grfico? - Ela se virou, surpreendida com aquilo. - Voc no me mostrou nada.
        - Voc j estava dormindo quando eu o terminei.
        - Tenho dormido quase todo o tempo - ela resmungou.
        Enquanto navegavam para o alto-mar, Ky passou o brao em torno dos ombros de Kate.
        - Voc parece melhor, Kate. Sem olheiras, sem tenso. Isso  o mais importante.
        Por um momento, ela pressionou a face de encontro  mo dele. Poucas mulheres seriam capazes de resistir a to doce demonstrao de preocupao, expressa 
atravs daquele toque to suave. Mesmo assim Kate no queria que a preocupao de Ky viesse a confundir o motivo real de sua permanncia ali, junto dele. No gostava 
que sentissem piedade dela. Kate necessitava ser vista como uma companheira, uma mulher.
        Enquanto durasse o relacionamento entre eles, parecia de suma importncia que Ky a encarasse como algum em p de igualdade com ele. Ento, quando partisse... 
no restariam mgoas como da primeira vez.
        - Eu no preciso mais ser mimada, Ky.
        - Pois eu gostei de mim-la - observou ele, dando de ombros. Ky j sabia que, ao aproximar-se de Kate, teria de faz-lo com a mesma cautela com que enfrentava 
um mergulho perigoso: prestando ateno extrema s correntezas,  presso, e com os sentidos alerta para o caso de surgir algo inesperado. - O grfico est na cabine 
- ele disse ao desligar o motor. - Voc talvez queira examin-lo durante o tempo em que eu estiver no fundo.
        Kate concordou com um simples gesto de cabea, mas j sentia a impacincia crescendo dentro de si no momento em que viu Ky comeando a se aprontar. Sentiu 
vontade de voltar a tocar no assunto, de insistir para que ele lhe permitisse mergulhar junto. Mas no o fez; no adiantaria nada mesmo, e a nica coisa que conseguiria 
seria uma nova discusso.
        - H bebidas frescas l na cozinha se desejar. - Ky prendeu a mscara de mergulho no rosto e caminhou para a escada. - No fique no sol muito tempo.
        - E voc tome bastante cuidado - ela recomendou, sem que pudesse frear as prprias palavras.
        Ky sorriu e saltou para o mar.
        Kate correu para a lateral do barco mas no o viu mais. Durante alguns minutos permaneceu ali, parada, imaginando o que estaria ocorrendo sob as guas. Depois, 
com as mos nos bolsos, levantou os olhos e ficou olhando para o cu. Havia umas poucas nuvens se formando a oeste, mas eram nuvens claras, transparentes. Desceu 
para a parte inferior do barco, pois no havia nada a fazer seno esperar.
        Ky encontrou mais dois canhes e marcou as posies deles lanando bias  superfcie. Seria possvel, caso no encontrasse algo mais concreto, resgat-los 
a um perito para que lhes avaliasse a idade. Tambm parecia importante percorrer e demarcar a rea onde estavam espalhados os destroos do navio. Mais tarde, para 
vasculhar com maior segurana todo aquele trecho, necessitariam de algumas ferramentas especiais. Um detector de metal, por exemplo, seria de grande utilidade durante 
essa fase das buscas. At o presente, no haviam achado nada alm de alguns objetos arruinados que um dia pertenceram a uma embarcao. Nada garantia que fossem 
do "Liberty", embora Kate estivesse convicta disso.
        O que preocupava Ky era o fato de que, ao encontrarem o tesouro, teriam de decidir sobre suas vidas, e no havia qualquer garantia de que Kate ficasse com 
ele. Ky estava disposto a tudo para no perd-la outra vez.
        Quando a misso estivesse concluda, ento seria a hora de tentar resgatar o que ele e Kate haviam tido um dia. Na opinio dele, algo que nunca deveria ter 
se perdido. Se eram capazes de recuperar algo que estivera perdido no mar por mais de dois sculos, tambm seriam competentes o bastante para no desperdiar os 
sentimentos que tinham um pelo outro,
        Ky no podia mais prosseguir sem o auxlio de ferramentas. No prximo mergulho, traria um dispositivo especial para a escavao. Mas algum teria de ficar 
a bordo auxiliando-o no manejo do aparelho. Ky, ento comeou a pensar que j era hora de chamar seu irmo Marsh para participar da aventura.
        O ar dos tanques estava no fim, e ele seria obrigado a retornar ao barco, mas antes resolveu investigar um pouco mais, a fim de encontrar algo que pudesse 
levar para Kate. Alguma coisa palpvel, capaz de trazer de volta o brilho do entusiasmo aos olhos dela.
        Levou mais tempo do que supunha, mas, quando ergueu nas mos uma garrafa intacta, soube que a reao de alegria dela seria a justa recompensa por seus esforos.
        Examinando a garrafa com ateno, descobriu a data de fabricao no fundo. Com um sorriso satisfeito, guardou-a na sacola presa ao cinto. Com o suprimento 
de ar quase esgotado, Ky voltou para o "Tufo".
        Kate aguardava-o apreensiva, de p junto s escadas do barco. Uma agradvel sensao de alvio a invadiu no instante em que avistou bolhas de ar na superfcie 
da gua. Ky emergiu em seguida e agarrou-se a um dos degraus da escada enquanto removia a mscara do rosto.
        - Esperando por mim?
        Uma ponta de aborrecimento, devido ao tempo que tinha desperdiado preocupando-se com ele, veio misturar-se  sensao de alvio.
        - O que aconteceu? Voc ultrapassou o tempo previsto.
        - Sim, um pouco - ele respondeu, enquanto colocava os tanques no convs. - Tive de parar no caminho para comprar-lhe um presente.
        - No estou brincando, Ky. - Kate o viu saltar sobre a lateral do barco, num movimento gil e preciso. - Voc ficaria furioso se eu me arriscasse tanto quanto 
voc.
        - Deixe os sermes a cargo de Linda - ele aconselhou, descendo o zper do traje. - Ela j nasceu com esse dom. - Depois, num gesto firme e decidido, segurou-a 
e puxou-a para junto de si, a fim de que ela sentisse toda a excitao que ele trouxera consigo do fundo do mar. Os lbios de Kate entreabriram-se para receber aquele 
beijo. Por estarem as roupas dele molhadas, colavam-lhe ao corpo e evidenciavam o contorno dos msculos viris que sempre a fascinaram.
        Quando ele tentou afastar os lbios, ela o segurou com fora, transformando aquele beijo em algo ainda mais ardente, caloroso, capaz de aquecer e secar toda 
a sua pele fria e molhada.
        - Eu me preocupo com voc, Ky. - Por um ltimo momento ela o manteve preso a seus braos. -  isso que voc quer ouvir?
        - No - ele respondeu, segurando o rosto dela com as mos e balanando a cabea. - No .
        Ento Kate afastou-se, temendo falar demais, dizer coisas que nenhum deles estava preparado para ouvir.
        -  terrvel ficar aqui sem fazer nada, sabendo que voc est l embaixo sozinho.
        - Eu entendo. - O que Kate estava querendo dele, afinal? Por que arranjava sempre um jeitinho de mudar de assunto logo que comeava a falar de sua preocupao 
por ele? - Tenho mais algumas coisas para acrescentar ao grfico.
        - Eu vi as bias que voc lanou  superfcie.
        - Encontrei mais dois canhes. Pelo tamanho deles, diria que faziam parte de um navio pequeno.  improvvel que tivesse sido construdo para batalhas.
        - Era um navio mercante.
        - Pode ser. Eu vou levar o detector de metal comigo e ver o que consigo trazer para cima. A julgar pelo material que descobrimos, no creio que a embarcao 
esteja enterrada muito fundo. Mas agora gostaria de falar sobre o seu presente. No quer v-lo?
        - Eu pensei que fosse brincadeira - ela disse com um sorriso espontneo nos lbios. - Voc me trouxe uma concha?
        - Eu imaginei que voc gostaria mais disto. - De dentro da sacola, Ky tirou a garrafa. - Devia ter um gosto to bom que no deixaram nem um pouquinho. Se 
o contedo ainda estivesse aqui, ns poderamos fazer um banquete, bebendo vinho e comendo pasta de amendoim.
        - Oh, Ky, ela est inteira! - Emocionada, Kate estendeu o brao para apanh-la, mas Ky puxou-a para fora de seu alcance e sorriu,- Ateno agora para a surpresa. 
- Dizendo isso ele virou a garrafa de boca para baixo.
        - Oh, Deus - ela sussurrou, maravilhada. - A data est gravada no fundo: 1749. - Com extremo cuidado e carinho, Kate pegou a garrafa nas mos. - O ano anterior 
ao naufrgio do "Liberty". Mais de duzentos anos, e o vidro contnua intacto. - Seus olhos brilhavam de entusiasmo quando voltou a encar-lo. - Ky, acho que deveramos 
tentar descobrir o lugar onde foi feita esta garrafa.
        - A maioria dos frascos de vidro encontrados em meio aos destroos de embarcaes naufragadas durante os sculos dezessete e dezoito foram manufaturados 
na Inglaterra. Portanto, isso no provaria que o navio era ingls.
        - Vejo que voc andou fazendo suas pesquisas, hein?
        - Eu no costumo entrar num projeto antes de conhecer todos os ngulos e problemas envolvidos. - Ky ajoelhou-se para inspecionar os tanques carregados.
        - Voc vai voltar l para o fundo agora?
        - Quero familiarizar-me com o local o mximo que puder antes de comearmos a lidar com o equipamento.
        Kate achava estranho ver Ky tomando atitudes to cautelosas. Ela sempre fora mais cuidadosa, e ele estava o tempo todo se arriscando, mas agora a situao 
parecia invertida. Desanimada, ela viu Ky se preparando para uma nova descida. Mais uma vez seria mera espectadora.
        Num dado momento, ele apanhou uma haste de metal.
        - Para que serve isso?
        -  usada como suporte para esta pea. - Ky mostrou-lhe um dispositivo semelhante a uma bssola. -  chamado esclmetro.  uma maneira prtica e barata de 
traar o mapa do local. Coloco isto no centro aproximado dos destroos, alinho o crculo com o norte magntico e ento meo a distncia at os canhes. Depois que 
tiver instalado tudo isto, voltarei para pegar o detector de metal.
        A frustrao comeou a crescer dentro dela.
        - Ky, eu me sinto bem. Poderia ajudar se...
        - No - ele disse com voz firme. No se importava se fosse necessrio discutir com ela ou fazer-lhe uma relao dos muitos motivos por que ela teria de ficar 
no barco. Ento, sem dizer mais nada, mergulhou outra vez.
        
        O sol j estava se pondo quando eles decidiram voltar. Ky passou sua ltima hora no mar completando o grfico, adicionando as informaes que acabara de 
coletar. Havia juntado mais algumas peas no fundo do mar: uma caneca e colheres e garfos feitos de ferro. Kate decidiu comear a fazer uma lista detalhada de todos 
os achados. Se era tudo o que podia fazer no momento, ento o faria com prazer.
        Enquanto retornavam, Ky e Kate entretinham-se conversando no convs. Ela parecia mais conformada com sua temporria inatividade e sua disposio havia melhorado 
bastante.
        - Vou ass-los na grelha - disse referindo-se aos belos peixes que pescara durante os longos minutos em que Ky permanecera sob as guas.
        - Voc vai? - perguntou ele, erguendo as sobrancelhas, surpreso.
        - J que eu os pesquei, tenho todo o direito de prepar-los.
        - Muito justo. At deixarei que voc os limpe - Ky riu do tom brando da prpria voz e comeou a brincar com os cabelos dela, at que todos os grampos que 
os prendiam cassem ao cho.
        - Ky! - Kate inclinou-se para apanh-los.
        - Use os cabelos presos quando estiver na sala de aula - ele aconselhou, arremessando alguns dos grampos ao mar. - Acho difcil resisti-la quando est com 
os cabelos soltos e meio desarrumados como agora.
        - Verdade? - Kate permitiu que os cabelos esvoaassem ao ritmo do vento, enquanto se aproximava dele, at sentir que seus corpos se tocavam. Um sorriso tomou 
conta de seus lbios ao notar a expresso de surpresa nos olhos de Ky no momento em que ela deslizou as mos por baixo da camiseta dele. - Por que voc no desliga 
o motor e me mostra o que acontece quando no consegue resistir mais?
        - Voc sabe muito bem o que acontece quando no consigo resistir mais.
        Kate deu uma risada baixa e maliciosa.
        - Refresque minha memria. - Sem esperar por uma resposta, ela mesma reduziu a velocidade da lancha, at que seu movimento no passasse de um simples vagar 
sobre as guas. - Voc no fez amor comigo ontem  noite - As mos dela deslizaram mais uma vez.
        - Voc estava dormindo.
        - Pois agora no estou mais. - Kate ficou na ponta dos ps e roou os lbios sobre os dele, de maneira provocante. - Ou talvez voc esteja com pressa de 
voltar para casa para comer peixe.
        Ela o estava excitando. Por que  que Ky jamais conseguira enxergar a feiticeira que havia escondida sob aquele manto de candura angelical? Ky sentiu o desejo 
invadindo-o, absorvendo-lhe as energias, entorpecendo-lhe a mente. Mas, quando tentou pux-la, ela resistiu a fim de atorment-lo.
        - Se eu fizer amor com voc agora, no serei nada gentil.
        Ela mantinha os lbios prximos aos dele.
        - Isso  um aviso? Ou uma promessa?
        Ky sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha e ficou espantado. Nem mesmo por Kate ele j havia experimentado tal sensao. O desejo crescia rpido, e parecia 
impossvel manter o controle.
        - Eu no tenho certeza de que voc saiba o que est fazendo...
        Nem ela tinha, mas sorriu porque isso no mais importava.
        - Desa para a cabine comigo e ns dois descobriremos juntos. - Kate caminhou para a escada, e, sem dizer mais uma s palavra, desapareceu sob o convs.
        Depois de desligar os motores do barco, Ky a seguiu.
        Ela j havia desabotoado a blusa, mas no a havia tirado ainda. Quando entraram na estreita cabine, Kate sorriu. Ela estava meio assustada, embora no soubesse 
explicar a razo. Mas, acima do medo, havia uma enorme vitalidade e fora que estavam batalhando em seu ntimo para se libertar.
        Sem, esperar que ele se aproximasse, Kate deu um passo  frente e arrancou-lhe  camiseta.
        - Sua pele  dourada - ela murmurou. - Isso sempre me excitou. - Tentando saborear com calma todo o prazer que aquele homem podia lhe dar, ela deslizou as 
mos pelo peito dele.
        Seu corao batia acelerado no momento em que desceu o zper da bermuda de Ky. Enquanto o fitava nos olhos, ela o despia com calma.
        - Nunca desejei tanto a um homem!
        Ky tinha de faz-la parar. Ela no tinha idia do efeito que causavam aqueles dedos longos e macios percorrendo-lhe a pele.
        - Kate... - Tomando as mos dela, ele se ajoelhou para beij-la. Mas ela desviou a cabea, e sua boca foi de encontro ao pescoo de Ky. O contato daqueles 
lbios quentes foi para ele como uma lana de fogo a perfurar-lhe a alma.
        Ento ela pressionou seu corpo contra o dele. Ofegante e com movimentos alucinados, Kate percorreu com a boca todo o peito msculo de Ky, enquanto suas mos 
exploravam-lhe o resto do corpo. Ele sentiu a fria do desejo atingi-lo, provocando um prazer to intenso que jamais imaginara pudesse existir.
        Nessa hora ele perdeu o controle e a vontade de ser gentil; Kate tornara-o selvagem e impulsivo.
        Seus corpos emaranharam-se sobre a estreita tarimba da cabine. Ela lhe mordia os lbios, exigindo, suplicando que Ky a fizesse sentir-se desejada, que a 
devorasse com sua paixo enlouquecedora. Kate, em questo de minutos, transformara-se numa devastadora chama humana, impossvel de ser apagada. Percorria o corpo 
de Ky com o desejo aumentando cada vez mais.
        Ky respondia s carcias de Kate. Com os dedos, massageou-a de forma to sensual, buscando sentir-lhe a pele mida e macia, que a ouviu gemer. Kate queria 
sentir toda aquela fora viril em ao e ser conduzida a um paraso de delcias onde nunca haviam estado antes. Ela liderava os impulsos, e ter conscincia disso 
a deixava feliz, enquanto saboreava a pele, os lbios e a lngua de Ky.
        Escorregando o corpo sobre o dele, pde sentir cada pequeno movimento que fazia. No havia mais espao para a razo. Eles tinham se lanado a um mundo distante, 
de sensualidade e delcias, muito alm da compreenso racional.
        Quando Ky tocou com os lbios o seio de Kate, ela estremeceu e sentiu-se invadida por sensaes alucinantes, que iam e vinham rpidas como cometas, adormeciam 
e novamente explodiam dentro dela como o calor de um vulco em erupo. Apesar do delrio que se apossara de sua mente, Kate pde perceber que pronunciava o nome 
dele...
        - Ky...
        Nesse momento, ela o recebeu, e sentiu-se feliz por estar ali, unida a ele.
        
        
        
       CAPTULO X
        
        
        
        Chegara enfim o dia em que Kate poderia voltar a mergulhar. No entanto, ela sentia uma enorme insegurana.
        No houvera um dia sequer, durante o seu perodo de recuperao, em que ela no tivesse desejado descer com Ky ao fundo do mar. Toda vez que ele voltava 
trazendo algum artefato, Kate se emocionava com a descoberta e se frustrava por no ter participado da busca. E, como uma colegial que esperava a chegada do vero, 
Kate passara a contar os minutos em que ainda teria de ficar inativa.
        Agora, uma semana aps o incidente, encontrava-se de p no convs do "Tufo", com a boca seca e as mos trmulas ante a expectativa do prximo mergulho. 
Agradecia a Deus por Ky no estar prximo a ela, assistindo ao seu evidente nervosismo. Ele estava ocupado, fazendo as ligaes necessrias entre o motor do barco 
e o aparelho que seria usado para remover os sedimentos que se haviam acumulado com o passar dos anos sobre os destroos do navio naufragado. Marsh permanecia parado, 
na popa, acompanhando o trabalho do irmo. Com o apoio de Linda, ele concordara em ceder a Ky algumas de suas preciosas horas livres, ajudando-o na tarefa de resgate 
do tesouro.
        Kate aproveitou aquele momento em que estava s para coordenar as idias e acalmar os nervos.
        Era natural que estivesse apreensiva, depois da triste experincia por que passara. Mas, de uma forma ou de outra, no iria recuar agora. Teria de dominar 
o medo e a ansiedade e terminar o que havia iniciado.
        - Est tudo certo aqui, Kate - Marsh gritou, no instante em que Ky lhe fez sinal.
        - Eu j estou quase pronta. - Kate apanhou a sacola que usaria para guardar os pequenos objetos recolhidos do fundo.
        - Kate!
        - Sim? - ela disse sem levantar os olhos, enquanto prendia a sacola ao cinto.
        - Voc sabe que  normal que sinta um certo nervosismo. - Marsh tocou-lhe no ombro com a mo, mas Kate continuou de cabea baixa, prestando ateno ao que 
estava fazendo. - Se precisa de um pouco mais de tempo, eu posso trabalhar com Ky enquanto voc fica aqui cuidando do equipamento.
        - No - ela disse sem pensar. Depois praguejou em silncio. - Est tudo bem, Marsh - esforando-se para manter a calma, prendeu no pescoo a ala da cmara 
que havia adquirido no dia anterior. - Tenho de voltar a mergulhar algum dia, no acha?
        - No precisa ser hoje.
        Kate sorriu para ele, vendo como era calmo e sbrio em comparao com Ky. Esse era o tipo de homem por quem deveria ter se apaixonado.
        - Sim, precisa. Por favor - ela ps a mo no ombro de Marsh antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. - No deixe seu irmo saber dessa minha insegurana.
        Este pedido no fazia a menor diferena, Ky j havia notado sua inquietao. Afinal, conhecia cada gesto, cada expresso, cada entonao da voz de Kate.
        - Voc est pronta? - perguntou Ky, em voz alta, enquanto apanhava um arpo. No estava disposto a arriscar a vida dela logo no seu primeiro dia de retorno 
ao mar.
        - Eu estou.
        Ento Ky lhe deu um rpido beijo.
        - Voc  corajosa, professora - murmurou. Os olhos dele brilhavam intensamente. - Sua coragem  que a torna uma mulher to atraente e sexy. - Dizendo isto, 
ele saltou, esperando por Kate dentro da gua.
        Kate suspirou enquanto descia os degraus da escada. Ky sabia que ela estava amedrontada, e aquela fora a forma que encontrara de transmitir-lhe nimo e confiana. 
Antes de desaparecer da superfcie, ela voltou os olhos para Marsh, que acenava com a mo.
        Sentiu-se em pnico por um momento e desnorteada na hora em que se viu envolvida pela gua. Ocorreu-lhe que ali embaixo, naquele mundo repleto de beleza 
mas tambm de perigos imprevisveis, ela era como uma criana perdida, desamparada. Quanto mais fundo descesse, mais vulnervel se tornaria. Sentindo-se sufocada 
pelo medo, impulsionou o corpo de volta para a superfcie, para a luz.
        Ento Ky a segurou pelas mos, tentando afastar o pnico inicial que se apoderara dela.
        Tocando-lhe o rosto, num gesto delicado e encorajador, esperou at que ela se acalmasse e, ento, o fitasse. Nos olhos dela encontrou, alm de grande energia, 
uma excepcional expresso de desafio. Foi isso que a fez vencer a batalha contra o medo e continuar a acompanh-lo.
        Com um movimento de cabea, ela apontou para baixo, indicando que j estava pronta para prosseguir. De mos dadas, partiram em direo ao fundo.
        O redemoinho formado nas guas por ao do aparelho ligado ao motor do barco j havia arrancado parte dos sedimentos que cobriam o que poderia ser o "Liberty".
         primeira vista, Ky pde ver que, se o lugar onde estavam enterrados os destroos fosse um pouco mais profundo, seria necessrio usar algo mais potente 
do que seu moderno aparelho de construo caseira e o fraco motor de sua lancha. Mas, por enquanto, seria o suficiente. Ter pacincia era, naquela etapa da busca, 
o mais importante.
        Kate avistou alguma coisa slida se deslocar do fundo  medida que a lama ia sendo removida. Agarrando-a, descobriu que se tratava de um castial.
        Prata? Ela perguntou a si mesma, sentindo forte excitao. Teriam eles encontrado seu primeiro tesouro verdadeiro? A pea estava coberta por uma escura camada 
de oxidao, portanto era impossvel afirmar com certeza de que tipo de material era feita. Apesar disso, sentia-se muito emocionada. Aps dias e dias de inrcia, 
ela estava em plena atividade, trabalhando pelo sonho de seu pai e sua realizao prpria.
        Erguendo os olhos, observou que Ky j estava ensacando diversos outros artigos que havia juntado: mais castiais, talheres. Antes que ele terminasse o que 
estava fazendo, Kate bateu algumas fotos.
        Haveriam de achar algum carimbo, alguma marca, algo que revelasse a procedncia daqueles artigos. Ento teriam a certeza de ter encontrado um navio ingls. 
Marinheiros no costumavam usar prata, ou mesmo artigos de mesa to requintados.
        Quando Ky descobriu a primeira pea de porcelana, acenou-lhe. Era um vaso ou o que sobrara dele. Devido  presso da gua durante todos aqueles anos, apenas 
parte de sua estrutura ainda permanecia inteira. Entretanto, a marca do fabricante continuava legvel.
        Quando Kate a leu, agarrou com fora o brao de Ky: "Whieldon". Ingls, portanto. Ela o segurou nas mos com cuidado e delicadeza, como se aquele objeto 
inanimado fosse uma criana recm-nascida. Quando seus olhos encontraram os de Ky, irradiavam uma enorme euforia e uma sensao de vitria.
        Aborrecida com a impossibilidade de falar, Kate apontou para o nome inscrito na superfcie do casco.
        Ky apenas gesticulou com a cabea e fez-lhe sinal para que o colocasse na sacola. Embora relutante em afastar-se dele, Kate, obedeceu, ansiosa por descobrir 
mais. No, as provas de que todas aquelas peas pertenceram a um navio mercante ainda no eram suficientes, Kate disse a si mesma, enquanto continuava a coleta de 
objetos.
        At o momento, a nica coisa que parecia indiscutvel era que a tripulao e talvez alguns dos passageiros daquela embarcao haviam saboreado suas refeies 
em alto estilo a caminho do Novo Mundo. Oficiais ingleses, ela recordou. Quanto a isso no havia dvida. A fora da gua fez com que um objeto se desprendesse com 
violncia da grossa camada de sedimentos que o cobria. Notando-o, Ky, que estava perto, conseguiu estender o brao e agarr-lo antes que desaparecesse. Era um jarro 
encrostado e sujo, que deveria ter sido usado como recipiente para ch ou caf. Talvez estivesse trincado sob aquela grossa casca endurecida. Dando algumas pancadinhas 
no prprio tanque, ele atraiu a ateno da companheira.
        Kate teve certeza, no momento em que ps os olhos no objeto, de que se tratava de algo de valor inestimvel. Controlando a impacincia, ela pediu, atravs 
de gestos, que Ky o segurasse acima da cabea, enquanto ela preparava a cmara para uma foto. Ele obedeceu e, cruzando as pernas como o gnio da lmpada de Aladim, 
fez pose.
        Isso arrancou um sorriso dos lbios de Kate. Talvez tivessem descoberto algo muito valioso, mas ele ainda era capaz de brincar e agir como um palhao. Nada 
era srio demais para Ky, que tinha atitudes das mais infantis. Kate sabia que a caa ao tesouro seria excitante, talvez lhes rendesse muitos dlares, mas jamais 
imaginou que fosse tambm ser engraado. Avanando na direo de Ky, ela pegou o jarro de suas mos.
        Apalpando-o, descobriu que havia algum tipo de desenho sob a crosta. Estava segura de que no se tratava de um simples artigo de cermica. Nem de algo para 
ser utilizado no dia-a-dia. Tinha nas mos uma coisa elegante, rara, feita com muita arte.
        Ky parecia compreender o valor daquilo tanto quanto ela. Recebendo-o das mos de Kate, indicou que deveriam levar para cima todos os achados daquela manh. 
Apontando para o relgio, avisou-a de que o suprimento de ar comeava a se extinguir.
        Ela no reclamou. Em breve retornariam. O "Liberty" esperaria por eles. Ento, segurando cada um num ala da sacola, rumaram de volta  tona.
        - Sabe como me sinto? - Kate perguntou, logo que puseram a cabea fora da gua.
        - Sim. - Ky agarrou-se  escada com uma das mos e aguardou at que ela desatasse os tanques e os arremessasse para o convs. - Sei muito bem como voc se 
sente.
        - O jarro... - Com a respirao acelerada, devido  excitao, Kate subiu depressa os degraus do "Tufo". - Ky, ele deve valer uma pequena fortuna.  como 
achar uma delicada e bem-formada rosa em meio a uma roseira brava. - Antes que Ky tivesse chance de responder, ela comeou a rir e a chamar por Marsh. -  fabuloso! 
Fabuloso!
        Marsh desligou o motor e aproximou-se para ajud-los.
        - Vocs dois trabalham rpido - observou, e, curvando-se, tocou a pea com o dedo. - Meu Deus! Est inteiro!
        - Ns poderemos descobrir o ano de fabricao assim que estiver limpo. Mas olhe s isto. - Kate puxou o vaso quebrado de dentro da sacola. - Este  o nome 
de um famoso ceramista ingls. Ingls - ela repetiu, olhando para Ky. - Foi ele quem ensinou a arte da cermica a Wedgwood, e Wedgwood no comeou a produzir antes 
do ano de 1760, portanto...
        - Portanto esta pea pode ser da poca em que o "Liberty" foi a pique - Ky terminou. - Parece que voc encontrou os destroos de um navio naufragado no sculo 
dezoito e de origem inglesa. - ele segurou uma das mos dela entre as suas. - Seu pai ficaria orgulhoso de voc.
        Kate foi tomada por emoes intensas e incontrolveis naquele instante. A mo que segurava o vaso quebrado comeou a tremer. Ela o colocou de volta na sacola 
e levantou-se.
        - Eu vou para baixo.
        A lembrana de seu pai a fazia ficar insegura. Ele nunca demonstrara orgulho ou amor pela filha, mas isso no importava agora.
        Tentou acalmar as emoes e coordenar as idias. Queria encontrar o "Liberty", transformar o sonho de seu pai em realidade, ter o nome dele inscrito numa 
placa no museu, junto com todos os artefatos encontrados. Ela devia isso a ele. Mas prometera a si mesma achar o "Liberty" tambm por uma questo de satisfao pessoal.
        - Kate?
        Ao ouvir seu nome, ela se virou. Embora achasse que j estava bem mais calma, Ky, que acabava de entrar, pde ver a inquietao em seus olhos.
        - Seria melhor voc tirar esse traje molhado.
        - Mas ns vamos mergulhar outra vez.
        - No hoje. - Para provar que estava decidido, Ky comeou a remover a prpria roupa, enquanto Marsh acionava os motores para voltarem.
        Kate percebeu que o barco estava sendo manobrado.
        - Mas ns ainda temos mais dois pares de tanques cheios. No h razo para irmos embora agora que comeamos a ter sucesso.
        - Este primeiro mergulho absorveu a maior parte de sua energia. Se quiser mergulhar amanh, deve evitar os abusos hoje.
        A clera de Kate surgiu com tanta rapidez que deixou espantados a ambos.
        - Para os diabos com isso! - ela reclamou. - Estou enjoada de ser tratada como se no conhecesse meus prprios limites, e meu prprio corpo.
        Ky caminhou at a cozinha, apanhou uma lata de cerveja e abriu-a.
        - No sei do que voc est falando.
        - Eu permaneci imvel na cama boa parte da semana devido  presso que sofri de voc, de Linda e de todos os que me cercavam. No vou mais tolerar isso.
        Com uma das mos, Ky empurrou para o lado o cabelo molhado da testa.
        - Voc vai tolerar o que for necessrio e por quanto tempo for preciso.
        - Nada disso! - O sangue subiu-lhe  cabea, e Kate aproximou-se dele, furiosa. - Eu no sou obrigada a fazer o que voc ou qualquer um outro me diga. No 
mais. J  hora de voc se lembrar a cargo de quem est esta operao de resgate.
        - A cargo de quem?
        - Eu o contratei. Setenta e cinco por dia e vinte e cinco por cento. Lembra-se? Esses foram os termos. No nosso acordo no havia nada a respeito de voc 
dirigir a minha vida.
        Ele se calou por um momento. Tudo que se ouviu alm do barulho dos motores, era a respirao ruidosa e agitada de Kate. Dlares e porcentagem, ele pensou 
com uma calma incomum.
        - Ento  nisso que se resume o nosso relacionamento?
        Agitada demais para enxergar alm de sua prpria raiva, ela continuou a aoit-lo com palavras.
        - Ns fizemos um acordo. Eu cuidarei para que voc receba tudo o que combinamos, mas no quero que continue me dizendo o que devo ou no fazer. Estou cansada 
de ter algum me ditando ordens.
        - Pois muito bem. Faa como desejar, professora. Mas no se esquea de procurar outro mergulhador! Vou mandar-lhe a conta mais tarde. - Dizendo isso Ky saiu 
da cabine da forma mais rpida que pde.
        Com as mos cruzadas, Kate sentou-se na tarimba e permaneceu ali, quieta, at que o ronco dos motores cessou. Quando teve certeza de que j poderia se controlar, 
levantou-se e foi para o convs.
        Tudo estava como ela havia deixado: a sacola de malha cheia de talheres e pedaos de porcelana, seus tanques quase vazios. Ky se fora. Marsh, que a estava 
esperando na popa, aproximou-se.
        - Voc vai precisar de uma mozinha com estas coisas.
        Kate concordou com um gesto de cabea.
        - Sim. Quero levar tudo isto para o meu quarto no hotel.
        - Est bem. - Mas, em vez de apanhar a sacola, ele segurou o brao dela. - Kate, eu no gosto de dar conselhos...
        - timo - ela disse sem refletir e, em seguida, arrependeu-se. - Lamento, Marsh. No estou me sentindo muito bem no momento.
        - Eu posso ver isso, e sei que as coisas no esto sempre bem entre voc e meu irmo. Ele tem o hbito de calar-se de vez em quando, de no dizer tudo o 
que tem na cabea. Ou pior - Marsh acrescentou -, de dizer a primeira coisa que lhe vem  mente.
        - Ele  livre para agir como quiser. Eu vim a Ocracoke com o propsito especfico de encontrar o "Liberty". Se Ky e eu no somos capazes de manter uma convivncia 
aceitvel, ento eu tenho de faz-lo sem sua ajuda. Agora gostaria que me dissesse onde posso alugar um barco e algum equipamento. Vou voltar l esta tarde.
        - Kate...
        - Vou voltar l esta tarde - ela repetiu com voz decidida. - Se no pode me ajudar, no tem importncia.
        Sem discutir, Marsh abaixou-se para apanhar a sacola.
        Kate levou o resto da manh acertando os ltimos preparativos para a jornada. Estava decidida a voltar sozinha ao local onde se encontravam os destroos 
do navio que procurava. No incio da tarde o "Gaivota" J estava pronto para a misso. Segurando o leme com firmeza, Kate partiu para mais uma aventura.
        Ao atingir o local determinado, desligou os motores e aprontou-se para o mergulho. Sentiu uma enorme emoo no instante em que percebeu o corpo imergir naquele 
misterioso e fascinante mundo dos peixes, a gua acolheu-a macia como seda, saudando-a, enquanto se dirigia ao lugar onde julgava estar enterrado "Liberty".
        A primeira coisa que encontrou logo que chegou foi um prato de jantar com um multicolorido desenho floral na borda. Em seguida encontrou mais doze iguais, 
dois dos quais estavam intactos. Havia tambm xcaras de porcelana inglesa que poderiam ter enfeitado a mesa de algum rico colono de outros tempos.
        Prosseguindo na busca, avistou algo que se assemelhava a uma escura concha. Ao examinar mais de perto, viu que se tratava de uma moeda de prata. No conseguiu 
descobrir a procedncia, mas isso no importava. Poderia muito bem ser de origem espanhola, pois ela havia lido que as moedas espanholas haviam estado em circulao 
por todas as naes europias com colnias no Novo Mundo.
        A primeira moeda que encontrou, embora fosse de prata e no de ouro, e no pudesse ser identificada no momento, ela a tinha achado sozinha. Isto a fazia 
sentir-se orgulhosa.
        Preparava-se para guard-la na sacola quando sentiu o brao sendo puxado para trs.
        Ela sentiu o sangue gelar naquele momento. O arpo tinha ficado a bordo do "Tufo". Ela estava desarmada. Antes que tivesse tempo de fazer qualquer outra 
coisa alm de virar-se apavorada, teve os ombros imobilizados pelas fortes mos de Ky.
        O medo desapareceu, entretanto o dio presente nos olhos dele a irritou.
        Livrando-se das mos dele, ela o empurrou e fez-lhe sinal para que partisse.
        Ky acatou a ordem, mas s depois de haver-lhe enlaado a cintura com um dos braos, arrastando-a consigo de volta para a superfcie.
        - Idiota! - ele gritou, enquanto a forava a subir a escada do "Tufo". - Um dia apenas fora da cama e voc j quer se meter sozinha numa aventura arriscada 
como essa. No sei por que diabos fui achar que voc tinha crebro.
        Com muita raiva, ela arremessou os tanques para dentro do barco. Quando estivesse segura, sentindo o piso slido sob os ps, ento seria sua vez de falar. 
Por ora, deixaria que ele desabafasse  vontade.
        - Eu tiro os olhos de cima de voc por algumas horas e voc faz uma asneira dessas. Se eu tivesse matado Marsh, isso pesaria na sua conscincia.
        Para aumentar ainda mais a sua raiva, Kate percebeu que havia subido a bordo do "Tufo". O barco de Marsh no podia mais ser avistado.
        - Onde est o "Gaivota"? - ela perguntou, irritada.
        - Marsh teve o bom-senso de me contar o que voc estava fazendo. - As palavras saam de sua boca como balas mortais. - Eu s no acabei com ele porque precisava 
de algum que viesse comigo para levar de volta o "Gaivota". - Ky colocou-se diante dela, encarando-a, com os cabelos pingando e os olhos faiscando. - Voc no tem 
juzo, imagine s, vir aqui e mergulhar sozinha!
        - Voc tem?
        Enfurecido, ele a agarrou e comeou a tirar-lhe o traje molhado.
        - Ns no estamos falando de mim. Eu mergulho desde que tinha seis anos. Conheo bem as correntes.
        - Eu tambm conheo.
        - E eu no estive de cama, doente por uma semana.
        - Eu fiquei de cama todo esse tempo por causa dessa sua maldita mania de exagerar. - Kate distanciou-se dele, e como as roupas j haviam sido baixadas at 
a cintura acabou de tir-las. - Voc no tem nenhum direito de ficar me dizendo quando e onde eu posso mergulhar, Ky. O simples fato de ser mais forte do que eu 
no lhe d o direito de arrastar-me para cima contra a minha vontade, interrompendo o meu trabalho.
        - Para os diabos com o que eu tenho o direito de fazer ou no. Conheo muito bem os perigos que voc corria l embaixo, desacompanhada. E no permitirei 
mais que faa isso. Nem que seja obrigado a acorrent-la.
        - Voc me disse para arranjar outro mergulhador At que o faa, terei de continuar sozinha.
        - Voc me atirou na cara o nosso maldito acordo comercial. Sabe como aquilo me fez sentir?
        - No, eu no sei. - ela gritou. - S sei que ns concordamos com os termos do acordo.
        - Isso foi antes.
        - Antes de qu? - ela perguntou em tom categrico, como que a exigir uma resposta. Algumas lgrimas inoportunas insistiram em lavar-lhe o rosto.
        - Antes de eu dormir com voc?
        - Ora, pare com isso, Kate. s vezes tenho a impresso de que voc est tentando me castigar por algo que fiz ou deixei de fazer h quatro anos. Eu no sei 
o que . No sei o que voc quer de mim e que no quer.
        - Eu no quero ser pressionada como estou me sentindo neste momento - ela disse, descontrolada. -  isso que eu no quero. No quero ningum esperando que 
eu v morrer de amores por seus planos sem t-los discutido comigo. Nem que pensem que eu no tenho meus prprios desejos e objetivos a atingir.
        - Muito bem. - Ambos estavam perdendo o controle, mas nenhum deles fazia mais uso de palavras grosseiras, - Eu no espero coisa alguma, nem penso de voc 
nada disso que acaba de mencionar. Talvez durante uma certa poca no passado, quem sabe, mas no mais. Houve apenas uma pessoa que exigiu de voc e relegou seus 
prprios desejos a segundo plano, e no fui eu. Eu sou apenas aquele que a deixou partir.
        Os msculos de Kate enrijeceram-se. Apesar da distncia que os separava, Ky pde ver seus olhos se turvando.
        - Eu no quero discutir sobre meu pai com voc.
        - No entanto, voc entendeu bem rpido, no ?
        - Ky, voc se ressentiu com ele. Voc...
        - Eu?! - Ky interrompeu. - Talvez voc devesse olhar um pouco para si mesma, Kate.
        - Eu o amava - ela disse com voz irritada. - Toda a minha vida tentei mostrar isso a ele. Voc no entende.
        - Como voc sabe que eu no entendo? No sabia que eu posso ver o que voc sente toda vez que encontramos algo l embaixo? Pensa que sou cego e no percebo 
o quanto voc sofre por descobrir o tesouro no lugar dele? Que no me parte o corao v-la se punindo por no ser o que ele imaginara que seria?
        E eu estou cansado de ser comparado a um homem que voc diz ter amado e com o qual tinha to pouco em comum,
        - Eu no fao isso. - Ela cobriu o rosto, odiando-se por essa demonstrao de fraqueza, mas reconhecendo a prpria impotncia para combat-la. - Eu no fao 
isso. Apenas quero...
        - O qu? - ele perguntou, insistente. - O que voc quer?
        - Eu no chorei quando ele morreu - ela explicou com a voz sufocada pela emoo. - No chorei nem mesmo em seu funeral. Fiquei devendo-lhe lgrimas, Ky. 
Fiquei devendo-lhe alguma coisa.
        - Voc no deve nada a ele. Nada que j no lhe tenha dado repetidas vezes, Kate. - Enquanto ele falava, foi se aproximando. Sabia que suas palavras seriam 
inteis naquele momento e acariciava-a tentando restituir-lhe a calma.
        - Eu no chorei.
        - Chore agora - Ky murmurou. Ento tocou-lhe a cabea com os lbios e deu-lhe um carinhoso beijo.
        - Chore agora.
        E ela chorou, como uma criana. Por tudo o que perdera e pelo que nunca chegara a ter. Suas lgrimas eram amargas e sofridas.
        Sentando-se num banco, Ky a colocou em seu colo, embalando-a como a uma menina. No podia oferecer-lhe palavras de conforto. Essas eram para ele, palavras 
difceis de ser pronunciadas. Apenas podia oferecera lhe um pouco de carinho e ouvi-la em seu desabafo.
        - Eu no consegui chorar por ele antes - ela murmurou, logo que as lgrimas comearam a escassear - No sei a razo.
        - Chorar no  a nica maneira de se demonstra dor pela perda de algum amado.
        - Talvez no. Eu no sei, mas acho que  verdade o que voc acaba de dizer. Tenho me empenhado em concluir as pesquisas de meu pai porque ele mesmo nunca 
mais ter a oportunidade de faz-lo. No sei se voc me entende, mas sinto que com isso estar fazendo realmente tudo o que poderia. Por ele, e por mim mesma.
        - Kate - ele disse com voz suave, inclinando a cabea dela de forma que o fitasse nos olhos. - No tenho que compreender. Tenho apenas que am-la.
        Ky sentiu os msculos dela enrijecendo em seus braos. Por que  que nunca lhe dizia coisas da maneira que deveriam ser ditas? Com doura, calma e suavidade? 
Kate era uma mulher sensvel, que necessitava de palavras doces, e ele era um homem que procurava evit-las sempre, de uma forma ou de outra.
        Ela permaneceu imvel, e por um longo momento os dois ficaram se olhando.
        -  verdade? - ela perguntou aps uma pausa.
        -  verdade o qu?
        - Que voc me ama?
        - Kate... - A sensao de frustrao era evidente em sua voz. - No sei mais o que fazer para lhe provar. Ser que voc deseja buqus de flores, garrafas 
de champanhe francs, poemas? Deus! Eu no sou desse tipo de homem.
        - Eu quero apenas uma resposta direta.
        - Eu jamais deixei de te amar. Nem por um instante sequer.
        - Por que nunca me disse?
        - Oua Kate. Eu at j perdi a conta do nmero de vezes que disse isso s mulheres. Sempre foi bastante fcil, porque elas no significavam nada para mim. 
 muito mais difcil se expressar atravs de palavras quando se trata de um sentimento verdadeiro, quando se tem medo de ser abandonado pela pessoa amada.
        - Eu no o abandonaria.
        - Voc j o fez uma vez. Ficou distante por quatro anos quando eu lhe havia pedido que ficasse.
        - Voc me pediu para ficar - ela o lembrou. - Pediu-me para no voltar a Connecticut e que ficasse morando aqui com voc. Apenas isso. Nenhuma promessa, 
nenhum compromisso, nenhuma indicao de que pretendia construir uma vida em comum comigo. Eu tinha minhas obrigaes, minhas responsabilidades.
        - Fazer o que seu pai queria que fizesse.
        Kate teve de engolir essa verdade.
        - Est bem, sim. Mas voc nunca disse que me amava.
        - Estou lhe dizendo agora.
        Ela concordou com um gesto de cabea, tentando aparentar calma. Sentia, no entanto, o corao bater acelerado.
        - Eu no fugirei novamente. Mas no estou certa de poder dar o prximo passo e no tenho certeza de que voc possa tambm.
        - Voc quer uma promessa?
        Kate sacudiu a cabea, incerta do que faria caso Ky realmente lhe fizesse uma.
        - Precisamos de tempo, ns dois. Parece que ambos temos ainda muito que pensar sobre isso.
        - Kate... - Impaciente, Ky tomou as mos dela. Estavam trmulas. - H coisas que no necessitam ser pensadas ou analisadas.
        - Voc tem o seu prprio modo de vida h muito tempo, e eu tenho o meu. Ky, estou apenas comeando a mudar. No quero cometer nenhum erro, me precipitando. 
No com voc.  muito importante. Com tempo...
        - Ns j perdemos quatro anos - ele a interrompeu. - No agento mais esperar para ouvi-la dizer que me ama, se  que de fato sente isso por mim.
        - Eu o amo, Ky. Nunca deixei de am-lo. J devia ter-lhe dito isso antes, mas no o fiz, como voc.
        Ky sentiu um arrepio percorrendo-lhe a espinha e tocou o rosto dela com as mos.
        - No tem importncia. Est me dizendo agora.
        E parecia ser o bastante naquele momento.
        
        
        
       CAPTULO XI
        
        
        
        Nos dias que se seguiram, Ky e Kate no mais voltaram a discutir os termos do acordo nem chegaram a mencionar mais o assunto da porcentagem. Aos poucos, 
Kate foi desistindo da idia de manter o seu quarto no hotel, at, por fim, abandon-lo de vez e ir morar com Ky.
        Os dias comearam a passar rpido. Os dois trabalhavam muito, unidos pelo mesmo propsito. Com o uso de equipamentos ou mesmo sem eles, foram encontrando 
mais e mais artigos remanescentes do naufrgio. Descobriram que os castiais eram feitos de estanho e que a moeda de prata, de origem espanhola, datava de 1848.
        Kate fotografava cada um dos achados, por razes prticas e pessoais. Ela queria ser capaz de, mais tarde, olhando para as fotos, lembrar-se da emoo que 
sentira no momento em que vira Ky segurando nas mos uma xcara de ch encrostada ou uma caneca toda oxidada.
        Por mais de uma vez, Ky sugerira o uso de um barco maior, mais equipado para a operao, mas, embora tivessem discutido o assunto e reconhecido a vantagem 
da troca, preferiram continuar o trabalho com o "Tufo". De alguma forma, estavam sentindo mais prazer na busca lenta do tesouro, s vezes usando as prprias mos 
para isso.
        Os canhes e as peas de madeira mais pesadas do navio no podiam ser trazidos  superfcie sem ajuda, portanto decidiram deix-los no fundo do mar por mais 
algum tempo.
        O calor estava intenso na hora em que eles se preparavam para mergulhar. Era metade do ms de julho, e Kate j completara seu primeiro ms de trabalho em 
Ocracoke.
        - Deixe-me fazer isso. - Ky pegou o tanque de ar das mos de Kate e a ajudou a prend-lo s costas. - A gua deve estar deliciosa.
        - Sim - disse Marsh, enquanto destampava uma garrafa de suco. Pensem s em mim, assando aqui neste sol, e vocs l embaixo, divertindo-se.
        - Mantenha o motor em baixa rotao, mano - Ky avisou com um sorriso nos lbios, ao mesmo tempo que comeava a descer as escadas do barco. - Ns lhe traremos 
uma lembrancinha.
        - Pois que seja algo redondinho, brilhante e com a data gravada numa das faces - brincou Marsh. Deu uma olhada para Kate, que descia os primeiros degraus 
da escada atrs do companheiro, e desejou-lhe sorte.
        Ela foi tomada de forte excitao no momento em que sentiu a gua batendo-lhe nos tornozelos.
        O rudo do equipamento ligado ao motor do "Tufo" quebrava o silncio das guas, mas no o seu mistrio. At mesmo com a ajuda da tecnologia, o mar permanecia 
um enigma, cinqenta por cento beleza, cinqenta por cento perigo.
        Mergulhando em direo ao fundo, chegaram ao local onde concentrariam as buscas naquele dia.
        J haviam descoberto o que imaginavam ser os alojamentos de oficiais e passageiros, identificando-os atravs de uma caixa de guardar tabaco, um castial 
de prata, daqueles que se costumava usar junto  cabeceira da cama, e, finalmente, algo que encantou a Ky: uma bonita espada decorada.
        Usando os alojamentos de passageiros e a cozinha como pontos de referncia, Ky e Kate comearam a trabalhar no que deveria ter sido a popa do navio.
        Havia pesados pedaos de rocha para serem removidos. Teriam de retir-los com as mos e coloc-los numa rea que j tivessem escavado. Apesar da monotonia 
da tarefa, Kate achava fascinante a capacidade de realiz-la debaixo da gua e com to pouco esforo. Ela podia mover as rochas com a mesma facilidade de Ky, ao 
passo que em terra firme teria se cansado bem mais rpido do que ele.
        Em determinado momento, Ky sentiu seus dedos tocarem alguma coisa pequena e dura. Curioso, apanhou-a, esfregou com a mo para remover parte do sedimento 
e o observou-a de perto. O corao quase lhe saltou do peito.
        Era um diamante. Embora Ky no fosse um perito, examinando-o com ateno, julgou-o como sendo de pelo menos dois quilates. Com uma pancadinha no ombro, atraiu 
a ateno de Kate.
        Causou-lhe enorme prazer ver os olhos dela se arregalarem diante da novidade. Juntos, eles viraram a pedra de um lado para o outro. Encontrava-se suja e 
opaca, mas estava ali em suas mos.
        Talvez o diamante pertencesse a alguma dama que, no momento do naufrgio, jantava com o capito, fazendo comentrios sobre a Amrica. Ou talvez algum oficial 
britnico o estivesse carregando no bolso do colete para entreg-lo  mulher com quem pretendia se casar. Um mistrio indecifrvel, mais precioso do que a pedra 
em si.
        O trabalho continuou assim que Ky guardou a pedra na sacola.
        A fora da gua fez com que um novo objeto se desprendesse da lama. Era pequeno e tinha a borda afiada, arranhando a palma da mo de Kate no momento em que 
ela o segurou. "Uma fivela?", ela se perguntou, enquanto examinava seu formato. Enquanto estendia o brao para mostr-la a Ky, outras comearam a se soltar do fundo.
        Fivelas de sapato, Kate pensou, admirada. Centenas e centenas se libertando e se arremessando nas guas. Entusiasmada, ela comeou a recolher todas que podia.
        Segurando uma delas na mo, virou-se para Ky, com uma expresso de triunfo nos olhos. Haviam achado a carga do navio. Seu pai havia includo as fivelas de 
sapato na relao que fizera das mercadorias do "Liberty". Segundo ele, havia cinco mil. S um navio mercante carregaria tal produto em to grande quantidade.
        Essa era a prova de que precisavam. O resto da carga teria que estar enterrada ali abaixo deles. E o tesouro tambm. Teriam apenas de retir-lo.
        Ky segurou as mos de Kate e sacudiu a cabea, sabendo exatamente o que se passava na mente da companheira. Sob os dedos, ele podia sentir a acelerao do 
pulso dela. Era isso que Ky desejava para ela, a excitao, a emoo obtida pela descoberta de algo em cuja existncia no haviam tido muitos motivos para crer. 
Com uma expresso de euforia nos olhos, Kate trouxe a mo dele at seu rosto. Queria saborear ao mximo todo o prazer e contentamento que aquele momento lhes estava 
oferecendo. Cinco mil fivelas de sapato os conduziria a uma arca carregada de ouro.
        Com gestos de mo, Ky informou a Kate que subiria e pediria a Marsh para desligar os motores. J havia chegado a hora de trabalharem exclusivamente com as 
mos.
        Emocionada, ela concordou com um gesto de cabea. E, enquanto o aguardava, resolveu descansar um pouco, observando as maravilhas do fundo do mar. Havia dividido 
o instante maior da descoberta com Ky, e agora desejava absorv-la por si prpria.
        O "Liberty" estava enterrado abaixo dela, o navio pelo qual seu pai procurara com tanto empenho. O sonho que ele por tanto tempo acalentara, realizando cuidadosas 
pesquisas, meticulosos clculos, mas sem nunca ter podido concretiz-lo.
        Alegria e tristeza mesclavam-se em seu esprito enquanto ela apanhava algumas das fivelas e as depositava na sacola. Naquele momento Kate sentiu que conseguiria 
dar a ele tudo o que se propusera.
        Apanhou a cmara e comeou a bater fotos. Muitos anos mais tarde, ela pensou, olharia para elas e reviveria os momentos de intensa emoo e satisfao que 
agora sentia.
        De repente, o silncio. Os sedimentos e peas de metal decoradas e encrostadas comearam a se depositar novamente no fundo, livres da turbulncia causada 
nas guas pelo equipamento ligado ao motor do "Tufo". O mar era de novo um mundo silencioso, sem movimento.
        Ao notar uma ligeira agitao nas guas bem acima dela, Kate levantou a cabea para observar. Sentiu o sangue gelar no mesmo instante. Um temvel habitante 
dos oceanos se aproximava do local.
        O barulho provocado pelo remoinho nas guas mantivera todas as formas de vida afastadas. Agora, o repentino silncio se encarregara de atrair a ateno dos 
curiosos. Entre cardumes de inofensivos peixes destacava-se nitidamente a imagem de um grande e terrvel tubaro.
        Kate permaneceu paralisada no lugar, respirando lentamente. Temia que as simples bolhas de ar acabassem por atra-lo. O tubaro movia-se sem pressa e no 
parecia estar interessado nela. Talvez j tivesse se alimentado o suficiente naquele dia. Mas, mesmo com a barriga cheia, esses animais costumam atacar quando se 
sentem importunados.
        Se permanecesse quieta, era bem capaz que ele a ignorasse e partisse em busca de guas mais interessantes. No fora isso que ela lera nos livros de seu pai? 
E no foi isso que Ky lhe dissera uma vez enquanto almoavam a bordo do "Tufo"? Mas tudo isso parecia to remoto e irreal agora, quando a nica coisa que conseguia 
avistar entre ela e a superfcie era a figura do poderoso e feroz predador.
        O que chamava a ateno dos tubares sob as guas eram os movimentos e os rudos. O deslocamento de um mergulhador, por exemplo, funcionava como verdadeiro 
chamariz.
        Ele estava a menos de cinco metros de distncia de Kate. Ela podia ver-lhe claramente os pequenos olhos pretos e o movimento ritmado das guelras. No podia 
fazer nada, apenas manter-se imvel e rezar para que ele fosse logo embora.
        Mas, e quanto a Ky? Ele retornaria a qualquer momento, sem imaginar o que estava se passando l embaixo.
        Com seu fantstico faro para caa, o tubaro no teve dificuldades para sentir o distrbio provocado na gua. O movimento dos ps e dos braos de Ky atrairia 
o enorme peixe antes que ela tivesse chance de avis-lo do perigo. No, ela no podia ficar sem fazer nada, vendo o companheiro mergulhar, em direo  morte.
        Virando o rosto para baixo, viu que o arpo estava a pouca distncia dela. Encontrava-se desarmado, por segurana. Kate jamais chegara a armar e muito menos 
a disparar um. E, antes de mais nada, teria de chegar at ele. Haveria apenas uma chance. Sabendo que no dispunha de tempo para tentar acalmar os nervos, ela se 
ps em ao.
        Sem perder o tubaro de vista, aproximou-se lentamente do arpo. Naquele momento, o animal no parecia interessado em nada. Talvez fosse embora antes que 
Ky descesse, mas ela precisava da arma. No podia fiar-se nessa esperana.
        No instante em que firmou os dedos no arpo, notou um vulto prximo da superfcie da gua. E o tubaro, virando-se para a esquerda, partiu na direo de 
Ky, sem que ele percebesse.
        - No! - ela gritou enquanto armava o arpo, mas sob as guas sua voz era inaudvel. Seu nico pensamento naquela hora foi o de proteger a vida do homem 
que amava. Kate avanou, com o objetivo de ficar na metade do caminho entre Ky e o tubaro. Tinha de se aproximar dele o mximo possvel para no errar. Caso contrrio, 
seria o fim de tudo: dos sonhos de Ky, de sua vida.
        Pela segunda vez, Kate pde ver aqueles olhos pequenos, to negros quanto a morte. Agora, no entanto, o tubaro movia-se na direo dela com enorme velocidade. 
Suas mandbulas se abriram, e ela pde ver como que uma caverna atravs delas.
        Ky mergulhava com rapidez querendo juntar-se  mulher amada, ansioso por continuar na busca daquilo que os unira novamente. Se era do tesouro que ela precisava 
para tomar uma deciso, ento ele o encontraria. Com isso, talvez pudessem abrir as poucas portas de seu relacionamento que ainda permaneciam fechadas. Seu sangue 
fervilhava de excitao enquanto mergulhava para o fundo.
        Ao avistar o tubaro, parou, aterrorizado. Essa sensao j o havia visitado antes, mas nunca de maneira to intensa. Embora sabendo ser totalmente intil 
contra um predador daquelas dimenses, Ky puxou a faca do cinto e partiu para o ataque, preocupado com Kate que ficara sozinha.
        Como um rojo, Kate se colocou entre ele e o tubaro. Isso fez o sangue de Ky gelar. Teria ela enlouquecido? Ou simplesmente no se dera conta da presena 
do perigoso visitante?
        Ao ver o que a companheira segurava nas mos, seu desespero aumentou, e ele comeou a mergulhar na direo dela o mais veloz que podia.
        O arpo disparou, e o dardo cravou-se profundamente na carne do tubaro, que continuou avanando cheio de dor e dio. Ele iria segui-la agora, Kate sabia. 
Se o dardo no o derrubasse, ele estaria em cima dela em questo de momentos.
        Ky viu o sangue jorrando do ferimento. O tubaro sacudia-se para os lados como que para se libertar do dardo, ao mesmo tempo em que comeava a diminuir a 
velocidade com que se movia para frente. Ento, furiosamente, Ky foi para cima dele, desferindo golpes certeiros e contnuos.
        A uns poucos metros de distncia, Kate assistira  batalha. Ela estava completamente paralisada. O sangue brotava do corpo do tubaro e dissipava-se na gua. 
Soltando o arpo, Kate tambm pegou sua faca e partiu para auxiliar o companheiro.
        Mas no foi necessrio, pois estava tudo acabado e o corpo do animal afundava sem vida. Kate ainda teve tempo de ver-lhe os olhos uma ltima vez.
        Sentia-se meio atordoada e com o brao muito dolorido, devido ao esforo para armar o arpo e  tenso por que acabava de passar. No ops resistncia alguma 
quando Ky a abraou e a levou de volta para a superfcie. Apesar do susto, ele estava ali ao lado dela, so e salvo, e isso era motivo para alegria.
        Cansado demais para falar, Ky puxou-a para cima da escada, com tanque e tudo. Ento viu as barbatanas de mais dois tubares que apressadamente se dirigiam 
ao local da luta, atrados pelo sangue.
        - Ora, o que aconteceu? - perguntou Marsh, levantando-se e atravessando o convs at onde Kate estava deitada.
        - Tubares - Ky respondeu sem rodeios, enquanto se ajoelhava ao lado dela. - Eu tive de traz-la para cima muito rpido, Kate. - Colocando a mo por trs 
do pescoo dela, Ky a levantou e comeou a retirar-lhe os tanques das costas. - Voc est atordoada? Sente alguma coisa nos joelhos, nos cotovelos?
        Embora ainda estivesse respirando com certa dificuldade, Kate sacudiu a cabea, negando.
        - No, no, eu estou bem. - Ela sabia que Ky estava preocupado com problemas de descompresso, por isso tentou imprimir alguma firmeza s palavras, para 
tranqiliz-lo. - Ky, ns no estvamos assim to fundo quando voc me trouxe para cima. Portanto, no h motivo para se preocupar.
        Ele confirmou com um gesto de cabea. Depois, levantando-se, arrancou a mscara e a atirou no cho.
        - Algum quer me dizer o que est acontecendo? - Marsh perguntou, impaciente. - Ky pediu-me para desligar os motores do barco, falou sobre fivelas de sapato 
e eu acabei sem entender nada.
        - A carga do navio - Kate murmurou. - Ns a encontramos. Mas apareceu um tubaro.
        - Ela quase se matou - Ky explicou com voz furiosa -, nadando direto para a frente dele. - Antes que Marsh pudesse fazer qualquer comentrio, Ky virou-se 
para Kate e continuou: - Ser que voc se esqueceu de tudo o que eu lhe ensinei? Voc conseguiu concluir o seu doutorado, mas no  capaz de se lembrar que deve 
tentar permanecer imvel quando um tubaro est por perto? Voc sabe que os movimentos de braos e pernas os atraem, e mesmo assim permaneceu bailando na frente 
dele, segurando um arpo: ineficiente contra um animal daqueles. Se eu no tivesse chegado naquela hora, ele a teria estraalhado.
        Qualquer emoo que Kate pudesse ter sentido at aquele momento foi encoberta por uma profunda raiva. Com calma, ela removeu a mscara e levantou-se.
        - Se voc no estivesse chegando naquela hora, no teria havido nenhum motivo para eu me arriscar, colocando-me na direo dele. Fiz aquilo por voc. - Virando-se, 
ela caminhou at a escada e desceu para a cabine.
        Por um momento o convs ficou envolto em profundo silncio. Sabendo que no haveria mais mergulhos naquele dia, Marsh dirigiu-se ao leme.
        -  costume - ele disse a Ky, sem se voltar - dizer pelo menos "obrigado"  pessoa que nos salva a vida. - Sem esperar uma resposta, ele acionou os motores.
        No fora descuido, Ky pensou, um tanto abalado e arrependido. Ela o fizera sabendo do risco que corria. Colocara-se no caminho do tubaro por causa dele. 
Arriscara a prpria vida para salv-lo. Passando as duas mos no rosto, como que para clarear as idias, Ky se dirigiu  cabine.
        Ao entrar, viu Kate sentada na tarimba, segurando um copo nas mos. Prximo a seus ps, havia uma garrafa de conhaque. Ningum jamais havia feito coisa semelhante 
por ele. Isso o deixava sem saber o que dizer.
        - Kate...
        - Por favor, eu no estou disposta a ter ningum gritando nos meus ouvidos neste momento.
        - Eu no vou gritar. - Por ele estar se sentindo to mal quanto Kate, sentou-se ao lado dela e, apanhando a garrafa, comeou a beber tambm. - Voc me deixou 
apavorado l embaixo.
        - Eu no vou lhe pedir desculpas pelo que fiz.
        - Eu deveria agradec-la. Mas o problema  que voc no tinha nada que fazer aquilo. Foi uma grande sorte no ter sido devorada por aquele tubaro.
        Virando-se para ele, Kate disse, fitando-o:
        - Eu deveria ter ficado quieta no fundo, s e salva, enquanto voc lutava com ele usando sua faca?
        - Sim.
        - E voc teria feito isso em meu lugar?
        -  diferente.
        - Oh! - Com o copo na mo, ela se levantou. Durante alguns instantes, ficou a observ-lo, aquele rosto de contornos slidos e bem definidos, aquela pele 
bronzeada, os cabelos ensopados e despenteados, aqueles olhos que pareciam refletir o mar. - E voc se importaria de me explicar a lgica disso?
        - Eu no tenho de explic-la. Simplesmente  diferente.
        - No, no , e esse  um dos seus maiores problemas.
        - Kate, voc tem alguma idia do que poderia ter acontecido se no tivesse acertado um ponto vital do animal com aquele arpo?
        - Sim. Agora vou subir e ficar com Marsh.
        - Espere um minuto. - Ky levantou-se para bloquear-lhe a passagem. - Ser que voc no percebe que eu no seria capaz de continuar vivendo se algo lhe acontecesse? 
Eu quero tomar conta de voc. Preciso mant-la em segurana.
        - Enquanto voc toma para si todos os riscos?  assim que deve ser o nosso relacionamento? Voc o homem, eu a mulher? Eu asso o po enquanto voc sai em 
busca da carne?
        - Ora, Kate, no  bem assim.
        -  assim - ela continuou, aborrecida. - Voc quer que eu me submeta a um modo de vida que voc escolheu para mim. Quer que eu o obedea, que me curve diante 
de suas vontades. No entanto, eu sei muito bem como voc se sentia com relao a meu pai. Eu passei a minha vida toda tentando fazer coisas que o deixassem satisfeito 
- ela prosseguiu, agora mais calma. - Ele sacudia a cabea em sinal de aprovao, mas apenas isso. Nenhuma demonstrao sincera de afeio, de carinho. E agora voc 
est me pedindo que faa as mesmas coisas por voc. Por que  que os dois nicos homens que eu j amei ho de querer-me to submissas aos seus desejos?
        - No - disse Ky, colocando as mos nos ombros de Kate. - No, isso no  verdade. No  o que eu desejo de voc ou para voc. Apenas quero tomar conta da 
mulher que amo.
        - E qual  a diferena, Ky? - ela sussurrou, - Qual  a diferena? - Sem dizer mais nada, Kate subiu para o convs.
        
        
        
       CAPTULO XII
        
        
        
        Recobrando a calma. Kate pediu a ele que a deixasse sozinha para que pudesse refletir sobre o que havia acontecido.
        Seria bom para Ky estar s tambm e reavaliar seu comportamento e suas palavras.
        Ele percebeu que, por causa do medo de perd-la, por causa da necessidade que sentia de zelar por Kate, acabara por mago-la e colocara em risco o seu relacionamento 
j to delicado.
        De certa forma, Kate tinha razo em suas acusaes. Ele se preocupava demais e tentava mant-la em total segurana, fazendo a parte mais arriscada do trabalho. 
Era de sua natureza procurar proteger aquilo que amava. No caso de Kate, talvez at com certo exagero. Tambm era natural para ele querer que outras pessoas se curvassem 
diante de seus desejos.
        A maneira sutil com que o Sr. Hardesty costumava manipular a filha o tinha enfurecido uma vez. Agora era ele quem estava fazendo a mesma coisa, embora por 
razes diferentes. Ele queria apenas que Kate permanecesse a seu lado e tinha certeza de poder faz-la feliz se ela permitisse.
        No entanto, nunca levara em conta o fato de Kate ter seus prprios planos. E, at o momento Ky no havia pensado em como faria para se adaptar a eles.
        A suave luz da aurora anunciava a chegada de um novo dia, Ky trabalhara quase a noite toda em seu barco, no barraco de sua casa, dando a Kate e a si prprio 
algumas horas de solido para refletirem.
        Agora, apenas uma coisa parecia cada vez mais clara em sua mente, to clara quanto o dia em que se iniciara: o fato de que Kate era o grande amor de sua 
vida.
        Durante os dias que se seguissem, eles procurariam se; concentrar exclusivamente na escavao da carga do navio naufragado. Quanto mais se prolongava a busca 
mais o tesouro se transformava num smbolo para ele! Se pudesse d-lo a Kate, isso representaria o fim da procura para ambos. E os dois teriam nas mos aquilo por 
que tanto lutaram.
        Kate realizaria o sonho de seu pai; e Ky teria a satisfao de v-la livre do compromisso.
        Ele fechou as portas do barraco e se dirigiu  casa. Em poucos dias, ele pensou, teria algo mais para dar a Kate. Algo mais para pedir-lhe.
        Ainda estava a certa distncia da cabana quando sentiu o suave aroma de bacon e caf fresco que vinha da cozinha. Ao entrar, deparou com Kate de p junto 
ao fogo, vestindo uma longa camiseta, com os ps descalos e os cabelos soltos.
        - Eu achei que, j que vamos ter um exaustivo dia de trabalho pela frente, deveramos fazer um desjejum reforado - ela explicou assim que o viu.
        Ele ficou apenas observando, enquanto Kate fritava os ovos.
        - Kate, eu gostaria de lhe falar.
        - E estive pensando que ns talvez devssemos alugar um barco maior, afinal de contas - ela o interrompeu. - E, quem sabe, contratar mais dois ou trs mergulhadores. 
Desenterrar a carga do navio daqui para frente vai ser uma tarefa muito lenta se houver apenas ns dois para fazer o trabalho.
        - Eu no quero falar sobre negcios agora.
        -  algo que no podemos adiar por muito tempo. - Ela retirou os ovos da frigideira e os colocou nos pratos. - Estou comeando a achar que devemos acelerar 
as escavaes. Caso contrrio, empataremos ainda vrias semanas no servio.
        - No agora. - Ky desligou o fogo sob a frigideira e tomou os pratos das mos de Kate, colocando-os sobre a mesa. - Oua, eu tenho de fazer uma coisa, e 
no estou certo de poder faz-la bem.
        Virando-se Kate apanhou os talheres na gaveta e sentou-se  mesa.
        - O que?
        - Desculpar-me. - Quando Kate o fitou com aquele seu jeito tpico e calmo, ele praguejou. - No, eu no vou mesmo conseguir faz-lo bem.
        - No  necessrio - ela disse, levantando-se.
        - Sim-,  necessrio. Sente-se. - Ky suspirou profundamente enquanto ela permanecia de p. - Por favor... - ele pediu, enquanto puxava uma cadeira e sentava-se. 
Sem dizer uma palavra, Kate acomodou-se perto dele. - Voc me salvou a vida ontem. Reconheo que jamais teria derrubado aquele tubaro com minha faca de mergulhador. 
A nica razo de t-lo conseguido foi porque voc j o tinha enfraquecido e distrado.
        Com uma calma incomum, Kate pegou a xcara de caf e tomou um gole, como se estivessem discutindo o assunto mais banal do mundo.
        - Sim?
        Com um ar de frustrao, Ky espetou os ovos com o garfo.
        - Eu nunca fiquei to assustado - ele confessou. - Nem por mim mesmo nem por outra pessoa. Pensei que ele fosse peg-la. - Ky levantou a cabea e seus olhos 
encontraram os dela, serenos, pacientes. - Eu ainda estava longe demais para fazer qualquer coisa. Se...
        - Algumas vezes  melhor no ficar se atormentando com possibilidades que no chegaram a acontecer.
        - Est bem - ele concordou com um gesto de cabea e, esticando o brao, segurou a mo dela. - Kate, saber que voc arriscou a vida para me proteger apenas 
contribuiu para tornar as coisas piores de alguma forma. Imaginar que qualquer coisa ruim pudesse lhe acontecer j era terrvel, mas a idia de algo lhe acontecendo 
por minha causa era insuportvel.
        - Voc teria me protegido.
        - Sim, mas...
        - No deveria haver nenhum "mas", Ky.
        - Talvez no.
        - Eu sou uma mulher diferente, hoje. Por muitos e muitos anos tentei reprimir meus prprios desejos porque achava que, de alguma forma, a aprovao de meu 
pai fosse to importante quanto o amor. Vejo as coisas com clareza agora.
        - Eu no sou o seu pai, Kate.
        - No, mas voc tambm tem uma maneira de impor suas vontades sobre mim. - Sua voz era serena, tranqila, e tinha o mesmo tom que ela usava quando falava 
a seus alunos. Kate no havia dormido enquanto Ky trabalhava no barraco. Como ele, ela tambm usara o tempo para meditar. - Quatro anos atrs, eu tive de atender 
a um de vocs e dar as costas ao outro. Isso me magoou, me fez mal. Hoje eu sei que so minhas prprias necessidades que tenho de satisfazer em primeiro lugar. Embora 
mal tivesse tocado o desjejum, Kate levantou-se e levou o prato para a pia. - Eu o amo, Ky - ela murmurou. - Mas tenho de buscar a resposta para algumas perguntas 
primeiro.
        Levantando-se, Ky caminhou at ela e colocou-lhe as mos nos ombros.
        - Est bem. Apenas no deixe de me avisar assim que tiver a resposta.
        - Quando eu a tiver, Ky... Quando eu a tiver.
        Durante trs longos dias eles mergulharam, removendo sedimentos e encontrando novos objetos. Descobriram mais de oito mil dos dez mil cachimbos decorados 
relacionados na lista de mercadorias transportadas pelo "Liberty". Pelo menos metade deles, para a alegria de Kate, tinha seus fornilhos intactos. Eram cachimbos 
longos, de argila, cujos fornilhos eram decorados com folhas de carvalho ou cachos de uvas e flores. Num momento mximo de prazer, ela bateu uma foto de Ky enquanto 
ele segurava um junto aos lbios.
        Kate sabia que, em leilo, eles cobririam com grande vantagem o investimento que ela fizera. Mas, mais do que isto, a descoberta de tantos cachimbos em meio 
aos destroos servia para reforar a idia de que o navio encontrado era realmente o que procuravam.
        Havia tambm caixas de fumo em grande quantidade, o que deixava mais do que provado que se tratava do "Liberty". Encontraram mais talheres e louas, algumas 
delas elegantes e finas, algumas de qualidade inferior. A lista de achados cresceu muito alm das expectativas de Kate.
        Em dado momento, ao remover os sedimentos, ela tocou em algo escondido em meio quela confuso. Num gesto rpido e automtico, puxou a mo para trs. As 
lembranas de raia-lixa e outros perigos ainda estavam bem vivas em sua mente. Quando o pequeno objeto redondo tiniu, batendo contra uma xcara, seu corao disparou. 
Kate estendeu o brao e o apanhou. Surpreendeu-se ao ver que tinha entre os dedos uma pequena moeda de ouro muito antiga.
        Embora j tivesse lido a repetio no esperava que pudesse se conservar to brilhante e reluzente como no dia em que fora cunhada.
        Era de origem inglesa e datava do ano de 1740.
        Ky! Meio estonteada pela emoo, Kate pronunciou o nome dele. O som era abafado e indistinguvel, mas Ky percebeu e virou-se. Incapaz de se conter, Kate 
foi em sua direo. Segurou-lhe o brao e pressionou a moeda contra a palma de sua mo.
        No foi necessrio v-la para saber do que se tratava. Estava escrito nos olhos da companheira. Ela acabava de encontrar aquilo que tanto desejara. Colocando 
a moeda de volta na mo dela apertou-lhe os dedos com firmeza. O ouro pertencia a Kate.
        Mergulhando lado a lado com a companheira, Ky se dirigiu ao local onde havia sido achada a moeda. Juntos, continuaram a busca, com toda a pacincia. Durante 
os vinte minutos que lhes restavam de ar, s conseguiram encontrar mais cinco moedas. Tratando-as como se fossem feitas de vidro, Kate colocou-as na sacola com especial 
cuidado antes de subirem  superfcie.
        - Est l, Ky - ela disse enquanto ele puxava a primeira sacola para dentro do barco. Haviam dispensado o auxlio de Marsh, e estavam os dois sozinhos novamente. 
-  o "Liberty". Ns o encontramos!
        -  o "Liberty", sem dvida - ele concordou, pegando a segunda sacola das mos dela. - Voc conseguiu terminar o que seu pai havia iniciado.
        - Sim. - Kate desatou os tanques e sentiu um enorme alvio. - Eu consegui. - Remexendo o fundo da sacola, ela retirou as seis moedas brilhantes. - Estas 
estavam soltas. Ainda no encontramos a arca. Se  que ela ainda existe.
        - Eles poderiam t-la transportado para uma outra dependncia do navio assim que o temporal comeou.
        -  possvel que tivessem colocado o ouro num dos botes salva-vidas. A histria do sobrevivente no  muito clara a partir do momento em que o navio comeou 
a espatifar-se.
        - Muitas coisas so possveis - ele disse, tocando suavemente o rosto dela com a mo. - Com um pouco de sorte e um pouco mais de tempo, vamos encontr-lo.
        Ela sorriu e jogou as moedas de volta  sacola.
        - Ento voc poderia comprar o seu barco novo.
        - E voc poderia fazer sua viagem  Grcia.
        Durante toda a tarde, o tempo foi utilizado para transportar os achados que se encontravam no "Tufo" para a casa de Ky, onde foram separados e catalogados. 
Kate j havia decidido entrar em contato com o Park Service. A ajuda seria de muita valia e facilitaria o resgate do que ainda restava do "Liberty". Poderia prestar 
uma justa homenagem  memria de seu pai e dar a Ky qualquer coisa que ele pedisse. S isso j fazia valer a aventura.
        O acordo original no tinha mais importncia. Se ele quisesse metade, ela o daria sem discutir. Tudo o que desejava para si, Kate pensou, era a primeira 
tigela que encontrara, a moeda de prata e a de ouro que a conduzira s outras cinco.
        - Ns teremos de pensar em arranjar um barco maior e tambm mais equipamento - ele observou enquanto colocava no cho uma pequena caixa prateada de fumo. 
- talvez fosse melhor interrompermos o mergulho pelos prximos dois ou trs dias, durante o tempo em que cuidamos disso. J estamos trabalhando h seis semanas e 
mal conseguimos extrair os artigos que esto beirando a superfcie.
        Ela concordou com um simples gesto de cabea, incerta sobre a razo que a fazia sentir naquele momento uma grande vontade de chorar. Como poderia explicar 
a ele o que no conseguia explicar a si mesma? Enquanto o sol se punha, observava feliz o espetculo que lhe proporcionava a natureza.
        - Ky... - ela comeou, mas interrompeu-se em seguida, pois no era capaz de encontrar as palavras certas para dizer-lhe o que se passava dentro dela. Tristeza, 
desejos, uma sensao de vazio.
        - Algo errado?
        - Nada - ela respondeu, mas, enquanto se levantava, pegou as mos dele. - Venha - ela disse com voz suave. - Faa amor comigo antes que o sol se ponha.
        Algumas perguntas surgiram na mente de Ky, mas ele disse a si mesmo que poderiam esperar. A necessidade que ele percebeu no tom de voz de Kate era to grande 
quanto a sua prpria. Ele queria dar a ela e receber dela aquilo que no poderia em nenhuma outra parte ser encontrado.
        O quarto estava banhado pela luz clida e suave do sol. O cu assumia uma colorao avermelhada no momento em que Ky se deitou ao lado dela. Os braos de 
Kate o envolveram, enquanto os lbios dela se entreabriram para receber os dele. Despiram um ao outro. Agora, livres de obstculos, os corpos nus se encontravam 
e suas bocas ansiosas se tocavam.
        Seguiram-se beijos longos e profundos que os conduziram alm dos domnios do tempo e do espao. J no havia passado, no havia o amanh; tudo que importava 
era o momento presente. O corpo dela se tornava submisso sob o dele, mas sua boca buscava sfrega o xtase e o prazer!
        Enquanto as mos msculas de Ky tratavam de fazer emergir  superfcie as emoes de Kate, ela fazia exatamente o mesmo com ele, explorando os msculos rijos 
de suas costas. Demorando-se ali, ela apreciava uma das mais marcantes diferenas entre o corpo viril e firme de Ky e o seu, suave e delicado. A pele dele era lisa, 
e os msculos, fortes e bem proporcionados. Ele era esbelto, mas no havia o menor sinal de fraqueza ou fragilidade em seu corpo.
        - Kate... - ele murmurou ofegante, enquanto saboreava com a ponta da lngua a pele alva e sensual dos seios dela. - Voc  uma tentao. Diga-me que deseja 
mais!
        - Sim - a palavra veio acompanhada de um gemido de prazer. - Eu desejo mais.
        E ele a satisfez.
        Por diversas vezes, viu o prazer e o delrio estampados no rosto de Kate, enquanto ela arqueava o corpo e agitava-se com a respirao acelerada. Ela havia 
se entregado sem qualquer reserva. Penetrando-a com a lngua, Ky pde senti-la explodir de excitao.
        Nesse momento, Kate rolou para cima de Ky, provocando-o de uma maneira que s ela sabia e que o fazia gemer e perder o controle.
        Rolaram sobre a cama entre murmrios. A delicadeza j no mais existia, estavam entregues ao instinto. Debatiam-se com apenas um objetivo: a plena satisfao 
de seus desejos.
        Tremendo e apertados um contra o outro, finalmente atingiram o xtase juntos. Agora reinava a suavidade entre eles. Sorriam como que encantados um com o 
outro.
        A madrugada estava surgindo clara e calma, enquanto Kate permanecia em silncio, observando Ky dormir. Ela sabia que alguma coisa deveria ser feita para 
que amor no fosse desperdiado.
        Ela havia negociado com Ky, oferecendo-lhe uma parte do ouro em troca de seus servios. A princpio, Kate acreditara que queria o tesouro, que necessitava 
dele como um meio de obter o direito de tomar as prprias decises, coisa que nunca tivera. Agora, sabia que estava enganada. Aquela quantidade de ouro multiplicada 
por cem no iria mudar o que existia entre ela e Ky, o que os ligara e depois os separara.
        Ela o amava. E sabia que, a seu prprio modo, ele tambm a amava. Ser que isso seria suficiente para superar as diferenas existentes entre eles? Ser que 
isso a fazia desejar abandonar a prpria vida para unir-se quele homem? Ou a tornava capaz de pedir a ele que fizesse o mesmo?
        Seus mundos continuavam to diferentes como h quatro anos. Seus desejos continuavam em desarmonia. Se ela ficasse, teria de renunciar  carreira. Mais cedo 
ou mais tarde acabaria se desprezando por isso, e na certa ele ficaria ressentido. Era melhor aceitar o que haviam tido por umas poucas semanas do que tentar prolongar 
a situao.
        O tesouro era importante para Ky. Ele havia se arriscado e trabalho pelo ouro. Kate colocaria parte dos achados no museu, conforme havia prometido, para 
que a memria de seu pai jamais fosse esquecida. E ele poderia ficar com todo o resto. Em silncio, ela se vestiu.
        Decidida a ir embora, no demorou muito a apanhar a mala no quarto e juntar tudo o que levaria consigo. Numa caixa, colocou a tigela embrulhada em camadas 
de jornal, a moeda de prata e a de ouro foram colocadas num saquinho. Com igual cuidado, empacotou o filme com as fotos que havia batido no fundo do oceano.
        Resolveu que seria melhor partir sem falar com Ky.
        Depois de colocar a mala no carro, voltou e deixou as cinco moedas de ouro sobre a penteadeira. Dando uma ltima olhada para ele, que ainda dormia, saiu 
para despedir-se do lugar.
        Tinha de ter um momento final de contato com o mar. A manh estava bonita, e ela deu uma rpida caminhada pelas dunas. Guardaria esta doce imagem na lembrana, 
a gua batendo suavemente na areia branca, espalhando a espuma pela praia.
        O dia clareava depressa, e ela tinha de partir. Embora um pouco confusa, deu as costas para o mar e caminhou em direo ao carro.
        Seus dedos no haviam ainda tocado a maaneta da porta quando ela ouviu a voz firme de Ky.
        - Que diabos pensa estar fazendo?
        Virando-se para ele, Kate sentiu sua determinao desmoronar. Os olhos dele estavam pesados de sono, e seus cabelos, despenteados. Vestia apenas uma bermuda 
velha.
        - Eu tinha a inteno de partir antes que voc acordasse.
        -Partir? - Seu olhar estava agora fixo no dela. - Para onde?
        - Eu vou voltar a Connecticut.
        - ? - Ele havia jurado que no perderia a calma. No desta vez. - Por qu?
        - Voc mesmo j respondeu a essa pergunta ontem, Ky, enquanto voltvamos de nosso ltimo mergulho. Eu consegui realizar aquilo a que tinha me proposto.
        Ele abriu a mo. As cinco moedas brilhavam, refletindo os primeiros raios de sol da manh.
        - E quanto a isto?
        - Quero que fique com elas - Kate disse com esforo, sem saber por quanto tempo ainda conseguiria falar sem demonstrar todo o aperto que estava sentindo 
no corao. - O tesouro no  importante para mim. Ele  seu.
        - Maldita generosidade - ele disse, virando a mo e deixando as moedas carem na areia. -  isso o que o ouro significa para mim, professora.
        - Mas eu no o entendo.
        - Era voc quem queria o tesouro. Ele nunca representou nada para mim.
        - Mas voc disse... Quando eu o procurei, voc disse que aceitaria o servio por causa do tesouro.
        - No. Eu aceitei o servio por sua causa. Voc queria o ouro, Kate.
        - No era por seu valor em dinheiro. - Passando a mo pelos cabelos, ela se virou para o outro lado. - Nunca me importei com isso.
        - O problema era o seu pai, no?
        Kate confirmou com um gesto de cabea. Era verdade, mas isso no mais a magoava.
        - Eu terminei o que ele havia iniciado, e dei algo a mim mesma. No quero mais as moedas, Ky.
        - Por que voc est fugindo de mim outra vez?
        Ela voltou a encar-lo.
        - Ns somos quatro anos mais velhos do que ramos naquele vero, mas ainda continuamos as mesmas pessoas.
        - E da?
        - Ky, quando eu o abandonei naquela ocasio, foi em parte por causa de meu pai. Eu sentia que devia ser leal com ele. Mas se tivesse achado que voc me queria 
- ela enfatizou colocando a palma da mo sobre o corao -, assim como sou, e se achasse que poderamos ter um futuro juntos, eu no teria partido. Nem estaria partindo 
agora.
        - E quem lhe deu o direito de decidir por mim o que eu quero, o que sinto? Talvez eu tenha cometido erros, mas j paguei por todos eles. Fiz de tudo para 
no repeti-los desta vez. Esforcei-me ao mximo. De repente eu acordo e descubro que voc est fugindo sem me dizer uma palavra sequer.
        - No existem palavras, Ky. Eu sempre lhe ofereci muitas delas, mas voc nunca me deu o suficiente.
        - Voc sempre foi melhor com as palavras do que eu.
        - Muito bem, ento eu as usarei agora. Eu o amo e sempre o amei, mas tambm conheo minhas prprias limitaes. Talvez conhea as suas tambm.
        - No, voc pensa demais em limitaes, Kate, e se esquece de pensar nas possibilidades. Eu a deixei partir uma vez. Mas no ser fcil agora.
        - Eu preciso tentar ser eu mesma, Ky. No posso viver o resto de minha vida como tenho feito at agora.
        - Mas por que diabos voc insiste em ser qualquer coisa alm do que ? - ele explodiu. - J  hora de voc parar de confundir o amor com a responsabilidade 
e olhar para o outro lado da questo. Amar  compartilhar, dar e receber. Se lhe peo que me d parte de voc,  justo que lhe oferea parte de mim em troca.
        Incapaz de se conter, Ky segurou-lhe os braos, como se atravs desse contato pudesse fazer com que suas palavras fossem melhor entendidas.
        - Eu no quero a sua devoo constante. No quero que se sinta presa a mim, nem quero passar a vida pensando que tudo o que voc faz  para me agradar. Diabos! 
Eu no desejo esse tipo de coisa.
        Calada, ela o fitou. Ele nunca havia dito nada a ela de maneira to simples e objetiva. Uma ponta de esperana comeou a surgir. No entanto, Ky estava apenas 
lhe contando o que no queria. Ao apresentar a outra face da moeda, contudo, quem sabe se esta esperana no pudesse outra vez se apagar?
        - Diga-me agora aquilo que voc quer.
        - Venha comigo um minuto - ele pediu, segurando-lhe a mo e conduzindo-a ao barraco. - Quando, comecei a constru-lo era porque sempre prometera a mim mesmo 
que o desejava. Mas no demorou muito para que as razes se alterassem. - Girando o ferrolho ele abriu as portas do barraco.
        No primeiro momento. Kate no viu nada. Aos poucos, no entanto, seus olhos se acostumaram  escurido e ela deu alguns passos em direo do interior. O barco 
estava quase terminado. O casco estava lixado e pintado, esperando apenas que Ky o tirasse e prendesse o mastro. Era adorvel e simples. Olhando para ele, Kate pde 
ter uma boa idia de como seria sobre as guas, viajando com o vento. Livre, leve e gil.
        -  lindo Ky. Eu sempre tive curiosidade... - Ela se interrompeu no instante em que leu o nome gravado na popa:
        "Segunda Chance".
        -  tudo o que desejo de voc - Ky disse a ela apontando para as duas palavras. - O barco  seu. Quando eu o comecei, achei que o estava construindo para 
mim. Na verdade, estava fazendo tudo por voc, porque sabia que esse era um sonho que voc compartilharia comigo. Eu apenas quero o que est gravado nele, Kate. 
Para ns dois. - Em silncio, ela o viu subir no barco e abrir um pequeno compartimento de onde retirou uma caixinha.
        - Eu o limpei - ele explicou enquanto abria a tampa e revelava o magnfico e reluzente diamante que encontrara. - No me custou nada.  simplesmente algo 
que descobri entre as rochas.
        Quando Kate comeou a falar, ele a interrompeu.
        - Espere um pouco. Voc desejava palavras e eu no terminei ainda. Sei muito bem que voc tem necessidade de lecionar. No estou lhe pedindo que desista 
disso. Apenas que me d um ano em Ocracoke. H uma escola aqui, no como Yale, mas ainda assim repleta de alunos que precisam de um bom professor. Um ano, Kate. 
Se depois desse tempo voc descobrir que no  o que deseja, ento eu a acompanharei de volta.
        - De volta? - ela perguntou, espantada. - Para Connecticut? Voc seria capaz de morar l?
        - Se for necessrio.
        Um compromisso... ela pensou, surpresa. Ele estava se oferecendo para ajustar a sua vida de acordo com a dela?
        - E se Connecticut no o agradar?
        - Ento ns tentaremos algum outro lugar. Talvez tenhamos de nos mudar meia dzia de vezes nos prximos anos. Mas o que importa? Eu quero que voc se case 
comigo - disse, estudando a expresso do rosto de Kate para ver se aquelas simples palavras a faziam estremecer tanto quanto a ele. - Se voc concordar em me conceder 
um ano aqui em Ocracoke, acho que conseguiremos acertar nossas vidas. Podemos nos casar amanh, a no ser que voc ache muito cedo. Se quiser, posso esperar.
        Ela quase sorriu. Sabia que ele jamais esperaria. Uma vez que ela lhe prometesse ficar, Ky comearia a arranjar as coisas de maneira a lev-la ao altar o 
mais cedo possvel.
        Limitaes? Ela havia falado em limitaes? Pois no amor no havia nenhuma.
        - No - ela disse em voz alta. - Voc somente conseguir me ter aqui se me der um anel de casamento. E tudo mais que costuma acompanh-lo.
        - Negcio fechado - ele pegou a mo dela antes que pudesse mudar de idia e, retirando um anel do canto da caixa, colocou-o gentilmente no dedo de Kate. 
Reclamando baixinho, ele sacudiu a cabea. -  grande demais.
        - Tudo bem. Eu manterei a mo fechada pelos prximos cinqenta ou sessenta anos. - Com uma risada espontnea, ela atirou-se nos braos dele. Todas as dvidas 
haviam se dissipado.
        - Ns mandaremos ajust-lo - ele murmurou, beijando-lhe o pescoo.
        - Apenas se conseguirem fazer o servio sem que eu tenha de tir-lo do dedo. - Kate fechou os olhos feliz. Acabara de encontrar tudo que sempre procurara 
e sabia que o mesmo se passava com Ky. - Ky, quanto ao "Liberty", o resto do tesouro...
        Com um gesto suave, ele a beijou.
        - Eu no tenho mais nenhuma dvida quanto ao tesouro, Kate... afinal voc est comigo e era s isso que eu queria.
